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Brasil
Um vice cara-de-pau
José Alencar, que se
enrolou no caso
das camisetas vendidas ao PT, não tem
o que reclamar dos juros. Sua empresa
tomou 421 milhões de reais do
atual governo, a taxas favorecidas

Chrystiane Silva e José Edward
Desde que foi empossado no cargo de vice-presidente
da República, em janeiro de 2003, o empresário José
Alencar dedicou-se com maestria à tarefa de infernizar a
vida do próprio governo. Iniciou uma cruzada contra os juros,
chegando a propor que políticos tomassem o lugar dos técnicos
do Banco Central. Disse que os juros do BC não são
uma forma de controlar a inflação, mas um despropósito,
um "assalto" contra os trabalhadores e a classe empresarial. Embora
primário, o discurso de Alencar seria até comovente,
se não fosse contraditório e hipócrita. Dono
de uma das maiores empresas têxteis do país, a Coteminas,
Alencar tem acesso a linhas de crédito do governo com juros
altamente subsidiados, com taxas reais (descontada a inflação)
que muitas vezes ficam abaixo dos níveis cobrados até
em países de Primeiro Mundo.
Nos três anos do governo de Luiz Inácio
Lula da Silva, enquanto vociferava contra os juros do BC, a Coteminas
tomou emprestados 421 milhões de reais do governo utilizando
dois tipos de crédito subsidiado. Foram 221 milhões
em crédito rural, na modalidade EGF matéria-prima,
cuja taxa é tabelada, por lei, em 8,75% ao ano. Os outros
200 milhões foram liberados pelo BNDES, com taxas entre 12,25%
e 14%. A empresa já recebia empréstimos como esses
no governo anterior, é importante registrar. Mas o volume
aumentou 35% sob o governo petista, nas duas modalidades de créditos.
Em 2001 e 2002, a Coteminas recebeu 241 milhões de reais;
em 2003 e em 2004, o valor subiu para 324,3 milhões. As taxas
cobradas da empresa são realmente muito baratas. Só
para efeito de comparação, a Selic, criticada por
Alencar, está hoje em 18,5% ao ano. Já as taxas cobradas
pelos bancos, das empresas sem vice-presidente da República,
ficam acima de 30% ao ano, em média.
Alencar não viola nenhuma lei ao fazer
isso. Há décadas, empréstimos subsidiados têm
sido legalmente usados para fomentar a economia e, é claro,
agradar a apaniguados e amigos do rei. Mas os juros baratos do empresário
Alencar acabam encarecendo o crédito como um todo. Já
que não controla o fluxo de empréstimos como os de
Alencar, que têm taxas fixas ou alheias a suas decisões,
o BC é obrigado a dobrar a dose dos juros quando quer conter
a inflação. E o resto do país paga a conta.
Para entender como isso ocorre, basta imaginar uma represa cuja
vazão ocorre por três comportas. Para evitar o excesso
de vazão, é preciso reduzir o fluxo de água
igualmente em cada uma delas. Se uma das três comportas não
puder ser controlada, será necessário fechar ainda
mais as outras duas. A comporta que não pode ser fechada
são os empréstimos subsidiados. As outras duas são
os empréstimos que o resto do país toma. Portanto,
se estivesse mesmo preocupado com os escorchantes juros pagos pelos
pequenos empresários e consumidores brasileiros, o vice cara-de-pau
poderia lançar uma frente, dentro do governo, para acabar
com a mamata dos juros subsidiados que sua empresa e outros grandes
grupos nacionais recebem.
Seria uma irresponsabilidade afirmar que a
Coteminas é uma companhia de padrão global só
porque recebe empréstimos subsidiados. Mas é inegável
que a relação promíscua entre o empresário
Alencar e o político Alencar alimenta desconfianças.
Na semana passada, o jornal Folha de S.Paulo revelou que
a Coteminas recebeu do Partido dos Trabalhadores, em dinheiro vivo,
1 milhão de reais. O montante seria parte do pagamento de
uma dívida de 12,2 milhões de reais, contraída
nas eleições municipais de 2004 para a confecção
de 2,7 milhões de camisetas. Muitas suspeitas rondam essa
venda. Inicialmente, o hoje ex-tesoureiro do partido, Delúbio
Soares, disse que o pagamento do dinheiro constava da contabilidade
oficial do PT. Depois, afirmou que os reais vieram dos empréstimos
que o lobista Marcos Valério avalizou para o partido. Mesmo
essa versão, na qual Delúbio admite irregularidades,
carece de amparo na realidade. Há seis meses, Valério
divulgou uma lista dos repasses que ele teria feito em nome do PT.
