Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro Aposentadoria
de presidente
"Alguns ex-presidentes
pedem que os esqueçam, outros fazem futrica política. Bill Clinton
criou um genial esquema de recrutamento do empresariado internacional
para as causas da educação, saúde, meio ambiente e pobreza"
il e trezentas pessoas no enorme salão
de um hotel em Nova York. O relator de um dos temas discutidos apresentava a sua
síntese e uma câmera de televisão enviava sua imagem a dois
telões. A projeção amplificava o visual de três figuras
sentadas logo atrás do conferencista. Contrastavam com a elegância
sóbria do auditório um alourado em dívida com o barbeador
e um chinês de brinquinho, óculos enormes, cabelo com gel, que não
conseguia fechar a boca. O terceiro era um moreno, também com barba por
fazer e uma camiseta de malha preta sob o paletó. Como deixaram entrar
esse trio? Minutos depois, o ex-presidente Bill Clinton anunciava uma doação
de 20 milhões de dólares e chamava os donos do YouTube e do Google
para receber o vasto diploma. Eram os três. Mais alguns minutos e terminaria
a Clinton Global Initiative (www.clintonglobalinitiative.org).
Ilustração
Atômica Studio
Alguns
ex-presidentes pedem que os esqueçam, outros fazem futrica política.
Alguns pontificam sobre os destinos do mundo. Antes de virar pacificador do mundo,
Jimmy Carter brandia martelo e serrote, reformando casas populares. Bill Clinton
criou um genial esquema de recrutamento do empresariado internacional para as
causas da educação, saúde, meio ambiente e pobreza. A receita
é imaginativa. Centenas de celebridades, incluindo cinqüenta presidentes
e ex-presidentes, bem como outros tantos primeiros-ministros, falam de temas candentes
em sessões plenárias. Entre muitos outros, estavam Bill Gates, Desmond
Tutu, Gordon Brown e Tony Blair. Além de seu trabalho sério, Brad
Pitt, Angelina Jolie e Shakira zelavam pela integridade estética. Havia
meia dúzia de prêmios Nobel, para que a integridade intelectual estivesse
acima de qualquer suspeita. Líderes das 500 maiores empresas enchiam o
auditório. No lado técnico, havia quatro painéis temáticos
com empresários e membros da academia. A operação desse grande
circo ficou a cargo de 450 voluntários.
Participantes
do Brasil eram apenas Eduardo Braga, governador do Amazonas, e eu. No meu caso,
estava no grupo de educação, para discutir brain drain (fuga
de cérebros) no Brasil, em sessão moderada por Larry Summers (cuja
proverbial arrogância lhe custou o emprego de presidente da Universidade
Harvard). Na África, os cérebros migram para pastagens mais verdes.
É curioso o contraste com a situação brasileira, em que praticamente
não há perdas, sendo ínfima a diáspora de cientistas
brasileiros no Primeiro Mundo. Isso é ruim, pois nos isola.
No
Carnegie Hall, em uma das noites, quatro personalidades foram premiadas; uma delas
era o tenista Andre Agassi, outra era Vicky Colbert, a colombiana que criou a
Escuela Nueva. No decorrer do evento, dezenas de empresários formularam
seus compromissos financeiros e as metas quantitativas de seus programas
apoiando ONGs e governos de países pobres. Note-se que a fundação
de Clinton não chega perto desse dinheiro, embora vigie para ver se a promessa
foi cumprida. Puxa as orelhas de quem fica apenas na conversa. A cada novo compromisso,
nos intervalos entre as apresentações, os doadores subiam ao palco
para receber o diploma e ser fotografados ao lado de Clinton ou dos moderadores.
Ou seja, os temas candentes, o exército de celebridades e a imprensa criavam
os atrativos para que o mundo ficasse sabendo dos gestos de generosidade de cada
empresa.
O sucesso da fórmula
é medido pelos resultados. Incluindo os dois eventos anteriores, 10 bilhões
de dólares já foram comprometidos, permitindo melhorar a vida de
100 milhões de pessoas. Neste ano foram registradas 235 promessas. Permitirão,
por exemplo, proteger ou reflorestar 34 milhões de hectares de florestas.
Mais 130 milhões de dólares foram comprometidos via internet. À
exceção de um programa da Coca-Cola de proteção do
meio ambiente, o Brasil foi pessimamente aquinhoa-do nesse grande leilão.
Isolacionismo? Provavelmente. Mas podemos ser mais competentes nos próximos
anos. E quem sabe nos inspiramos na fórmula vencedora de Clinton, criando
algum evento que reconheça publicamente os nossos doadores que não
são poucos.