Especial | Artigo:
Paulo Hoff O insubstituível
homem de branco
Fabiano
Accorsi
Paulo
Hoffé oncologista, diretor clínico do serviço
de oncologia do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo, e diretor
executivo do centro de oncologia do Hospital Sírio-Libanês
Os
últimos decênios do século XX foram testemunhas de uma explosão
no número e na variedade dos métodos de diagnóstico. Foi
uma mudança tão rápida que um médico transportado
dos anos 70 dificilmente conseguiria navegar no mar de tecnologia em que nossos
hospitais se transformaram. Com o progresso, a medicina diagnóstica evoluiu
para técnicas menos invasivas e mais eficientes, como a ressonância
magnética, o ultra-som, a tomografia computadorizada e o PET. Há
quem diga que a incorporação de tais máquinas às rotinas
médicas representou um enorme custo financeiro para os pacientes. Não
se trata, porém, de uma verdade absoluta. Quando bem empregados, esses
exames levam a diagnósticos mais acurados, que reduzem o número
de intervenções. Num passado não muito distante, um paciente
com suspeita de doença coronariana era necessariamente submetido a um cateterismo
exame invasivo, que requer um dia de internação. Atualmente,
esse mesmo paciente é encaminhado para uma tomografia. Em menos de dez
minutos, a máquina indica a existência ou não de algum problema.
Até a década de 90, todos os portadores de linfoma de Hodgkin tinham
de ser submetidos a uma cirurgia para retirada do baço, de modo que o médico
conseguisse determinar o grau de agressividade do câncer. Com o surgimento
do PET, a operação pôde ser deixada de lado. Esses dois exemplos
ilustram bem o avanço extraordinário obtido com a tecnologia.
É verdade, no entanto, que o uso indiscriminado
de exames altamente sofisticados pode, paradoxalmente, reduzir a qualidade do
atendimento. A relação médico-paciente deve necessariamente
incluir uma boa conversa e um bom exame físico, o que exige tempo e concentração.
Tempo, aliás, talvez seja a mercadoria mais escassa nos dias de hoje. Sem
disponibilidade para fazer uma consulta adequada, médicos podem usar esses
exames para compensar eventuais falhas na sua avaliação. Essa atitude
está errada. Nós, médicos, não devemos esquecer que
essas inovações vieram para facilitar o nosso trabalho, e não
para substituir a prática clínica. O bom relacionamento entre médico
e paciente continua insubstituível.