Uma biografia de Tim Maia mostra como o inventor do samba soul alcançou
o sucesso mesmo mergulhado numa rotina vertiginosa de drogas e álcool.
O vício o fazia faltar aos próprios shows e lhe rendeu 300 processos
judiciais
Okky
de Souza
Oscar
Cabral
Nelson
Motta (à esq.), autor do livro: anos de espera até a Justiça
determinar os herdeiros legítimos de Tim Maia (à dir.)
Em matéria
de histórias folclóricas sobre vida pessoal
e profissional, ninguém supera Tim Maia na música
brasileira. Nem mesmo João Gilberto. Conviver com Tim,
ainda que por poucos minutos, era garantia de levar do encontro
grandes recordações para o bem ou para
o mal. O cantor e compositor que produziu sucessos do quilate
de Primavera,Azul da Cor do Mar e Sossego,
morto em 1998, aos 55 anos, era um rolo compressor de irreverência,
transgressão e grosseria. Implicava com a aeromoça?
Chamava-a em público de aerovelha. Era vaiado por entrar
no palco bêbado, drogado e sem condições
de cantar? Brindava a platéia com uma saraivada de
palavrões. Em contrapartida, o doidão-mor da
música brasileira cultivava um senso de humor do tamanho
de seu corpanzil. Suas tiradas, como "Não fumo, não
cheiro e não bebo, mas às vezes minto um pouquinho",
dita pela primeira vez numa entrevista a VEJA, desarmavam
até seus desafetos. Em outra de suas piadas, acrescentou
um rabicho a um célebre aforismo do anedotário
brasileiro. "O Brasil é o único país
onde prostituta tem orgasmo, cafetão tem ciúme
e traficante é viciado", diz a frase original. "E pobre
é de direita", emendou Tim. Além disso, ele
era de uma enorme generosidade para com os amigos, os parceiros
e a família. Um exemplo: em sua casa, sempre cheia
dos tipos mais exóticos, quem atendesse a um telefonema
de um empresário contratando um show levava na hora
uma porcentagem do cachê.
Essa combinação de besta-fera com figura humana terna emerge com
todas as tintas em Vale Tudo O Som e a Fúria de Tim Maia (Objetiva,
392 páginas, 49,90 reais), biografia do compositor assinada pelo escritor
e produtor musical Nelson Motta, nas livrarias na semana que vem. Como escreve
o autor, nem um ficcionista seria capaz de imaginar as peripécias que Tim
Maia viveu e as trapalhadas em que se metia. Motta era amigo pessoal de Tim e
conviveu profissionalmente com ele em diversas passagens de sua carreira. Em 1969,
foi um dos primeiros a colocá-lo sob holofotes, convidando-o a fazer um
dueto com Elis Regina num disco da cantora produzido por ele. Após a morte
do compositor, Motta decidiu escrever sua biografia. Não imaginava que
o projeto teria de ser adiado por vários anos porque, mesmo depois de morto,
as confusões de Tim Maia continuaram a assombrar o mundo dos vivos. Seu
primeiro passo foi procurar os herdeiros legais de Tim para negociar com eles
os direitos sobre a obra. Queria evitar o que ocorreu com a biografia de Garrincha,
recolhida das livrarias depois que os herdeiros do jogador moveram uma ação
judicial contra o autor e a editora.
Fotos
álbum de família
Tim,
aos 21 anos, como guia de turismo na Ilha de Paquetá: bico para ajudar a família
Ao procurar quem
negociava em nome de Tim Maia, Motta ficou surpreso. Havia herdeiros verdadeiros
e falsos, presumidos e assumidos, supostas ex-mulheres, filhos adotivos e biológicos
uma confusão monumental. Afinal, um juiz foi designado para desfazer
o emaranhado familiar e tocar o longo inventário. Desfeito o imbróglio,
concluiu-se que o único herdeiro de Tim é seu filho Carmelo Maia,
hoje com 32 anos, formado em teatro e que administra o acervo deixado pelo pai.
