O presidente da CBF diz que ainda não sabe quanto custará a
Copa de 2014, mas garante que os cofres públicos não vão
colocar nem um centavo
Lauro Jardim
Oscar Cabral
"Faremos
uma Copa adequada a um país em desenvolvimento, e não uma cópia
de qualquer outra, como a da Alemanha"
As cenas transmitidas da Suíça há
duas semanas, nas quais se viam em torno do presidente da CBF, Ricardo Teixeira,
o presidente Lula, doze governadores e três ministros, não deixam
dúvidas: aos 61 anos, esse flamenguista que não joga futebol nem
por recreação é o dono da bola no país. A escolha
do Brasil para sede da Copa do Mundo de 2014 coroou o poder de articulação
de Teixeira na Fifa e no mundo político. Há dezoito anos no comando
da CBF e com mandato de mais sete, Teixeira terá pela frente a delicada
missão de organizar uma Copa do Mundo. As críticas e suspeitas de
corrupção vieram de todos os cantos. "Não vamos nos meter
em construção de estádios e estradas. O comitê organizador
vai cobrar o cumprimento do cronograma", diz. Na semana passada, Teixeira recebeu
VEJA para a seguinte entrevista no Rio de Janeiro.
Veja Há
a preocupação generalizada de que a Copa seja apenas mais um cofrão
de dinheiro público para os corruptos se refestelarem... Teixeira
Se, por exemplo, eu sou dono de uma companhia de aviação,
e o Brasil constrói um aeroporto superfaturado, a culpa é da companhia
de aviação? Isso é um problema de governo. Preste atenção:
está todo mundo muito irritado porque fizemos um comitê organizador
que não vai ter um tostão do governo. Eu não vou escolher
construtora, não vou comprar nada com dinheiro do governo. Isso talvez
esteja incomodando muita gente, mas não vai ter dinheiro público.
Em resumo, as coisas básicas não terão nenhuma influência
do governo. O governo não terá de pagar comida, pessoal, transporte,
computador. Na estrutura do Pan, uma série de coisas era paga com dinheiro
do governo. Na Copa, não. Agora, se é preciso fazer uma obra de
acesso ao Maracanã, é tarefa do governo estadual. Eu não
quero e não posso fazer essa obra. Necessariamente, o governo vai fazer
as coisas dele fiscalizado pelo Tribunal de Contas. Todos eles que cumpram a lei.
Não vamos nos meter na construção de estádios e estradas
nem em licitações. O comitê organizador vai cobrar o cumprimento
do cronograma. São duas coisas distintas. No Pan, de quem se deveria cobrar
se o edifício não estivesse pronto? Do governo e do Carlos Arthur
Nuzman, presidente do COB. Porque os dois estavam mesclados. Tem gente que acha
que a CBF é subvencionada pelo governo, que é isenta de imposto,
que não paga FGTS, INSS, PIS/Pasep... Pagamos tudo, somos uma empresa.
Veja
O senhor batalhou pela morte da CPI que investigaria as relações
do Corinthians com a MSI e a lavagem de dinheiro no futebol. O pretexto foi que
isso faria a Fifa mudar de idéia quanto a realizar a Copa no Brasil, mas
o presidente da entidade, Joseph Blatter, o desmentiu... Teixeira
A pergunta não foi feita de forma correta ao Blatter. Vou fazer minhas
as palavras de uma pessoa que melhor espelha o conhecimento de uma Copa do Mundo:
Franz Beckenbauer. Ele organizou a Copa da Alemanha com grande sucesso, é
ex-jogador de futebol, presidente do Bayern de Munique, dirigente esportivo e
principalmente membro do comitê executivo da Fifa. O Beckenbauer foi entrevistado
pelo Estado de S. Paulo sobre a CPI. E o que ele respondeu? "Não
seria algo bom nesse momento. Não seria adequado. O Brasil deveria concentrar-se
em organizar a Copa." Se tivessem feito a pergunta correta, será que o
Blatter responderia daquela maneira? Se o repórter dissesse que o comitê
organizador amanhã poderia ter suas contas abertas para verificar se gastou
dinheiro no carro do Blatter, abrir as entranhas de tudo o que aconteceu em uma
Copa do Mundo, será que ele daria a mesma resposta?
Veja Dizem
que o senhor temia mesmo é que essa CPI acabasse investigando a CBF, já
que os proponentes dela são os mesmos que comandaram a CPI da Nike em 2001,
o senador Álvaro Dias e o deputado Silvio Torres. É verdade? Teixeira Isso deve ser perguntado aos dois. Alguns parlamentares
acham que a lei não vale para eles. O Silvio Torres, por exemplo, teve
a sua prestação de contas da campanha do ano passado rejeitada por
unanimidade pelo TRE de São Paulo. Esse documento oficial do TRE que tenho
em mãos fala em irregularidades insanáveis.
