No devastador No
Vale das Sombras (In the Valley of Elah, Estados Unidos,
2007), Tommy Lee Jones é um militar aposentado que
procura pelo filho: em licença numa base americana
depois de um período no Iraque, o rapaz não
só deixou de se reapresentar ao pelotão, como
parece ter sumido da face da Terra. Em alguns dias, será
declarado desertor. O pai, Hank, conversa com os amigos e
os superiores do filho, liga para velhos companheiros pedindo
ajuda, vai à polícia e encontra apenas
evasivas ou desinteresse. Numa visita ao alojamento do desaparecido,
surripia o celular deste, onde encontra fragmentos de imagens
feitas durante ações. Tommy Lee Jones é
um mestre da introversão e, quanto menos ele fala,
mais o espectador se conecta ao seu pressentimento de que
algo terrível aconteceu. Quão imensamente terrível,
porém, é algo que só saberá ao
final da investigação conduzida por Hank e pela
detetive de polícia Emily (Charlize Theron, numa grande
atuação). O novo filme do diretor Paul Haggis,
que começa a ser exibido no país nesta sexta-feira,
representa um colossal salto dramático em relação
ao ultramanipulativo Crash. Haggis usa a forma do whodunit,
em que se tenta identificar o autor de um crime, para chegar
a um culpado bem mais incontrolável do que este ou
aquele homem: a guerra. Não a guerra como entidade
genérica, mas esta guerra, a do Iraque, com suas especificidades.
No Vale das Sombras é um dos primeiros filmes
a fazer tal indiciamento, mas não será um dos
únicos. Num fenômeno sem precedentes no cinema
americano, o conflito no Iraque começa a originar produções
em número suficiente para constituir desde já
um gênero (veja quadro abaixo).
Entre
1939 e 1945, rodaram-se dezenas de filmes acerca da conflagração
que se desenrolava na Europa e no Pacífico mas eram feitos com o
intuito de promover o esforço de guerra. Os enredos de contestação
surgiram apenas com o envolvimento americano no Vietnã. Ou, bem entendido,
depois que ele se encerrou. Enquanto os soldados ainda lutavam no Sudeste Asiático,
apenas uma produção abordou diretamente o tema a patriotada
Os Boinas Verdes, com John Wayne. O que a ocupação iraquiana
está criando, portanto, é uma criatura nova: filmes que a dissecam
e, até agora, exclusivamente a condenam enquanto ela ainda está
em curso. Existe aí uma ironia, ou talvez uma tentativa de compensação.
No caso do Vietnã, a batalha pela opinião pública foi travada
nos jornais e noticiários, que não se furtavam a mostrar as imagens
mais horrendas do conflito e contribuíram assim para torná-lo politicamente
insustentável. Desde que os Estados Unidos entraram no Iraque, entretanto,
as cenas de massacres ou de caixões cobertos com a bandeira americana têm
sido submetidas a uma pesada autocensura, em nome do combate ao terror e por medo
das acusações de "antipatriotismo". Os cineastas se adiantaram para
ocupar esse vácuo.
A primeira leva foi a dos documentários, de Gunner Palace, sobre
o início da hostilidade iraquiana à força de ocupação,
ao recente No End in Sight, que analisa os erros cometidos na aventura
militar da gestão George W. Bush e argumenta que eles são
irremediáveis. Nos últimos tempos, porém, a opinião
pública americana deu uma guinada decisiva. Nas últimas pesquisas,
já são maioria os cidadãos que acham que a guerra está
sendo mal conduzida, que o objetivo anunciado de "levar a democracia ao Iraque"
não será atingido, e que as tropas deveriam ser trazidas de volta.
Que pensam, enfim, que seu país se enfiou num atoleiro. Diante desse clima,
a esmagadora maioria democrata da indústria do entretenimento passou a
se sentir à vontade para falar a platéias mais amplas, com filmes
de ficção estrelados por nomes famosos e bancados pelos grandes
estúdios.
