Edição 1935 . 14 de dezembro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Carta ao leitor
A morte lenta da democracia


Paulo Vitale
Schelp e Vitale em Caracas: Chávez quebrou a espinha dorsal da democracia

Nem todas as tiranias nascem iguais. A de Fidel Castro, em Cuba, foi instalada em 1959 ao cabo de luta armada e mantida, no início, por meio de fuzilamentos, no que se chamou eufemisticamente de "processo de depuração". Na União Soviética, em 1917, os comunistas aproveitaram a insatisfação geral contra o czar, deram o golpe na oposição democrática e implantaram a ditadura que durou até 1991. Adolf Hitler seguiu cartilha semelhante na Alemanha. De 1933, quando chegou ao poder, até 1939, ano em que invadiu a Polônia, Hitler gozou da neutralidade e até da simpatia dos líderes mundiais. A tirania que Hugo Chávez está implantando na Venezuela tem uma dinâmica mais parecida com a soviética e a nazista do que com a de seu patrono intelectual, Fidel Castro.

Chávez está cometendo liberticídio passo a passo, silenciosamente, como quem furta. Boa parte dos líderes e da opinião pública na América Latina o enxerga como um governante pitoresco, um tanto excêntrico mas democrata e comprometido com as causas populares. Chávez se aproveita disso para continuar seu lento e obstinado trabalho de destruição da economia de mercado, da classe média, da liberdade de expressão e da Justiça livre e independente – ou seja, dos pilares da democracia.

VEJA enviou à Venezuela o jornalista Diogo Schelp e o fotógrafo Paulo Vitale, ambos veteranos de coberturas internacionais. A dupla de repórteres de VEJA assistiu à melancólica eleição parlamentar em que 75% dos venezuelanos se recusaram a comparecer às urnas, uma das maiores taxas de absenteísmo da história mundial. Como relata Schelp em sua reportagem, que começa na página 156, o abatimento dos eleitores revela o estado anêmico da democracia representativa na Venezuela. "As pessoas não votaram por não acreditar mais no processo eleitoral, mas principalmente por medo da perseguição do governo", diz Schelp. Mas o voto não é secreto? Não na Venezuela. Como em Cuba, o governo de Chávez sabe exatamente como votou cada cidadão. Quem vota contra sofre sanções. Está-se diante, na Venezuela de Chávez, de uma situação trevosa em que a democracia é usada para destruir a democracia. E ninguém parece se importar com isso.

 
 
 
 
topovoltar