Tim lhe legou uma bela fortuna em direitos autorais sobre a edição
de suas músicas, mas também lhe repassou uma formidável dor
de cabeça quase 300 processos judiciais em que figurava como réu,
movidos por empresários, casas noturnas, músicos e bicões
que alegam ter parceria em canções. "Tim poderia ter ganho muitos
desses processos, mas jamais compareceu às audiências determinadas
pelos juízes", diz Júlio César Figueiredo, advogado de Carmelo.
Vários dos processos
sofridos por Tim Maia decorrem daquele que era seu hábito mais notório:
o de não aparecer nos próprios shows, deixando a platéia
a ver navios e, às vezes, promovendo enormes tumultos. Tim agradava a todos
os públicos e se apresentava tanto em casas noturnas luxuosas quanto em
barracões de subúrbio. Onde quer que fosse, deixava os donos dos
locais roendo as unhas e torcendo para que ele aparecesse. Certa vez, anunciado
a semana inteira como a grande atração do programa Domingão
do Faustão, não apareceu e a Rede Globo durante anos proibiu
sua presença nos programas da emissora. Melhor sorte tinha o apresentador
Chacrinha. Quando desconfiava que Tim iria dar o cano em seu programa, pedia a
intervenção da mãe do compositor, de quem era amigo. Sempre
funcionava. Dona Maria Imaculada, mãe de Tim Maia, era a única pessoa
a quem o compositor ouvia e respeitava.
Na
TV, na época da jovem guarda, com Eduardo Araújo e coristas: sonhando
em namorar as menininhas de Copacabana
Em geral, Tim Maia faltava aos shows porque na noite anterior havia se entregado
ao que chamava de "triátlon", uma maratona de uísque, cocaína
e maconha, em companhia de amigos, sem hora para terminar. Freqüentemente,
após um triátlon, ele até queria fazer o show da noite seguinte,
mas sua voz estava inutilizada. Às vezes, Tim estragava os próprios
shows, reclamando o tempo todo do técnico de som ou entrando trôpego
em cena. Durante uma apresentação na boate de um hotel de São
Paulo, exibia-se em estado lastimável para uma platéia de grã-finos,
quando uma senhora, chocada com o espetáculo, levantou-se para ir embora.
Tim não perdoou: "Já vai, dona Maria? Já vai tarde, mocréia!"
E passou a conjecturar o que ela faria depois que saísse do local
coisas impublicáveis, evidentemente. Tim vivia alterado, em diferentes
graus. Um hotel paulista o baniu como hóspede depois que ele protagonizou
um incidente peculiar. Saiu à porta para pegar um táxi no ponto
em frente e se encaminhou para o primeiro carro da fila. O motorista conversava
animadamente com os colegas metros atrás e o ignorou. Como a chave estava
na ignição, Tim entrou no carro, deu a partida e saiu dirigindo.
Duas horas depois, estacionou o táxi nos fundos do hotel e deixou uma soma
na recepção para pagar a corrida.
Com
a última companheira, Adriana, na limusine em que percorreu os Estados
Unidos um ano antes de morrer
Na infância, Tim Maia já aprontava das suas, na Tijuca, Zona Norte
do Rio de Janeiro, onde nasceu. Aos 12 anos, ajudava a família distribuindo
pelo bairro as marmitas preparadas na pensão de seu pai no caminho,
aliviava o peso da carga comendo um pouquinho de cada marmita. Na adolescência,
mergulhou no rock juntamente com os amigos Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Jorge
Ben, que integravam a turma do Divino, um bar da Tijuca. Todos participavam de
conjuntinhos e sonhavam em morar em Copacabana para namorar as meninas lindas
que apareciam nas revistas ao lado do pessoal da bossa nova. Aos 16 anos, Tim
Maia conseguiu uma passagem barata para os Estados Unidos, numa excursão
de padres, e desembarcou em Nova York com 12 dólares no bolso. Nesse período,
flertou com a marginalidade ao viajar por nove estados do país com um trio
de amigos barras-pesadas, num carro roubado cheio de bebidas e drogas, fazendo
pequenos furtos. Foi preso na Flórida e, depois, deportado para o Brasil.
