Com o petróleo
custando quase 100 dólares o barril, a busca pelo combustível
fóssil está levando as empresas a abrir fronteiras
antes apenas sonhadas. Uma delas é o Ártico,
cujas reservas estão mapeadas e até assinaladas
com bandeiras por países cobiçosos das riquezas
de suas entranhas geladas. Na semana passada, o mundo soube
que a Petrobras conseguiu extrair petróleo de uma profundidade
de 7.000 metros, algo tão descomunal que equivaleria
quase ao Monte Everest abaixo da linha d'água
e em mar alto. A empresa petrolífera brasileira foi
a primeira a dominar a tecnologia de prospecção
em profundidade 2.000 metros e agora caminha
para ser líder mundial também em superprofundidade
arrancando petróleo de depósitos lacrados a
sete chaves pela natureza. "Existem poucos lugares no mundo
em que se consegue extrair petróleo de águas
profundas. O Brasil é um deles e, por isso, tem sorte.
Como só a Petrobras desenvolveu a competência
para extrair desse tipo de reserva, os brasileiros merecem
colher os benefícios disso", disse o geólogo
Colin J. Campbell, Ph.D. da Universidade de Oxford e um dos
maiores especialistas em petróleo do mundo, ao repórter
Victor De Martino, de VEJA.
O que brotou das profundezas, por enquanto, são amostras de petróleo
de alta qualidade vindas de poços de teste de uma área de prospecção
conhecida como Tupi, localizada a 180 quilômetros da costa perto da Bacia
de Santos, no litoral paulista. Mas para os experimentados geólogos da
Petrobras é indício suficiente para comemorar. "Essa descoberta
muda o país de patamar no mercado internacional. Provavelmente teremos
de reavaliar e até ampliar nosso plano de investimentos", diz Sergio Gabrielli,
presidente da Petrobras. Para chegar ao petróleo, as sondas da empresa
furaram enormes camadas de rocha e atravessaram uma gigantesca barreira subterrânea
formada de sal. Por isso se diz que o óleo foi achado no pré-sal.
As pesquisas na região continuam e, dentro de dois anos, será conhecida
a real extensão dos depósitos. Depois disso, serão necessários
mais quatro anos para que o petróleo pré-sal brasileiro possa ser
bombeado em volume comercial a um custo competitivo. Isso é um ponto vital.
Mesmo com o barril a 100 dólares, será preciso ainda muito aprimoramento
tecnológico para extraí-lo de 7.000 metros de modo competitivo.
Quando a profundidade de exploração duplica, por exemplo, de 2.000
para 4.000 metros, o custo da operação triplica. Mas os especialistas
são unânimes em dizer que, ainda assim, vale muito a pena. O primeiro
poço dessa profundidade custou à Petrobras 240 milhões de
dólares e levou um ano para ser concluído. O custo caiu para 60
milhões e o prazo de conclusão para dois meses. Podem cair mais.
Além disso, os custos são rateados com as sócias da Petrobras
naquela área, a inglesa BG Group (25%) e a portuguesa Galp Energia (10%).
Jamil
Bittar/Reuters
Plataforma
de exploração: nova área pode conter mais da metade das reservas
do país
A
área de Tupi abrigaria reservas de 5 bilhões a 8 bilhões
de barris de petróleo. Isso mudaria a posição do Brasil no
mercado mundial de importador a exportador. Parece um volume estrondoso. Mas o
mundo é sedento por petróleo, e ao ritmo atual de consumo global
de 86 milhões de barris por dia toda a reserva de Tupi seria consumida
em apenas três meses. A grande aposta de todos é que exista petróleo
naquela rocha abaixo da camada de sal não apenas em Tupi, mas em toda a
região que vai da costa de Santa Catarina à costa do Espírito
Santo. Se Tupi for apenas uma amostra das riquezas dessa enorme região,
então haverá motivos para o otimismo típico e legítimo
que domina os governantes quando se encontra petróleo mesmo que
seja o mais pálido sinal dele. "Modificamos o paradigma geológico
do país. É uma descoberta que terá importância para
todas as gerações do Brasil", disse a ministra Dilma Rousseff.
Mas pode-se tomar o todo pela parte? Se tem petróleo fino brotando dos
poços na área de Tupi, haverá em toda aquela região?