A safra que
vem por aí contém de tudo exceto filmes que endossem a intervenção.
(O que chega mais perto dessa visão é O Reino, com Jamie
Foxx, que vai bem até começar a tratar os "nativos" árabes
como estúpidos ou como alvos anônimos para tiros.) São dramas
em que as famílias pagam o ônus da perda (Grace Is Gone, com
John Cusack) ou sofrem sob acusações infundadas (O Suspeito,
com Reese Witherspoon e Jake Gyllenhaal); vistas dos bastidores de Washington
(Leões e Cordeiros, em que o senador interpretado por Tom Cruise
tenta jogar uma cortina de fumaça sobre o fiasco iraquiano); e, nos casos
mais ousados, recriações de atrocidades cometidas por soldados
americanos (Redacted, de Brian De Palma, e Battle for Haditha, do
inglês Nick Broomfield). Estão em produção, ainda,
roteiros sobre a dura volta para casa, como Stop Loss, em que Ryan Phillippe
tenta desertar durante uma licença no Texas.
Nenhum desses filmes, porém, é tão cirúrgico quanto
No Vale das Sombras. Das sugestões tanto de sofrimento quanto de
sadismo contidas nas imagens do celular do soldado desaparecido à relutância
do comando militar em que se apure o seu paradeiro além da má
vontade da polícia local, cansada dos problemas com combatentes em licença
, o cenário que o diretor e seus dois protagonistas desenham é
perturbador: um cenário em que o travo de ilegitimidade que paira sobre
essa guerra transforma a própria natureza dos homens que vão lutar
nela, fazendo deles seres irreconhecíveis no front e pá-rias em
casa. Hank, que lutou no Vietnã, não compreende como algo tão
monstruoso possa ter acontecido a seu filho, e com ele. A conclusão a que
No Vale das Sombras assoma, então, não é que o Iraque
seria um novo Vietnã. É que pode estar sendo ainda pior do que ele.
VISÕES
DA GUERRA
Como a nova safra de filmes
sobre o Iraque e o terror abarca os diversos aspectos do conflito, da experiência
do combate ao trauma das famílias
DE
DENTRO DOS GABINETES Os embates travados
na esfera dos políticos e autoridades que controlam a guerra
O
REINO O enredo: um time de agentes federais americanos, que inclui Jamie
Foxx e Jennifer Garner, toma as rédeas da investigação de
um massacre de ocidentais empregados por uma petrolífera na Arábia
Saudita
LEÕES E CORDEIROS
O enredo: na mais estimulante de três histórias que se entrelaçam,
um senador republicano interpretado por Tom Cruise tenta "vender" a uma jornalista
um novo plano de ataque para reconquistar a opinião pública para
o Iraque
DE DENTRO DE CASA
Os reflexos do conflito no dia-a-dia dos
americanos comuns
O SUSPEITO
O enredo: um engenheiro de origem árabe, morador de Chicago, é
transportado pela CIA para outro território, para que possa ser preso sem
acusação formal e torturado. Sua mulher (Reese Witherspoon) tenta
em vão descobrir seu paradeiro
GRACE
IS GONE O enredo: um pai, interpretado por John Cusack, tenta encontrar
uma maneira de contar às suas duas filhas pequenas que a mãe delas
acaba de ser morta em combate no Iraque
DA
LINHA DE FRENTE As experiências freqüentemente
monstruosas dos soldados em combate
REDACTED
O enredo: o diretor Brian De Palma usa imagens feitas pelos combatentes
e cenas de documentários e noticiários para ficcionalizar um episódio
real, de uma garota iraquiana que foi estuprada e depois assassinada, junto com
sua família, por soldados americanos
BATTLE
FOR HADITHA O enredo: outra recriação de um caso
tido como verídico o massacre de 24 civis iraquianos, entre os quais
mulheres e crianças, por um grupo de fuzileiros navais americanos, em retaliação
pela morte de um companheiro