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14 de novembro de 2007
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Auto-retrato
Diana Krall

Newscom


Com 14 milhões de discos vendidos em treze anos de carreira, a cantora e pianista canadense Diana Krall é a mais bem-sucedida intérprete de jazz da atualidade. No dia 2 de dezembro, ela enfrenta a tarefa de entreter o público brasileiro num show ao ar livre em São Paulo, no qual apresentará um repertório de standards. Ela falou ao repórter Sérgio Martins de Vancouver, no Canadá.

A senhora calcou sua carreira na repetição de standards. Acredita que trouxe algo novo ao jazz?
Um público, talvez. Nos últimos anos, milhões de pessoas descobriram compositores geniais como Cole Porter e Irving Berlin por meu intermédio. Não acho que isso seja pouco. E desafio alguém a mostrar que não há integridade no que faço. O desejo de transformar o jazz numa música de massa deveria ser louvado. Foi o que fizeram Stan Getz e Sérgio Mendes, artistas que sempre me serviram de modelo.

É possível dar sabor novo a canções que já foram regravadas centenas de vezes?
Clássicos, por definição, não envelhecem. O que pode ser velho é a maneira de interpretá-los, de utilizar a voz, os instrumentos ou a orquestração. Entre no estúdio despido de preconceitos e você será capaz de fazer qualquer canção soar como nova. Além do mais, a novidade não é um valor absoluto. Às vezes basta emocionar o ouvinte e fazê-lo pensar: "Nunca ouvi uma versão tão boa quanto esta".

O jazz é muito masculino. É preciso ser durona para sobreviver nesse meio?
Não sei se durona é a palavra certa. Algumas das mulheres que mais se destacam no jazz atual, como a regente Maria Schneider e a trompetista Ingrid Jensen, são pessoas doces. Diria que é preciso ser esperta. Eu me destaquei em meio a dezenas de artistas que gostariam de fazer sucesso tocando jazz. Artistas excelentes, aos quais, no entanto, faltou o tino necessário para ir além da música e construir uma carreira. Acho que são estes os ingredientes: talento, trabalho e uma dose de esperteza. A menos que haja alguma coisa na água de Vancouver que favoreça a formação de mulheres jazzistas. Afinal, eu e Ingrid Jensen estudamos na mesma escola, na mesma cidade.

No Brasil, a senhora vai se apresentar durante o dia, num parque ao ar livre. Esse cenário combina com jazz?
O imaginário em torno do jazz remete à noite e aos lugares pequenos, até escondidos. Isso é parte da história do gênero. Mas não se trata de uma camisa-de-força. Eu gosto de me apresentar para grandes platéias. Meses atrás, toquei para 15 000 pessoas no Hollywood Bowl, em Los Angeles. E elas entraram no clima. O sucesso de um evento desse tipo depende, acima de tudo, da empatia entre público e artista. Mas meu repertório atual, calcado no último disco, que reúne os sucessos de minha carreira, também ajuda. São músicas que as pessoas reconhecem. Só não me peçam para tocar bossa nova no Brasil. Seria como tocar em Nova Orleans e tentar ensinar ao público alguma coisa sobre jazz.

The Girl in the Other Room (2004) é um de seus melhores discos, mas a senhora evita tocar as canções dele em shows. Por quê?
Adoro o disco, mas ele me faz recordar um período doloroso. Minha mãe havia morrido pouco antes, e a tristeza se refletiu na seleção das músicas. Minha interpretação também é mais sombria. Porque cantar jazz é muito mais do que escolher um standard, marcar hora no estúdio e soltar a voz. Cantar jazz tem a ver com a necessidade de externar sentimentos. É assim com Billie Holiday, é assim com Elis Regina e é assim comigo. Por isso é tão difícil interpretar essas músicas num show.

A morte de sua mãe afetou outros aspectos de sua vida?
Ela sempre incentivou minha carreira. Quando morreu, fiquei devastada. Cumpri todos os meus compromissos profissionais, mas com muita dificuldade. E muitas vezes não tive paciência para lidar com o público e a imprensa. Mas superei essa tristeza. Sou mãe de duas crianças lindas, e toda vez que olho para elas sinto que minha mãe também está presente.




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