O
escritor britânico Thomas Carlyle esperava ganhar fama e dinheiro com A
História da Revolução Francesa, que estava escrevendo
por volta de 1835. Emprestou o original do primeiro volume a seu amigo filósofo
John Stuart Mill, que, displicente, deixou o manuscrito na casa da namorada. A
empregada desta achou que o calhamaço trazia só papéis velhos
e o jogou ao fogo. No Brasil, pouco mais de uma década depois, outro
livro inédito seria consumido pelas chamas: Os Contrabandistas,
o primeiro romance do jovem José de Alencar, foi usado por um hóspede
de sua casa como pavio para acender charutos. Carlyle reescreveria A História
da Revolução Francesa (que, ao ser finalmente publicada, ganhou
uma longa e elogiosa resenha de Stuart Mill), mas Alencar nunca mais retomou Os
Contrabandistas. As duas anedotas ilustram a fragilidade do livro: o papel
e seus antecessores, como o papiro e o pergaminho não resiste
a incêndios e inundações, e ainda sofre deterioração
pelo tempo. O Livro dos Livros Perdidos (tradução
de Ana Maria Mandim; Record; 434 páginas; 54 reais), do crítico
escocês Stuart Kelly, é um breve inventário de perdas e danos
literários e uma bela introdução à biblioteca dos
livros que nunca serão lidos.
A
destruição de um livro era um grande problema na era que precedeu
a imprensa, quando todo exemplar, copiado a mão, era precioso. A literatura
clássica da Antiguidade que se perdeu é mais volumosa do que aquela
que chegou até os dias de hoje. Livros como a Poética, do
filósofo Aristóteles, trazem referências a Margites,
uma espécie de epopéia cômica atribuída a Homero, mas
os leitores modernos só conhecem a Ilíada e a Odisséia.
A própria Poética é um livro parcial: deveria ter
uma continuação devotada à comédia, que se perdeu
(a destruição dessa obra de Aristóteles serve de mote para
O Nome da Rosa, o policial medieval de Umberto Eco). Ainda mais azarado
foi Agatão, autor de tragédias do século V a.C. Ele aparece
como o anfitrião de O Banquete, um dos mais célebres diálogos
de Platão mas nenhuma de suas tragédias se conservou inteira.
Técnicas recentes de
leitura com raios X e câmeras digitais têm permitido a recuperação
de papiros deteriorados ou queimados que dez anos atrás eram tidos como
irrecuperáveis. Mas essas pesquisas até aqui só revelaram
fragmentos de poetas como Hesíodo e Arquíloco. Nenhuma tragédia
integral foi reencontrada, muito menos uma epopéia inédita de Homero.
Nos seus ensaios sobre gregos e latinos, Kelly lamenta por esses tesouros desaparecidos,
mas também faz ponderações sobre o que se poderia chamar
de sabedoria do tempo. Só sete das 120 tragédias de Sófocles
sobreviveram? Triste, sem dúvida. Mas essa seleção radical
acabou sublinhando a qualidade de Édipo Rei. E já houve pelo
menos um caso de obra recuperada que se revelou decepcionante: a peça Díscolo,
do grego Menandro, reconstituída em meados do século passado. Autores
antigos como Quintiliano, Plutarco e até Júlio César tinham
Menandro como um gênio da comédia. A expectativa em torno da obra
redescoberta era, portanto, enorme. O que se viu, porém, foi uma espécie
de novela mexicana avant la lettre. Menandro adorava um reencontro de órfãos
separados na infância.
A perda de um livro também pode ter seus aspectos positivos na carreira
de um escritor. Em 1922, Hadley, a primeira mulher de Ernest Hemingway, viajava
para a Suíça com uma valise cheia de originais, que acabou sendo
roubada na estação de trem. O escritor americano ficou arrasado
entre os esboços extraviados, havia um romance já bem adiantado
sobre suas experiências na I Guerra Mundial. Kelly especula, porém,
que esse contratempo teve seu aspecto liberador: definitivamente descartadas as
tentativas juvenis, Hemingway pôde afinal compor obras-primas como O
Sol Também Se Levanta. Para outros autores, claro, a perda representa
um retrocesso: os originais de Ultramarino, romance do inglês Malcolm
Lowry, foram roubados do carro de seu editor, e a versão hoje existente
teve de ser reconstituída a partir das notas do autor. T.E. Lawrence também
foi roubado em uma estação de trem, em Londres, e perdeu a primeira
versão de Os Sete Pilares da Sabedoria, relato de sua participação
na revolta árabe contra o Império Otomano entre 1916 e 1918. A possibilidade
remotíssima de que essa primeira versão seja reencontrada ainda
atiça a curiosidade de historiadores. Na versão final do livro,
o autor parece mais preocupado em construir o próprio mito como Lawrence
da Arábia do que em estabelecer a verdade dos fatos. O manuscrito perdido
talvez fosse mais fiel à história.
A noção de "livro perdido" de Kelly é ampla: inclui até
obras que nunca foram escritas, seja porque o autor se desinteressou do projeto,
seja porque morreu antes de realizá-lo. Melville, Dickens, Flaubert, Kafka
a lista nessa categoria é longa. O Livro dos Livros Perdidos
parece sugerir que a expressão "obra completa" é vazia de sentido.
O francês Marcel Proust, por exemplo, morreu em 1922 sem concluir sua obsessiva
revisão de Em Busca do Tempo Perdido. Os sete romances que compõem
a obra estão nas livrarias e bibliotecas mas a versão "final",
aquela que Proust desejaria ver publicada, não existe. Toda biblioteca,
parece sugerir Kelly, é uma coleção de escombros. Essa não
é uma visão tão desoladora: como aquelas estátuas
antigas nas quais faltam braços, a literatura ensina que há beleza
na incompletude.