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14 de novembro de 2007
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Brasil
É só teste... mas dá
para comemorar

O governo anuncia que a Petrobras achou
muito petróleo à profundidade de quase
um Everest abaixo da superfície


Ronaldo França

 

Geraldo Falcão/divulgação
Plataforma de exploração: nova área pode conter mais da metade das reservas do país

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Em profundidade: Petróleo

Com o petróleo custando quase 100 dólares o barril, a busca pelo combustível fóssil está levando as empresas a abrir fronteiras antes apenas sonhadas. Uma delas é o Ártico, cujas reservas estão mapeadas e até assinaladas com bandeiras por países cobiçosos das riquezas de suas entranhas geladas. Na semana passada, o mundo soube que a Petrobras conseguiu extrair petróleo de uma profundidade de 7.000 metros, algo tão descomunal que equivaleria quase ao Monte Everest abaixo da linha d'água – e em mar alto. A empresa petrolífera brasileira foi a primeira a dominar a tecnologia de prospecção em profundidade – 2.000 metros – e agora caminha para ser líder mundial também em superprofundidade arrancando petróleo de depósitos lacrados a sete chaves pela natureza. "Existem poucos lugares no mundo em que se consegue extrair petróleo de águas profundas. O Brasil é um deles e, por isso, tem sorte. Como só a Petrobras desenvolveu a competência para extrair desse tipo de reserva, os brasileiros merecem colher os benefícios disso", disse o geólogo Colin J. Campbell, Ph.D. da Universidade de Oxford e um dos maiores especialistas em petróleo do mundo, ao repórter Victor De Martino, de VEJA.

O que brotou das profundezas, por enquanto, são amostras de petróleo de alta qualidade vindas de poços de teste de uma área de prospecção conhecida como Tupi, localizada a 180 quilômetros da costa perto da Bacia de Santos, no litoral paulista. Mas para os experimentados geólogos da Petrobras é indício suficiente para comemorar. "Essa descoberta muda o país de patamar no mercado internacional. Provavelmente teremos de reavaliar e até ampliar nosso plano de investimentos", diz Sergio Gabrielli, presidente da Petrobras. Para chegar ao petróleo, as sondas da empresa furaram enormes camadas de rocha e atravessaram uma gigantesca barreira subterrânea formada de sal. Por isso se diz que o óleo foi achado no pré-sal. As pesquisas na região continuam e, dentro de dois anos, será conhecida a real extensão dos depósitos. Depois disso, serão necessários mais quatro anos para que o petróleo pré-sal brasileiro possa ser bombeado em volume comercial a um custo competitivo. Isso é um ponto vital. Mesmo com o barril a 100 dólares, será preciso ainda muito aprimoramento tecnológico para extraí-lo de 7.000 metros de modo competitivo. Quando a profundidade de exploração duplica, por exemplo, de 2.000 para 4.000 metros, o custo da operação triplica. Mas os especialistas são unânimes em dizer que, ainda assim, vale muito a pena. O primeiro poço dessa profundidade custou à Petrobras 240 milhões de dólares e levou um ano para ser concluído. O custo caiu para 60 milhões e o prazo de conclusão para dois meses. Podem cair mais. Além disso, os custos são rateados com as sócias da Petrobras naquela área, a inglesa BG Group (25%) e a portuguesa Galp Energia (10%).

Jamil Bittar/Reuters
Plataforma de exploração: nova área pode conter mais da metade das reservas do país

A área de Tupi abrigaria reservas de 5 bilhões a 8 bilhões de barris de petróleo. Isso mudaria a posição do Brasil no mercado mundial de importador a exportador. Parece um volume estrondoso. Mas o mundo é sedento por petróleo, e ao ritmo atual de consumo global de 86 milhões de barris por dia toda a reserva de Tupi seria consumida em apenas três meses. A grande aposta de todos é que exista petróleo naquela rocha abaixo da camada de sal não apenas em Tupi, mas em toda a região que vai da costa de Santa Catarina à costa do Espírito Santo. Se Tupi for apenas uma amostra das riquezas dessa enorme região, então haverá motivos para o otimismo típico e legítimo que domina os governantes quando se encontra petróleo – mesmo que seja o mais pálido sinal dele. "Modificamos o paradigma geológico do país. É uma descoberta que terá importância para todas as gerações do Brasil", disse a ministra Dilma Rousseff.