"Nunca mais ponha os pés aqui", foi a última frase que ouviu nos
Estados Unidos. O lado bom da desdita americana é que Tim trouxe na bagagem
tudo o que absorvera da nova música que tomava conta dos EUA, o rhythm'n'blues,
o balanço irresistível de Sam Cooke e Smokey Robinson and The Miracles.
Essa foi sua escola. Mais tarde, Tim transpôs os arranjos repletos de metais
da soul music americana para os ritmos brasileiros e inventou o seu som inconfundível.
Rede
Globo
No
especial de fim de ano de Roberto Carlos, em 1985: amigos desde a adolescência,
quando ouviam rock juntos nos bares da Tijuca
Por meandros que só o jeito Tim Maia de ser explica, mesmo sendo deportado
dos Estados Unidos, ele conseguiu voltar ao país, um ano antes de morrer.
Com sua última companheira, Adriana Silva, fez uma viagem nostálgica
por lá de limusine. O motorista era um português contratado
inicialmente para levar o casal apenas de Miami a Orlando, um trajeto de poucas
horas. Diante dos argumentos intimidadores de Tim Maia, e de generosas gorjetas,
o motorista foi em frente até Washington e, depois, Nova York, embora não
tivesse sequer uma troca de roupa. Ao chegar a Nova York, a trupe se hospedou
no tradicional Hotel Delmonico's e Tim causou constrangimento na recepção
ao perguntar a funcionários e hóspedes onde poderia conseguir um
fuminho. Em março de 1998, no meio de um show em Niterói, Tim Maia
começou a cambalear no palco e sua voz travou. O público, julgando-o
bêbado e drogado, começou a vaiar. Tim não havia fumado maconha
nem bebido. Fora acometido por uma crise de hipertensão, embolia pulmonar
e parada cardiorrespiratória. Foi internado numa UTI, onde morreria uma
semana depois. Até os 50 anos, orgulhava-se de nunca em sua vida adulta
ter consultado um médico. Como tantos artistas que levam a transgressão
ao limite, Sebastião Rodrigues Maia não deixa exemplo de vida para
ninguém, mas sua obra continua a ser admirada e a influenciar as novas
gerações.
Frases
"FIZ
UMA DIETA RIGOROSA, CORTEI ÁLCOOL, GORDURAS E AÇÚCAR. EM DUAS SEMANAS
PERDI 14 DIAS."
"DOS ARTISTAS
DO RIO, METADE É PRETO QUE ACHA QUE É INTELECTUAL E METADE É
INTELECTUAL QUE ACHA QUE É PRETO."
"NÃO
FUMO, NÃO CHEIRO E NÃO BEBO, MAS ÀS VEZES MINTO UM POUQUINHO."
"MAIS
GRAVE! MAIS AGUDO! MAIS ECO! MAIS RETORNO! MAIS TUDO!" QUEIXANDO-SE
PARA O TÉCNICO DE SOM, NOS SHOWS
"COM
OS ACORDES QUE TEM EM UMA MÚSICA DO TOM JOBIM DÁ PARA FAZER UMAS
CINQÜENTA."
"AGRADEÇO À MINHA
MÃE, MARIA IMACULADA, MEUS SOBRINHOS, OS PADRES CAPUCHINHOS E OS TROMBADINHAS
DA PRAÇA DA BANDEIRA. APESAR DE TER FEITO UM COMERCIAL PARA A MITSUBISHI, A SHARP
MORA NO MEU CORAÇÃO. BOA NOITE." AO
RECEBER O PRÊMIO SHARP DE 1991
"ISSO
É DESUMANO. NEM NO FUNDO MUSICAL DO XOU DA XUXA EU POSSO CANTAR.
ASSIM AS CRIANÇAS CRESCEM SEM SABER QUEM É O TIM MAIA. " COMENTANDO
SOBRE A DECISÃO DA REDE GLOBO DE BANIR TIM DE TODOS OS PROGRAMAS DA EMISSORA,
DEPOIS QUE ELE FALTOU AO DOMINGÃO DO FAUSTÃO