Veja Por
que, afinal, Pelé não participou da pré-campanha nem da cerimônia
de indicação do Brasil? Teixeira Não
existe essa conversa, não é um problema pessoal, isso é invenção.
Há uns três meses, ele esteve comigo na CBF. Falamos sobre o projeto
Copa. Esse tipo de disputa que tivemos agora foi mais sintonizado no comitê
executivo, não era necessária a presença do Pelé,
uma figura emblemática.
Veja
Mas a cerimônia festiva de Zurique não ficaria melhor
ainda com o Pelé? Teixeira E não ficaria também
com o doutor Havelange? Também acho que ficaria. Mas o Pelé vai
integrar-se, sim, ao grupo que organizará a Copa. Ele não ficará
de fora.
Veja
O senhor foi agressivo quando uma repórter perguntou na Suíça
se a criminalidade não inviabilizaria a Copa no Brasil. Mas essa pergunta
não vai calar, afinal 27 assassinatos por 100 000 habitantes assustam qualquer
um... Teixeira Talvez eu tenha me exacerbado na resposta,
admito. Isso pode ter ocorrido porque sei dos percalços por que passei
nessa campanha: outros países queriam tirar a Copa do Brasil, em uma campanha
camuflada. Um deles foi o Canadá, país da jornalista que fez aquela
pergunta. Agora, se não tiver um pouquinho de sangue na veia para reagir,
então eu não sirvo. Um pouquinho eu tenho. Achei meio demais aquela
pergunta, sinceramente.
Veja
Tudo bem que o Brasil é o país do futebol, mas era
preciso mesmo que doze governadores de estado e o presidente da República
estivessem presentes ao anúncio oficial em Zurique? Teixeira
Foi uma demonstração tácita de apoio governamental
de todo o Brasil, independentemente de coloração política.
Isso foi o melhor da nossa campanha. Ficou provado que o Brasil quer a Copa do
Mundo. Para a Fifa era muito importante essa demonstração. As pessoas
se esquecem, ou não sabem, mas, quando a Alemanha foi escolhida, foram
à cerimônia o primeiro-ministro, o presidente, o Michael Schumacher,
a Claudia Schiffer, o Beckenbauer, o presidente da federação, governadores
da Baviera. Na vez da África do Sul, foram o Nelson Mandela e vários
políticos importantes. E alguém ainda se lembra de quem defendeu
diante da Fifa a candidatura dos EUA? Henry Kissinger. Na campanha da Inglaterra
contra a Alemanha fui convidado para jantar com a rainha Elizabeth no Palácio
de Buckingham. Esse fenômeno não é brasileiro. É mundial.
Veja
Outros críticos manifestaram temores mais subjetivos, como
o potencial uso político da vinda da Copa para coibir a discussão
de qualquer assunto negativo no país sob o pretexto de que atrapalha o
projeto ou mancha nossa imagem lá fora... Teixeira
Honestamente? Pensar assim é ridículo, é chamar o povo brasileiro
de bobo. Vivemos numa democracia, temos uma imprensa que marca em cima, uma Polícia
Federal ativa e uma oposição atuante. Será que o povo ficará
entorpecido durante sete anos por causa de uma Copa do Mundo? Quem diz isso faz
pouco do povo brasileiro.
Veja
A Copa de 2014 será parecida com a da Alemanha, que foi primorosa
na organização, ou será apenas uma Copa "para argentino nenhum
botar defeito", conforme a provocação do presidente Lula? Teixeira
Será uma Copa brasileira, e não uma cópia de qualquer
outra. Teremos uma Copa adequada a um país em desenvolvimento. A Alemanha
já tinha a infra-estrutura praticamente pronta. Mesmo assim, seis meses
antes era um verdadeiro canteiro de obras em vários lugares. A Copa de
2014 será um pouco mais parecida com a dos Estados Unidos na questão
dos transportes, para dar um único exemplo. Usaremos muito o avião
e nenhum trem. Nos EUA, a seleção brasileira levou o seu próprio
avião, para poder disputar a Copa. Confesso que não tenho nenhum
temor a respeito da nossa capacidade de organização. Até
pela vontade do presidente Lula de querer deslanchar tudo o mais rápido
possível.
