Washington faz festa
para Sarkozy, um
presidente francês que gosta dos EUA
Eric Feferberg/AFP
Sarkozy recebido por Laura e
George W. Bush nos Estados Unidos: um francês como
havia muito os americanos não viam
Welcome,
mon ami. Os atritos do passado entre americanos e franceses
parecem esquecidos e perdoados em ambos os lados do Atlântico.
Em visita de dois dias aos Estados Unidos, na semana passada,
Nicolas Sarkozy foi recebido com afagos inimagináveis
para qualquer outro presidente da França. Em discurso
a uma sessão conjunta do Congresso honra raramente
concedida a um chefe de estado , Sarkozy falou de seu
apego aos ícones da cultura popular americana, de John
Wayne a Elvis Presley. Ele agradeceu aos Estados Unidos por
terem salvado a França em duas guerras mundiais, reconstruído
a Europa com o Plano Marshall e combatido o comunismo durante
a Guerra Fria. Enfim, disse tudo o que os políticos
americanos ansiavam por ouvir de seus aliados europeus desde
o grande racha causado pela invasão do Iraque, em 2003.
Foi aplaudido longamente, e de pé, pelos deputados
e senadores A diferença de tratamento é notável.
O último presidente francês a discursar no Congresso
americano foi Jacques Chirac, em 1996. Apenas 100 deputados
se deram ao incômodo de comparecer.
A relação
entre os dois governos chegou ao seu ponto mais baixo quando
Chirac se opôs à invasão do Iraque para
derrubar Saddam Hussein. O presidente George W. Bush qualificou
os franceses e alemães de "velha Europa", em oposição
à "nova" do seu aliado inglês Tony Blair. Em
protesto patrioteiro, a lanchonete do Capitólio rebatizou
as french fries (fritas francesas) como freedom
fries (fritas da liberdade). Um boicote a produtos franceses
chegou a ser ensaiado nos Estados Unidos. Chirac apenas refletia
na esfera mais alta do poder o estado de espírito de
seus conterrâneos. À parte a má vontade
atávica com tudo o que não é francês,
a birra com os Estados Unidos está intimamente associada
ao governo Bush. Quando o presidente era Bill Clinton, 62%
dos franceses tinham uma opinião favorável sobre
os Estados Unidos. No ano passado, essa proporção
havia caído para 39%.
Esta foi a primeira
visita oficial de Sarkozy aos Estados Unidos como presidente
da França, mas ele já havia estado lá
em agosto, durante suas férias, para quebrar o gelo
nas relações entre os dois países. "A
aproximação com os Estados Unidos tem um sentido
estratégico para Sarkozy: ele quer ocupar o lugar do
ex-premiê Tony Blair como o europeu com maior influência
internacional", disse a VEJA o inglês Reginald Dale,
do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais,
em Washington. Por detrás dos afagos, existem pontos
reais de convergência. A França e a Alemanha
(a chanceler Angela Merkel visitou Bush na sexta-feira passada)
estão preocupadas com as ambições do
russo Vladimir Putin e concordam com Washington que é
preciso impedir os aiatolás do Irã de fabricar
bombas nucleares. Também se mostram satisfeitas com
o fato de que o governo Bush esteja, finalmente, começando
a admitir que o aquecimento global é um problema sério.
Paris ainda acha que invadir o Iraque foi uma péssima
idéia, mas soldados franceses ajudam os americanos
a combater o Talibã no Afeganistão. Como observou
recentemente o pré-candidato republicano à Presidência
dos Estados Unidos, John McCain: "Os franceses, hem? Quem
diria".