Com
14 milhões de discos vendidos em treze anos de carreira, a cantora e pianista
canadense Diana Krall é a mais bem-sucedida intérprete de jazz da
atualidade. No dia 2 de dezembro, ela enfrenta a tarefa de entreter o público
brasileiro num show ao ar livre em São Paulo, no qual apresentará
um repertório de standards. Ela falou ao repórter Sérgio
Martins de Vancouver, no Canadá.
A
senhora calcou sua carreira na repetição de standards. Acredita
que trouxe algo novo ao jazz? Um público, talvez. Nos últimos
anos, milhões de pessoas descobriram compositores geniais como Cole Porter
e Irving Berlin por meu intermédio. Não acho que isso seja pouco.
E desafio alguém a mostrar que não há integridade no que
faço. O desejo de transformar o jazz numa música de massa deveria
ser louvado. Foi o que fizeram Stan Getz e Sérgio Mendes, artistas que
sempre me serviram de modelo.
É
possível dar sabor novo a canções que já foram regravadas
centenas de vezes? Clássicos, por definição, não
envelhecem. O que pode ser velho é a maneira de interpretá-los,
de utilizar a voz, os instrumentos ou a orquestração. Entre no estúdio
despido de preconceitos e você será capaz de fazer qualquer canção
soar como nova. Além do mais, a novidade não é um valor absoluto.
Às vezes basta emocionar o ouvinte e fazê-lo pensar: "Nunca
ouvi uma versão tão boa quanto esta".
O
jazz é muito masculino. É preciso ser durona para sobreviver nesse
meio? Não sei se durona é a palavra certa. Algumas das mulheres
que mais se destacam no jazz atual, como a regente Maria Schneider e a trompetista
Ingrid Jensen, são pessoas doces. Diria que é preciso ser esperta.
Eu me destaquei em meio a dezenas de artistas que gostariam de fazer sucesso tocando
jazz. Artistas excelentes, aos quais, no entanto, faltou o tino necessário
para ir além da música e construir uma carreira. Acho que são
estes os ingredientes: talento, trabalho e uma dose de esperteza. A menos que
haja alguma coisa na água de Vancouver que favoreça a formação
de mulheres jazzistas. Afinal, eu e Ingrid Jensen estudamos na mesma escola, na
mesma cidade.
No Brasil, a senhora
vai se apresentar durante o dia, num parque ao ar livre. Esse cenário combina
com jazz? O imaginário em torno do jazz remete à noite e
aos lugares pequenos, até escondidos. Isso é parte da história
do gênero. Mas não se trata de uma camisa-de-força. Eu gosto
de me apresentar para grandes platéias. Meses atrás, toquei para
15 000 pessoas no Hollywood Bowl, em Los Angeles. E elas entraram no clima.
O sucesso de um evento desse tipo depende, acima de tudo, da empatia entre público
e artista. Mas meu repertório atual, calcado no último disco, que
reúne os sucessos de minha carreira, também ajuda. São músicas
que as pessoas reconhecem. Só não me peçam para tocar bossa
nova no Brasil. Seria como tocar em Nova Orleans e tentar ensinar ao público
alguma coisa sobre jazz.
The Girl
in the Other Room (2004) é um de seus melhores discos, mas a senhora
evita tocar as canções dele em shows. Por quê? Adoro
o disco, mas ele me faz recordar um período doloroso. Minha mãe
havia morrido pouco antes, e a tristeza se refletiu na seleção das
músicas. Minha interpretação também é mais
sombria. Porque cantar jazz é muito mais do que escolher um standard, marcar
hora no estúdio e soltar a voz. Cantar jazz tem a ver com a necessidade
de externar sentimentos. É assim com Billie Holiday, é assim com
Elis Regina e é assim comigo. Por isso é tão difícil
interpretar essas músicas num show.
A
morte de sua mãe afetou outros aspectos de sua vida? Ela sempre
incentivou minha carreira. Quando morreu, fiquei devastada. Cumpri todos os meus
compromissos profissionais, mas com muita dificuldade. E muitas vezes não
tive paciência para lidar com o público e a imprensa. Mas superei
essa tristeza. Sou mãe de duas crianças lindas, e toda vez que olho
para elas sinto que minha mãe também está presente.