Veja
Como é a briga na Fifa para um país conseguir sediar
uma Copa? Teixeira É articulação. Em
1999, fomos candidatos disputando a indicação da Copa de 2006 com
a Alemanha e a África do Sul. Ali, fizemos um acordo em que desisti em
favor da África do Sul em 2010. A disputa ficou para 2014. Então,
a nossa luta foi realmente manter o rodízio de continentes até 2014.
Se acabasse o rodízio, obviamente existiria uma gama absurda de candidatos,
inclusive da própria Europa, que era como acontecia antigamente. A grande
vitória do Brasil foi conseguir manter o rodízio até 2014.
Ele já estava para ser modificado. Tanto isso é verdade que agora
acabou.
Veja
A conquista dos votos é feita diretamente com cada um dos
presidentes das federações de futebol dos 200 países que
integram a Fifa? Ou é na cúpula que as coisas se definem? Teixeira
Tanto para manter o rodízio como para ser bem-sucedido na candidatura,
a conversa é com o comitê executivo da Fifa. O trabalho é
todo ali. É o espelho do mundo do futebol: são 23 integrantes mais
o presidente da Fifa, que tem só o voto de Minerva em caso de empate. São
oito votos da Europa, quatro da Ásia, quatro da África, três
da América do Sul, três da Concacaf (a Confederação
de Futebol da América do Norte, Central e Caribe) e um da Oceania.
Se eu não estivesse no comitê executivo, tudo seria mais difícil.
Quem está ali tem mais poder de negociar. Estou no comitê desde 1994.
Ou seja, antes desta de agora, já participei da escolha de três Copas
Coréia, Alemanha e África do Sul.
Veja Circulam
as mais disparatadas estimativas sobre o volume de gastos da Copa do Mundo de
2014. Quanto, afinal, ela vai custar? Teixeira Ainda é
muito cedo para saber. O Carlos Langoni (economista que comandará a
parte financeira do comitê organizador da Copa) fez um estudo que estima
um gasto em torno de 6 bilhões de dólares. Mas é só
uma estimativa. Qualquer número agora é precipitação.
Veja
Por quê? Teixeira Por enquanto, dezoito
cidades concorrem para ser sedes e subsedes. Se forem doze cidades, como nós
queremos, é um custo. Se forem dez, como a Fifa em princípio prefere,
o custo é outro. Quando isso for definido, começará a ficar
mais fácil saber quanto se gastará. O que nós já temos
é o orçamento do comitê organizador: 432 183 737 dólares,
que serão usados de janeiro de 2008 até o fim da Copa de 2014, mais
um contingenciamento de 10%. Ao contrário do que aconteceu no Pan, todos
os itens serão pagos com recursos próprios da Fifa ou da iniciativa
privada do aluguel dos estádios à telefonia e funcionários.
Vou dar o exemplo de um item de gasto já orçado: para o aluguel
de estádios para a Copa das Confederações, que se realizará
em 2013, a previsão é 35 milhões de dólares.
Veja
Mas, só para efeito de raciocínio, se a Copa custar
os tais 6 bilhões de dólares estimados por Langoni e o comitê
dispuser de apenas 8% desse total, o grosso dos gastos será mesmo bancado
com dinheiro público, seja ele federal ou estadual, certo? Teixeira
Não necessariamente.
Veja
Como não? Obras de saneamento, extensão de metrôs,
investimentos em estradas, segurança pública... Teixeira
Vamos por partes. Um pedaço desses 6 bilhões estimados
será investido pela iniciativa privada. É o dinheiro privado que
erguerá hotéis em várias cidades, por exemplo. Ou fará
a reforma do Morumbi, que é do São Paulo. Assim como a do Maracanã
e a do Mineirão os governadores Sérgio Cabral e Aécio
Neves já disseram que farão parcerias público-privadas para
a remodelação desses estádios. Por outro lado, não
se pode raciocinar sob hipótese alguma colocando algumas obras públicas
como um gasto. O que vai ocorrer é antecipação de investimentos.
Em 1978, a Argentina não tinha televisão colorida. Por causa da
Copa, os argentinos foram obrigados a fazer toda a estrutura de televisão
colorida. Anteciparam todo esse projeto em seis anos. Será a mesma coisa
conosco. Em Brasília, por exemplo. Lá, o governador (José
Roberto) Arruda quer fazer o metrô, do aeroporto até o estádio
Mané Garrincha. É o que ele disse: "Ricardo, é uma antecipação
do que já seria feito". Ao aplicar em hospital, transporte, saneamento
básico, estradas, enfim, o que está se fazendo é antecipar
os investimentos. Quanto à segurança, será feito simplesmente
aquilo que já é obrigação do estado. Faço questão
absoluta de garantir que a de 2014 será uma Copa em que o poder público
nada gastará em atividades desportivas.