O dinheiro pago à Coteminas não consta dela. "Ou Valério
omitiu o nome de José Alencar ou estamos diante de um caixa
três do PT", diz o deputado Gustavo Fruet, da CPI dos Correios.
| Fotos Divulgação/Celso Junior/AE
e Beto Barata/AE |
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| Fábrica de fios da Coteminas,
uma companhia global. Alencar (no alto, à esq.),
dono da empresa, em convenção do novo PRB. E Delúbio
(à dir.), que voltou à boa forma: deu várias
versões para o mesmo tema |
Também existem dúvidas do lado
da Coteminas. O preço das camisetas estava acima do usual
de mercado e, embora a dívida nunca tenha sido integralmente
paga pelo PT, a Coteminas não entrou na Justiça para
cobrá-la. Em suma, Alencar vendeu fiado ao PT, mas com preços
acima do mercado, e com o mesmo espírito dadivoso com que
Valério emprestou ao partido. É um caso de esquizofrenia
empresarial-filantrópica que não consta de manuais
capitalistas ou psquiátricos. O dado curioso, para dizer
o mínimo, é que Alencar foi um dos responsáveis
pelo ingresso do lobista Marcos Valério Fernandes de Souza
no coração do governo Lula, ainda na campanha de 2002.
Há mais curiosidades. Uma delas é
que a primeira carta em que a Coteminas finalmente cobra o resto
da dívida do PT foi enviada em 6 de junho passado
no exato dia em que o deputado Roberto Jefferson denunciou pela
primeira vez o esquema do mensalão. Um mês antes do
encaminhamento dessa carta, a Coteminas recebera o milhão
de reais em espécie, supostamente como o primeiro pagamento
da dívida. Montinhos de reais colocados em envelopes foram
entregues no escritório da empresa em São Paulo e
depois depositados na conta da Coteminas no Banco Bradesco da Avenida
Paulista.
A Coteminas é dona de marcas como Artex,
Santista, Calfat e Garcia. Em outubro, anunciou uma associação
com a Springs, com sede nos Estados Unidos, a maior indústria
americana no setor de cama, mesa e banho. A união resultou
na formação da maior companhia do setor no mundo,
batizada de Springs Global. Terá 25.000 funcionários,
36 fábricas e faturamento de 2,4 bilhões de dólares.
O acordo deve começar a valer em 2006, mas ainda depende
da aprovação dos órgãos de defesa da
concorrência do Brasil e dos Estados Unidos. Por tudo isso,
e também pelo fato de ser uma companhia aberta, e portanto
dever satisfação aos acionistas, é vital que
sua administração esclareça os fatos. Alencar
afirma que desconhecia o pagamento de 1 milhão de reais em
espécie. "Não tenho nada a ver com isso. Quem entende
de valerioduto é o PT", disse. Como suas declarações
não convenceram a CPI, ele pediu que o presidente da Coteminas,
Josué Christiano Gomes da Silva, seu filho, fosse a Brasília
explicar o caso. Josué, em grande parte responsável
pela boa administração da empresa, entregou aos integrantes
da CPI cópias das notas fiscais. Mas não conseguiu
dissipar as suspeitas de que a tal venda de camisetas nunca passou
de uma doação ao caixa dois (ou três) do Partido
dos Trabalhadores e que o pagamento de 1 milhão de reais
foi um acerto de contas paralelo.
Não é a primeira vez que as
camisetas da Coteminas embaraçam Alencar. Em 1998, a empresa
vendeu 2 milhões de unidades por 3 milhões de reais
ao PSDB. Na mesma operação, doou outras 400.000 blusas
à campanha, no valor de 590.000 reais. A transação
não consta da prestação de contas que os tucanos
entregaram à Justiça. Como o PT, o PSDB também
demorou para pagar as camisetas. O Ministério Público
acredita que os tucanos usaram fundos de pensão, principalmente
a Funcef e a Petros, para quitar a dívida com a Coteminas.
