Especial | Exames
laboratoriais O microscópio sumiu
Com a modernização
dos laboratórios de análises clínicas,
os exames ficaram mais rápidos e precisos. Eles também
requerem menos sangue e menos tempo de jejum
Adriana Dias Lopes
Fotos Fabiano Accorsi
POUCA
GENTE O uso de máquinas
precisas e velozes nas análises clínicas
reduziu o número de técnicos nos laboratórios
Os exames clínicos sofreram
uma transformação sem precedentes nos últimos
dez anos. A revolução ocorreu longe dos olhos
dos pacientes, no centro nervoso dos laboratórios
o local de análise dos exames. Tudo começou
com a chegada de máquinas capazes de investigar uma
amostra de sangue ou de urina em poucos minutos, com uma margem
de acerto que beira os 100%. Velozes e precisos, esses aparelhos
mudaram até a configuração espacial dos
laboratórios de análises clínicas. Os
técnicos lado a lado, numa bancada enorme, cada um
debruçado sobre o seu microscópio, compõem
uma cena do passado. Nos centros de diagnósticos mais
avançados, os laboratórios ficam praticamente
vazios. A presença humana se resume à coleta,
à manutenção dos aparelhos e à
interpretação dos dados registrados. O trabalho
de analisar, dosar e identificar células e moléculas
cabe agora às máquinas.
Para se ter uma idéia
do impacto dessas mudanças, basta lembrar que, atualmente,
o resultado de um hemograma demora no máximo seis horas
para chegar às mãos do paciente. Há dez
anos, ele tinha de aguardar, no mínimo, um dia. A redução
no tempo da entrega de um diagnóstico ao paciente é
reflexo da velocidade com que os equipamentos mais modernos
trabalham. Hoje, a análise de um hemograma é
feita em apenas dois minutos. Uma década atrás,
o mesmo exame levava, em média, uma hora para ser concluído.
Isso porque o sangue tinha de ser colocado no microscópio
e analisado por olhos humanos. Além de o procedimento
demorar mais, a probabilidade de erro na interpretação
dos resultados era bem maior.
Silvio Ferreira
CENA
DO PASSADO
No tempo em que a análise clínica era feita
manualmente, a probabilidade de o resultado de um exame
estar errado era, pelo menos, 50% maior do que é
hoje
Outra inovação
é o fato de o recipiente usado para a coleta de sangue
ser o mesmo durante todo o processo de análise da amostra.
Até os anos 90, esse material passava por no mínimo
três tubos de ensaio até que o diagnóstico
fosse concluído o que aumentava os riscos de
contaminação e, conseqüentemente, de resultados
equivocados. Como o processo de análise clínica
está mais seguro e mais rápido, a quantidade
de material coletado também pode ser menor. Para os
testes sorológicos, no diagnóstico de doenças
infecciosas e auto-imunes, por exemplo, é necessário
hoje um décimo do volume de sangue que era exigido
na última década. Aperfeiçoaram-se também
os reagentes químicos usados para a investigação
laboratorial. Mais precisos, eles não sofrem alterações
na presença de substâncias estranhas ao material
coletado como o açúcar e a gordura. Na
prática, para o paciente, isso significa que o jejum
necessário para a realização do exame
pode ser mais curto. Caiu de oito para três horas, em
média.
Graças ao aprofundamento
nos conhecimentos de biologia molecular, há pelo menos
5.000 tipos de exame de sangue disponíveis hoje. Na
década de 90, eles não passavam de 1.500. Um
dos exemplos que melhor ilustram esse salto é o que
ocorreu com as análises virais. Num passado recente,
elas apenas detectavam a presença no sangue de determinado
vírus. Com a criação de um método
batizado de PCR, capaz de copiar pedaços específicos
de material genético bilhões de vezes em poucas
horas, tornou-se possível fazer, em escala industrial,
a análise quantitativa e qualitativa de vírus
e bactérias. Criado por um ex-hippie americano, o químico
Kary Mullins, ganhador do Nobel de 1993, o método permite
a identificação precisa da cepa do microrganismo
causador da doença.