É uma aposta. Nesse cenário positivo, a região estaria produzindo
daqui a seis ou sete anos mais de 70 bilhões de barris. Isso levaria o
Brasil da 24ª posição entre os países produtores para
o nono lugar, à frente da Nigéria e dos Estados Unidos. É
preciso ir devagar com o andor. A história mostra que nesse ramo nem sempre
tudo sai conforme o figurino. Em 1978, a British Petroleum, então com um
contrato de risco com o governo Geisel, anunciou ter encontrado petróleo
na Bacia de Santos em rocha pré-sal, a 5.000 metros de profundidade...
Será o mesmo petróleo que se anuncia agora? Melhor que não.
A exploração
de um campo de petróleo obedece a um árduo cronograma que pode levar
até dez anos entre a prospecção e o óleo jorrando
na plataforma. Para que se possa contabilizar cada barril de petróleo debaixo
do solo como reservas provadas o que muda a posição do país
no ranking dos produtores é necessário percorrer as seguintes
etapas:
A perfuração
exploratória, quando se obtêm informações sobre a estrutura
geral do poço. No caso de Tupi, essa descoberta foi feita em 2005.
A avaliação do volume de petróleo recuperável.
Ou seja, quanto daquele poço é possível ser extraído
de acordo com as características gerais do óleo encontrado. É
nessa fase que se encontra a Petrobras agora. E é devido a esse grau de
incerteza que a empresa informou que pode haver ali entre 5 bilhões e 8
bilhões de barris, uma diferença considerável.
A elaboração do plano de desenvolvimento, a partir do qual
as reservas começam a se tornar mais palpáveis. É aí
que se sabe quanto vai custar a operação, o nível de produção,
a pressão com que o petróleo pode jorrar e tudo mais que sinaliza
a viabilidade econômica do poço. Essa fase ainda demora pelo menos
dois anos.
A descoberta veio
acompanhada de um travo um tanto amargo de regresso a um tempo em que a mão
do estado era dominadora na economia. A começar por uma reunião
do Conselho Nacional de Política Energética, que ocorreu nas dependências
da Petrobras. Embora seja estatal, ela é apenas mais uma das empresas do
setor. O presidente da Petrobras, Sergio Gabrielli, explicou que somente ali havia
as condições para a apresentação dos gráficos,
filmes e todo o material produzido em três dimensões que comprovam
a extensão da descoberta. O mal-estar no mercado também ocorreu
quando se anunciou que o CNPE retiraria da próxima rodada de licitações
de áreas de exploração de petróleo os blocos vizinhos
do campo de Tupi. Estão habilitadas 66 empresas, entre as quais investidores
pesos-pesados como a Vale do Rio Doce e a OGX, do empresário Eike Batista.
"Problemas como esse criam uma expectativa desfavorável dos investidores
em relação ao Brasil", diz o advogado Paulo Valois, especialista
em energia e infra-estrutura. Essa questão deverá se resolver ao
cabo de uma guerra de interpretações das regras. Mas a briga para
participar de prospecção na área contígua a Tupi é
mais um sinal de que ali tem mesmo petróleo explorável. Seria bom
para todos.
O SIGNIFICADO DAS RESERVAS
O petróleo espalha-se de forma
desigual pelo subsolo do planeta. Vem daí apenas parte da dificuldade de
estabelecer ao certo a quantidade disponível em cada campo que se descobre.
Tanto é assim que a informação mais segura que se pode alcançar,
como por exemplo o total de petróleo garantido para exploração
no mundo, tem apenas 90% de certeza. São as chamadas reservas provadas.
É com base nessa informação que se fazem os planejamentos
energéticos e se pode deduzir por quanto tempo a humanidade ainda poderá
aplacar sua sede por combustíveis fósseis.
A reserva que se descobriu agora estava há bilhões de anos intocada
abaixo da camada de rochas salinas que começou a se formar no momento em
que a África e a América se separaram. Ao contrário do que
aconteceu em outros locais do litoral brasileiro, naquele ponto não houve
um deslocamento de placas que abrisse brechas pelas quais o petróleo pudesse
subir a níveis mais próximos da superfície. Nos próximos
anos será possível confirmar sua real extensão.