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Carta ao leitor
A morte lenta da democracia
Paulo Vitale
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| Schelp e Vitale em Caracas: Chávez
quebrou a espinha dorsal da democracia |
Nem todas as tiranias nascem iguais. A de Fidel Castro,
em Cuba, foi instalada em 1959 ao cabo de luta armada e mantida,
no início, por meio de fuzilamentos, no que se chamou eufemisticamente
de "processo de depuração". Na União Soviética,
em 1917, os comunistas aproveitaram a insatisfação
geral contra o czar, deram o golpe na oposição democrática
e implantaram a ditadura que durou até 1991. Adolf Hitler
seguiu cartilha semelhante na Alemanha. De 1933, quando chegou ao
poder, até 1939, ano em que invadiu a Polônia, Hitler
gozou da neutralidade e até da simpatia dos líderes
mundiais. A tirania que Hugo Chávez está implantando
na Venezuela tem uma dinâmica mais parecida com a soviética
e a nazista do que com a de seu patrono intelectual, Fidel Castro.
Chávez está cometendo liberticídio
passo a passo, silenciosamente, como quem furta. Boa parte dos líderes
e da opinião pública na América Latina o enxerga
como um governante pitoresco, um tanto excêntrico mas democrata
e comprometido com as causas populares. Chávez se aproveita
disso para continuar seu lento e obstinado trabalho de destruição
da economia de mercado, da classe média, da liberdade de
expressão e da Justiça livre e independente
ou seja, dos pilares da democracia.
VEJA enviou à Venezuela o jornalista Diogo
Schelp e o fotógrafo Paulo Vitale, ambos veteranos de coberturas
internacionais. A dupla de repórteres de VEJA assistiu à
melancólica eleição parlamentar em que 75%
dos venezuelanos se recusaram a comparecer às urnas, uma
das maiores taxas de absenteísmo da história mundial.
Como relata Schelp em sua reportagem, que começa na página
156, o abatimento dos eleitores revela o estado anêmico da
democracia representativa na Venezuela. "As pessoas não votaram
por não acreditar mais no processo eleitoral, mas principalmente
por medo da perseguição do governo", diz Schelp. Mas
o voto não é secreto? Não na Venezuela. Como
em Cuba, o governo de Chávez sabe exatamente como votou cada
cidadão. Quem vota contra sofre sanções. Está-se
diante, na Venezuela de Chávez, de uma situação
trevosa em que a democracia é usada para destruir a democracia.
E ninguém parece se importar com isso.
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