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Entrevista: Thomas
Friedman
Achatando o globo
O escritor e jornalista americano
afirma
que os avanços econômicos e tecnológicos
levaram a humanidade a uma nova fase:
a do mundo plano

Jerônimo Teixeira
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Win McNamee/Getty Images

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"Graças a revoluções
como a da internet, não apenas as empresas mas
também os indivíduos agora podem atuar em
âmbito mundial" |
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O escritor e jornalista americano Thomas
Friedman, de 52 anos, é uma das vozes mais influentes do
debate público nos Estados Unidos. Ele é titular de
uma coluna no jornal The New York Times (que a distribui
para mais de 700 publicações ao redor do mundo) e
autor de vários livros cujos temas principais são
o Oriente Médio e a globalização. Sua obra
mais recente, O Mundo É Plano (que a editora Objetiva
está lançando no Brasil), explica as bases econômicas
e tecnológicas do salto de desenvolvimento que países
como a China e a Índia deram nos últimos anos. Recebido
com algumas críticas, que tacharam de simplista a imagem
de um mundo "achatado" pela globalização, mas também
eleito o melhor livro de negócios do ano pelo jornal econômico
Financial Times, de Londres, O Mundo É Plano já
vendeu mais de 1,2 milhão de exemplares. Dono de um estilo
claro e espirituoso tanto na escrita quanto na fala, Friedman se
diz um entusiasta de tudo quanto permita à humanidade "maior
comunicação, colaboração e inovação"
muito embora, em alguns campos, adote a filosofia do "faça
o que eu digo, não faça o que eu faço". Ele
só recentemente comprou um celular e o programou para
nunca receber chamadas. "Não gosto de ser interrompido enquanto
penso", diz.
Veja O que é
o "mundo plano"?
Friedman É uma nova fase da globalização,
iniciada por volta de 2000, em que não apenas as empresas
mas também os indivíduos podem atuar em âmbito
mundial. Isso se tornou possível graças a algumas
tecnologias revolucionárias a internet, a telefonia
celular, a rede de fibra óptica mundial. Elas criaram uma
plataforma que permite múltiplas formas de comunicação,
colaboração e inovação. Toda a economia
mundial se apóia nessa plataforma, que está achatando
o mundo e transformando todos nós em vizinhos.
Veja Qual o
impacto dessa nova fase da globalização sobre os indivíduos?
Friedman Quando o mundo é plano, você
pode inovar sem emigrar. Um brasileiro não precisa ir para
Palo Alto ou Boston: ele pode inovar em São Paulo ou Brasília.
Os indianos estão fazendo isso. Houve uma época em
que a Índia era famosa por exportar engenheiros e pesquisadores.
Hoje, muitos indianos preferem permanecer próximos de sua
cultura comer seus pratos típicos, vestir sua própria
roupa, freqüentar as festas familiares. Outros tantos ainda
preferem trabalhar nos Estados Unidos. Mas isso já não
é mais uma necessidade é uma opção.
Veja Índia
e China são os países mais citados em seu livro. Como
eles conseguiram assumir essa posição de vanguarda
no mercado internacional?
Friedman O que impressiona nesses países
é sua habilidade de competir taco a taco não apenas
pelos empregos que os americanos já não desejam
como, por exemplo, as centrais de atendimento telefônico que
hoje proliferam na Índia , mas também pelos
empregos que eles querem manter, principalmente na pesquisa e no
desenvolvimento de tecnologia de ponta. É claro que o mesmo
pode ser dito de algumas empresas em vários países
do mundo Brasil, México, Israel, Tailândia,
Malásia. Mas a extensão em que isso acontece na Índia
e na China não tem paralelo em nenhuma outra nação
em desenvolvimento. Esses dois países conseguem competir,
conectar-se e colaborar no mundo plano.
Veja Qual a
importância da educação nesse cenário
de competição global?
Friedman Enorme. A Índia é um exemplo:
depois da independência, decidiu investir na construção
de vários Institutos de Tecnologia Indianos (IITs). Essa
decisão do primeiro-ministro Nehru possibilitou a formação
de dezenas de milhares de engenheiros qualificados, muitos dos quais
conseguiram emprego fora do país. Isso representa uma vantagem
competitiva. Afinal, o que é tecnologia? O que é,
por exemplo, o Google? Ora, o Google é uma série de
algoritmos que permitem realizar buscas na internet. É obra
de matemáticos, de engenheiros. Essa é a matéria
bruta com que se faz a inovação tecnológica.