Mas pode-se tomar o todo pela parte? Se tem petróleo fino brotando dos poços na área de Tupi, haverá em toda aquela região? É uma aposta. Nesse cenário positivo, a região estaria produzindo daqui a seis ou sete anos mais de 70 bilhões de barris. Isso levaria o Brasil da 24ª posição entre os países produtores para o nono lugar, à frente da Nigéria e dos Estados Unidos. É preciso ir devagar com o andor. A história mostra que nesse ramo nem sempre tudo sai conforme o figurino. Em 1978, a British Petroleum, então com um contrato de risco com o governo Geisel, anunciou ter encontrado petróleo na Bacia de Santos em rocha pré-sal, a 5.000 metros de profundidade... Será o mesmo petróleo que se anuncia agora? Melhor que não.

A exploração de um campo de petróleo obedece a um árduo cronograma que pode levar até dez anos entre a prospecção e o óleo jorrando na plataforma. Para que se possa contabilizar cada barril de petróleo debaixo do solo como reservas provadas – o que muda a posição do país no ranking dos produtores – é necessário percorrer as seguintes etapas:

• A perfuração exploratória, quando se obtêm informações sobre a estrutura geral do poço. No caso de Tupi, essa descoberta foi feita em 2005.

• A avaliação do volume de petróleo recuperável. Ou seja, quanto daquele poço é possível ser extraído de acordo com as características gerais do óleo encontrado. É nessa fase que se encontra a Petrobras agora. E é devido a esse grau de incerteza que a empresa informou que pode haver ali entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris, uma diferença considerável.

• A elaboração do plano de desenvolvimento, a partir do qual as reservas começam a se tornar mais palpáveis. É aí que se sabe quanto vai custar a operação, o nível de produção, a pressão com que o petróleo pode jorrar e tudo mais que sinaliza a viabilidade econômica do poço. Essa fase ainda demora pelo menos dois anos.

A descoberta veio acompanhada de um travo um tanto amargo de regresso a um tempo em que a mão do estado era dominadora na economia. A começar por uma reunião do Conselho Nacional de Política Energética, que ocorreu nas dependências da Petrobras. Embora seja estatal, ela é apenas mais uma das empresas do setor. O presidente da Petrobras, Sergio Gabrielli, explicou que somente ali havia as condições para a apresentação dos gráficos, filmes e todo o material produzido em três dimensões que comprovam a extensão da descoberta. O mal-estar no mercado também ocorreu quando se anunciou que o CNPE retiraria da próxima rodada de licitações de áreas de exploração de petróleo os blocos vizinhos do campo de Tupi. Estão habilitadas 66 empresas, entre as quais investidores pesos-pesados como a Vale do Rio Doce e a OGX, do empresário Eike Batista. "Problemas como esse criam uma expectativa desfavorável dos investidores em relação ao Brasil", diz o advogado Paulo Valois, especialista em energia e infra-estrutura. Essa questão deverá se resolver ao cabo de uma guerra de interpretações das regras. Mas a briga para participar de prospecção na área contígua a Tupi é mais um sinal de que ali tem mesmo petróleo explorável. Seria bom para todos.

 

O SIGNIFICADO DAS RESERVAS

O petróleo espalha-se de forma desigual pelo subsolo do planeta. Vem daí apenas parte da dificuldade de estabelecer ao certo a quantidade disponível em cada campo que se descobre. Tanto é assim que a informação mais segura que se pode alcançar, como por exemplo o total de petróleo garantido para exploração no mundo, tem apenas 90% de certeza. São as chamadas reservas provadas. É com base nessa informação que se fazem os planejamentos energéticos e se pode deduzir por quanto tempo a humanidade ainda poderá aplacar sua sede por combustíveis fósseis.

A reserva que se descobriu agora estava há bilhões de anos intocada abaixo da camada de rochas salinas que começou a se formar no momento em que a África e a América se separaram. Ao contrário do que aconteceu em outros locais do litoral brasileiro, naquele ponto não houve um deslocamento de placas que abrisse brechas pelas quais o petróleo pudesse subir a níveis mais próximos da superfície. Nos próximos anos será possível confirmar sua real extensão.

 

Com reportagem de Ronaldo Soares

 




 

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