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14 de novembro de 2007
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Livros
Obras-primas que ninguém lera

Um fascinante inventário dos livros que se perderam
no tempo, de Homero a Lawrence da Arábia


Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

O escritor britânico Thomas Carlyle esperava ganhar fama e dinheiro com A História da Revolução Francesa, que estava escrevendo por volta de 1835. Emprestou o original do primeiro volume a seu amigo filósofo John Stuart Mill, que, displicente, deixou o manuscrito na casa da namorada. A empregada desta achou que o calhamaço trazia só papéis velhos – e o jogou ao fogo. No Brasil, pouco mais de uma década depois, outro livro inédito seria consumido pelas chamas: Os Contrabandistas, o primeiro romance do jovem José de Alencar, foi usado por um hóspede de sua casa como pavio para acender charutos. Carlyle reescreveria A História da Revolução Francesa (que, ao ser finalmente publicada, ganhou uma longa e elogiosa resenha de Stuart Mill), mas Alencar nunca mais retomou Os Contrabandistas. As duas anedotas ilustram a fragilidade do livro: o papel – e seus antecessores, como o papiro e o pergaminho – não resiste a incêndios e inundações, e ainda sofre deterioração pelo tempo. O Livro dos Livros Perdidos (tradução de Ana Maria Mandim; Record; 434 páginas; 54 reais), do crítico escocês Stuart Kelly, é um breve inventário de perdas e danos literários e uma bela introdução à biblioteca dos livros que nunca serão lidos.

A destruição de um livro era um grande problema na era que precedeu a imprensa, quando todo exemplar, copiado a mão, era precioso. A literatura clássica da Antiguidade que se perdeu é mais volumosa do que aquela que chegou até os dias de hoje. Livros como a Poética, do filósofo Aristóteles, trazem referências a Margites, uma espécie de epopéia cômica atribuída a Homero, mas os leitores modernos só conhecem a Ilíada e a Odisséia. A própria Poética é um livro parcial: deveria ter uma continuação devotada à comédia, que se perdeu (a destruição dessa obra de Aristóteles serve de mote para O Nome da Rosa, o policial medieval de Umberto Eco). Ainda mais azarado foi Agatão, autor de tragédias do século V a.C. Ele aparece como o anfitrião de O Banquete, um dos mais célebres diálogos de Platão – mas nenhuma de suas tragédias se conservou inteira.

Técnicas recentes de leitura com raios X e câmeras digitais têm permitido a recuperação de papiros deteriorados ou queimados que dez anos atrás eram tidos como irrecuperáveis. Mas essas pesquisas até aqui só revelaram fragmentos de poetas como Hesíodo e Arquíloco. Nenhuma tragédia integral foi reencontrada, muito menos uma epopéia inédita de Homero. Nos seus ensaios sobre gregos e latinos, Kelly lamenta por esses tesouros desaparecidos, mas também faz ponderações sobre o que se poderia chamar de sabedoria do tempo. Só sete das 120 tragédias de Sófocles sobreviveram? Triste, sem dúvida. Mas essa seleção radical acabou sublinhando a qualidade de Édipo Rei. E já houve pelo menos um caso de obra recuperada que se revelou decepcionante: a peça Díscolo, do grego Menandro, reconstituída em meados do século passado. Autores antigos como Quintiliano, Plutarco e até Júlio César tinham Menandro como um gênio da comédia. A expectativa em torno da obra redescoberta era, portanto, enorme. O que se viu, porém, foi uma espécie de novela mexicana avant la lettre. Menandro adorava um reencontro de órfãos separados na infância.

A perda de um livro também pode ter seus aspectos positivos na carreira de um escritor. Em 1922, Hadley, a primeira mulher de Ernest Hemingway, viajava para a Suíça com uma valise cheia de originais, que acabou sendo roubada na estação de trem. O escritor americano ficou arrasado – entre os esboços extraviados, havia um romance já bem adiantado sobre suas experiências na I Guerra Mundial. Kelly especula, porém, que esse contratempo teve seu aspecto liberador: definitivamente descartadas as tentativas juvenis, Hemingway pôde afinal compor obras-primas como O Sol Também Se Levanta. Para outros autores, claro, a perda representa um retrocesso: os originais de Ultramarino, romance do inglês Malcolm Lowry, foram roubados do carro de seu editor, e a versão hoje existente teve de ser reconstituída a partir das notas do autor. T.E. Lawrence também foi roubado em uma estação de trem, em Londres, e perdeu a primeira versão de Os Sete Pilares da Sabedoria, relato de sua participação na revolta árabe contra o Império Otomano entre 1916 e 1918. A possibilidade remotíssima de que essa primeira versão seja reencontrada ainda atiça a curiosidade de historiadores. Na versão final do livro, o autor parece mais preocupado em construir o próprio mito como Lawrence da Arábia do que em estabelecer a verdade dos fatos. O manuscrito perdido talvez fosse mais fiel à história.

A noção de "livro perdido" de Kelly é ampla: inclui até obras que nunca foram escritas, seja porque o autor se desinteressou do projeto, seja porque morreu antes de realizá-lo. Melville, Dickens, Flaubert, Kafka – a lista nessa categoria é longa. O Livro dos Livros Perdidos parece sugerir que a expressão "obra completa" é vazia de sentido. O francês Marcel Proust, por exemplo, morreu em 1922 sem concluir sua obsessiva revisão de Em Busca do Tempo Perdido. Os sete romances que compõem a obra estão nas livrarias e bibliotecas – mas a versão "final", aquela que Proust desejaria ver publicada, não existe. Toda biblioteca, parece sugerir Kelly, é uma coleção de escombros. Essa não é uma visão tão desoladora: como aquelas estátuas antigas nas quais faltam braços, a literatura ensina que há beleza na incompletude.




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