Veja Apesar
de todos os avanços econômicos, a China ainda mantém
o governo autoritário que herdou do comunismo. O senhor vê
perspectivas de mudanças políticas?
Friedman Visitei a China regularmente nos últimos
quinze anos. E, a cada vez que vou lá, tenho a impressão
de que o país ficou mais aberto e plural. A democracia ainda
tem um longo caminho a percorrer na China. Mas não tenho
dúvida de que as tendências democratizantes que acompanham
qualquer mercado livre vão se manifestar. Pode demorar um
pouco, pois é um país muito particular, com 1,3 bilhão
de habitantes. Mas o dia virá.
Veja A competição
de países emergentes como China e Índia causa ansiedade
entre os trabalhadores americanos?
Friedman Sim. Gostaria de acreditar que o sucesso
de O Mundo É Plano entre os americanos se deve a meus
belos olhos castanhos, ou ao estilo incisivo da minha prosa. Mas
creio que o motivo real é a angústia difusa dos americanos
diante da ascensão de novas potências econômicas,
particularmente a China. Nos Estados Unidos, a geração
de meus pais teve condições de vida melhores que as
da geração de meus avós, e também a
certeza de que nós, seus filhos, viveríamos com mais
conforto ainda. A minha geração não conta mais
com essas certezas e está ávida por entender as forças
que produzem tantas mudanças no mundo.
Veja O que o
Brasil precisa fazer para se inserir com eficiência no que
o senhor chama de mundo plano?
Friedman Qualquer país, seja o Brasil,
seja os Estados Unidos, precisa acertar três fundamentos.
Em primeiro lugar, investir em infra-estrutura: banda larga, celulares,
linhas telefônicas, portos e aeroportos. Não há
sentido em viver em um mundo plano se você não consegue
se conectar a ele. O segundo elemento, de que já falei, é
a educação. E, em terceiro lugar, você precisa
das políticas públicas corretas.
Veja Que políticas
são essas?
Friedman Uma política de impostos que incentive
o desenvolvimento e a distribuição de renda, uma boa
saúde pública e uma boa rede de seguridade social.
Também é necessária uma legislação
que facilite a vida dos empresários abrir uma empresa,
contratar e demitir funcionários, declarar falência,
tudo isso deve ser descomplicado e rápido. Se você
olhar para as economias que se destacaram nos últimos anos,
vai notar que são aquelas que conseguiram acertar esses três
fundamentos: infra-estrutura, educação e políticas
públicas.
Veja O senhor
pode dar um exemplo?
Friedman A Irlanda, em apenas vinte anos, conseguiu
sair da posição de um dos países mais pobres
da Europa e tornar-se o segundo mais rico, em termos de PIB per
capita. Fica atrás apenas de Luxemburgo. Como os irlandeses
fizeram isso? Eles conseguiram acertar a infra-estrutura
em parte, com os fundos da União Européia ,
investiram em educação e acertaram nas políticas
públicas uma boa política de taxas, uma boa
rede social e um acordo viável entre governo, empresas e
sindicatos. Criaram um ambiente saudável para a inovação.
Veja O governo
Bush tem acertado nas políticas públicas de que o
senhor fala?
Friedman Acerta em alguns pontos, mas erra demais
em outros. Os instintos do governo Bush em geral estão certos
no que diz respeito ao comércio livre e à desregulamentação
do mercado. Mas estão errados na política de impostos,
na saúde pública, na seguridade social, na proteção
ao meio ambiente.
Veja O senhor
apóia a idéia da Alca, uma área de livre-comércio
para as Américas?
Friedman Sem dúvida. Quanto mais flexível
e aberta for uma economia, mais competitiva será, e mais
capacitada a se adaptar a um mundo que se modifica rapidamente.
Sou a favor da Alca, por razões americanas e por razões
brasileiras já que estou falando com o maior país
da sua região. O comércio livre deixará tanto
os Estados Unidos quanto o Brasil mais flexíveis.
Veja Os Estados
Unidos, porém, ainda são muito protecionistas em áreas
como a agricultura.
Friedman Sim, os Estados Unidos mantêm muitas
barreiras comerciais barreiras demais para o meu gosto. Sou
um crítico dessas políticas. Não recebo cartões
de Natal dos sindicatos americanos, que fazem pressão para
manter o protecionismo. Eu quero, por exemplo, importar açúcar
do Brasil. Eu quero ter nos Estados Unidos o álcool combustível
que vocês usam no Brasil os brasileiros são
grandes inovadores nessa área. Os fazendeiros americanos,
porém, são contrários a essa abertura. Eu quero
que eles percam essa batalha aliás, já disse
isso na minha coluna. Também não recebo cartões
de Natal dos fazendeiros.