Beto Barata/AE
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| Valério: Alencar o levou ao PT |
As camisetas que fazem agora Alencar arder na fogueira do mensalão
o transformaram em bilionário. Em 1946, o vice, então
com 14 anos, tornou-se balconista de uma loja de tecidos em Muriaé,
no interior de Minas. Com o apelido de "Zé Kaquim", fez fama
como vendedor. Em 1960, Alencar assumiu em Ubá a direção
da tecelagem União dos Cometas. Não demorou para tornar-se
presidente da Associação Comercial de Ubá,
posição na qual apoiou o golpe de 64. Enriqueceu nos
anos 70. Conseguiu, nessa ocasião, seu primeiro financiamento
da Sudene, para instalar uma fábrica de tecidos no norte
de Minas. A Coteminas foi classificada pela Sudene na faixa de prioridade
A. Essa categoria obrigava o órgão a investir no negócio
três vezes mais do que os seus donos. A Coteminas também
contou com isenção de imposto de renda por dez anos
e redução de impostos de importação
de máquinas. Nas últimas três décadas,
Alencar comprou outras dez fábricas, todas na área
da Sudene. "Ele sempre teve habilidade ímpar para sugar todos
os recursos públicos e incentivos que a lei permite", diz
o empresário Stefan Salej, ex-presidente da Federação
das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).
Em 2002, Alencar foi cortejado por mais de
um candidato a presidente da República. Eles o queriam como
companheiro de chapa. Lula venceu a parada depois de uma longa negociação
com os dirigentes do PL, ao qual Alencar era filiado. A escolha
do empresário rico e com fama de competente foi um fator
decisivo para a vitória de Lula, uma vez que ajudou a quebrar
as resistências que havia no empresariado com relação
a um possível governo do PT. Ah, é claro, Alencar
doou oficialmente 2 milhões de reais à campanha de
Lula. Uma vez no cargo, o vice trouxe problemas não só
por causa da língua solta e da eterna cantilena de críticas
à política econômica. Sua atuação
à frente do Ministério da Defesa também rendeu
dissabores. Nacionalista empedernido, o vice-presidente não
tira da cabeça a idéia de salvar a combalida Varig,
ainda que, para isso, tenha de arrombar os cofres públicos.
Em março deste ano, ele comandou uma atrapalhada ação
de lobby em benefício da companhia aérea. Desde 1996,
a empresa move um processo contra o governo em que pede 4,6 bilhões
de reais por perdas supostamente provocadas por planos econômicos
que vigoraram entre 1985 e 1992. No ano passado, o caso chegou à
esfera do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em março
deste ano, Alencar, por sua conta e risco, decidiu procurar o presidente
do STJ, Edson Vidigal, para defender um acordo extrajudicial por
meio do qual o governo desistiria de recorrer contra a Varig no
processo. Ou seja: em vez de defender os interesses da União,
o vice-presidente fez justamente o contrário: trabalhou para
prejudicá-los, em benefício da companhia. Assim é
Alencar.
Com reportagem de
Giuliano Guandalini,
Marcelo Carneiro e Juliana Linhares
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"O
preço é com o PT"
O presidente da Coteminas,
Josué Christiano
Gomes da Silva, conversou com VEJA
sobre a polêmica das camisetas do PT.

Carlos Rydlewski
Joedson Alves/AE
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POR QUE A COTEMINAS SÓ COBROU A DÍVIDA
POR CARTA NA DIVULGAÇÃO DO MENSALÃO?
Pode ter sido uma coincidência. Pode até
ser que, à época, tenha nos ocorrido o
seguinte: "Ih, esse pessoal... e agora? Vão nos
pagar?". Se uma empresa tem um devedor, e a fábrica
dele explode, o credor fica preocupado.
EXISTEM NO MERCADO CAMISETAS
BRANCAS QUE CUSTAM ATÉ 2 REAIS. O PT PAGOU 3,28
REAIS. NÃO FOI CARO?
Na época da venda, o câmbio era mais
alto (2,90 reais contra 2,20 agora) e havia maior demanda.
Mas quem tem de reclamar do preço, se é
que tem, é o partido que pagou.
SEU PAI CRITICA A TAXA DE JUROS.
MAS A COTEMINAS BENEFICIA-SE DE TAXAS SUBSIDIADAS EM
LINHAS OFICIAIS. NÃO É UMA CONTRADIÇÃO?
Meu pai diz que, se quisesse trabalhar para ele,
estaria na empresa, não prestando um serviço
ao país. Mas é verdade. A taxa de juros
pune mais nossos concorrentes, menos capitalizados.
Mas, se fossem menores, haveria maior crescimento. Todos
ganhariam.
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