A
cena parece tirada de um filme de ficção científica: um paciente
engole uma cápsula acoplada a uma microcâmera. Com 2,5 centímetros
de comprimento e 1 centímetro de diâmetro, o artefato inicia
sua viagem pelo aparelho digestivo. Até o destino final, quando for eliminada
naturalmente pelo organismo, a cápsula terá batido 50.000 fotos
de vários órgãos faringe, esôfago, estômago,
intestinos delgado e grosso. O percurso dura oito horas, o tempo médio
da digestão. As imagens são transmitidas por ondas de radiofreqüência
para microrreceptores grudados no corpo do paciente, que, por sua vez, as enviam
para um microprocessador. Projetadas na tela de um computador, nítidas
e ricas em detalhes, é como se elas transportassem o médico para
o interior das entranhas do paciente. Essa cápsula de sonhos já
é usada em centros de diagnóstico e hospitais de ponta, inclusive
no Brasil. Inspirada na tecnologia militar para a fabricação de
mísseis teleguiados e desenvolvida pela empresa israelense Given Imaging,
foi batizada de M2A.
Apesar de percorrer
todo o sistema digestivo, o foco principal da cápsula é o intestino
delgado. Trata-se de um órgão de dificílimo acesso tanto
por sua localização quanto por sua anatomia um tubo de 4 centímetros
de diâmetro e 6 metros e meio de comprimento, todo retorcido, cheio de dobras
e reentrâncias. Os exames tradicionais não chegam até ele.
A endoscopia consegue rastrear a parte superior do aparelho digestivo e a colonoscopia
coleta informações apenas do intestino grosso. O grande problema
é que metade dos sangramentos no sistema digestivo ocorre justamente no
intestino delgado. E as hemorragias intestinais costumam ser sintoma de quadros
gravíssimos de anemia, inflamações e câncer. Até
a criação da M2A, esses sangramentos só eram diagnosticados
por intermédio de cirurgia e com todos os riscos inerentes a uma
intervenção desse tipo. O exame com a M2A requer do paciente apenas
oito horas de jejum.