Veja O senhor
também critica Bush por ter criado uma imagem mais "fechada"
dos Estados Unidos.
Friedman Sim. Sou contra os muros em geral
sejam eles erguidos por insegurança econômica, como
no caso da proteção aos produtos agrícolas
americanos, ou por insegurança geopolítica. Na última
categoria, estão os muros erguidos para conter o terrorismo
depois dos atentados de 11 de setembro. É verdade que alguns
desses muros são necessários e inevitáveis.
Mas é preciso examiná-los com cuidado. Precisamos
mais de filtros do que de muros. Devemos impedir os terroristas
de entrar. Mas o jovem engenheiro brasileiro, o cientista genial
de São Paulo eu quero que ele venha para os Estados
Unidos. Quero arrancar os melhores cérebros do Brasil, para
que montem novas empresas por aqui. Tio Sam quer vocês, inovadores
brasileiros. Ou, pelo menos, o tio Tom quer.
Veja Então
o mundo plano também abre mais oportunidades para os terroristas?
Friedman Infelizmente, sim. O mundo é plano
para todos: para a IBM e para a Al Qaeda.
Veja Depois
dos atentados de 11 de setembro de 2001, o mundo não estaria
mais fechado para os grupos terroristas?
Friedman Não, eu diria o contrário:
está mais aberto. Isso ocorre porque a plataforma de comunicações
internacionais do mundo plano está cada vez mais poderosa.
Osama bin Laden até pode estar com problemas ele talvez
esteja isolado em alguma caverna. Isso não ajuda muito: todas
as pequenas organizações terroristas ainda estão
aí, usando a internet e as outras tecnologias de comunicação
cada vez mais rápidas. O resultado é que a Al Qaeda,
como organização global, está debilitada, mas
as pequenas células terroristas estão mais perigosas
do que nunca.
Veja Como será
possível reverter o ressentimento que existe em muitos países
árabes em relação à economia global?
Friedman No fundo, só há uma maneira
de você acabar com o ressentimento: fazendo com que as pessoas
tenham sucesso. Na América Latina, também há
muito ressentimento contra os Estados Unidos. É algo que
emana da inveja e da humilhação. Para superar isso,
é preciso aparelhar as pessoas para que possam competir e
vencer no mundo plano. Eu quero que todos sejam ganhadores no mercado
internacional. Mas isso é algo que cada país tem de
resolver por conta própria. Eu não posso curar a humilhação
dos outros.
Veja Países
fundamentalistas serão capazes de superar esse ressentimento?
Friedman Talvez. Muitos desses países vivem
simultaneamente sob uma bênção e uma maldição:
a riqueza de petróleo. Se o preço do barril de petróleo
baixasse para 10 dólares no mercado internacional, essas
sociedades seriam forçadas a se abrir, a educar seus filhos
para que possam competir e a colaborar no mercado internacional
com os jovens de Taiwan ou da Coréia do Sul.
Veja O que o
senhor pensa dos ativistas que protestam contra a globalização?
Friedman Bem, essas pessoas são quase sempre
bem-intencionadas. Esse pessoal que se reúne no Fórum
Social em... Como é mesmo o nome daquela cidade brasileira?
Veja Porto Alegre.
Friedman Sim, Porto Alegre. Creio que o pessoal
que se reúne lá sinceramente se preocupa com os impactos
negativos da globalização. Mas eles não entendem
o seu lado positivo. É por isso que eu os chamo de "Coalização
para manter os pobres pobres". Não é por acaso que
nos últimos anos mais pessoas saíram da pobreza na
Índia e na China, graças a políticas globalizantes,
do que em qualquer época anterior da história. Há
apenas um país no mundo que pôs em prática os
princípios advogados pelo fórum de Porto Alegre: a
Coréia do Norte ditatorial. Nenhuma globalização,
nenhum comércio, nenhum telefone celular nada. Uma
tragédia completa. Aliás, quero lançar um desafio
ao pessoal de Porto Alegre. Se eles realmente se importam com os
pobres, deveriam fazer uma manifestação bloqueando
a entrada da embaixada do Zimbábue, em Brasília. Pois
o Zimbábue tem hoje um governo corrupto que empobrece seu
próprio povo e já está fazendo isso
há mais de vinte anos. O modo de conter a pobreza no Zimbábue
não é com menos, mas com mais globalização,
e com um governo honesto e eficiente.
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