BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2034

14 de novembro de 2007
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Claudio de Moura Castro
Millôr
André Petry
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
Auto-retrato
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

André Petry
O atraso zoofílico

"Há um perigo crescente: a visão
agressivamente anticiência de certos
defensores dos animais. O negócio deles
é parar a ciência em nome da bicharada"

Autoridades cariocas promoveram um episódio que, na aparência, só engorda o catálogo do folclore político da cidade. Aconteceu o seguinte: os vereadores aprovaram uma lei proibindo maus-tratos aos animais, mas despacharam à prefeitura outra versão da lei, e o prefeito Cesar Maia, mais afeito à intriga blogueira do que à maçante rotina de alcaide, apôs seu jamegão à versão errada. Com isso, proibiu-se o uso de animais em pesquisas científicas na cidade. Era o Rio nas trevas medievais. Os laboratórios cariocas, que reúnem 20% das pesquisas brasileiras, fechariam as portas. Graças a reportagem do jornal O Globo, a lei foi corrigida. Agora, pune maus-tratos, mas permite o uso de cobaias nas pesquisas.

Apresentado assim, o episódio parece só uma trapalhada devidamente superada. É engano. Por trás da fachada inofensiva, o caso ilumina um perigo crescente: a visão agressivamente anticiência de certos defensores dos animais. Por eles, o uso de animais nas pesquisas seria proibido. É o que previa o projeto original do vereador Cláudio Cavalcanti, do DEM carioca. Para eles, não importa que a proibição de cobaias resulte na suspensão de todos os estudos para produzir vacinas, remédios, para medir toxicidade, identificar alergia... O importante é que os ratos fiquem bem. Exagero?

Em fevereiro, o deputado tucano Ricardo Tripoli propôs a criação do Código Federal de Bem-Estar Animal. Tem mais de 130 artigos. Lá pelas tantas, diz: "É vedado o uso de animais para fins científicos ou didáticos se o procedimento causar dor, estresse ou desconforto ao animal". Ora, qual a experiência que não causa desconforto ao bicho, por mais cuidado que se tenha ao manipulá-lo? Na prática, o tal código proíbe experiências com animais no país. Um delírio.

Há uma fatia dos pró-bichos que se julga dona de uma visão avançada, pós-antropocêntrica, mas é apenas medieval. Porque demoniza a ciência, como sendo uma área insensível e diabólica do saber humano, e cria um falso conflito entre pesquisa científica e ética animal. Falso porque a comunidade científica, em peso, é favorável à regulamentação do uso de animais em pesquisas e criou comissões de ética que orientam sobre o assunto. Qualquer instituição séria tem uma.

Os cientistas não querem liberdade para ser cruéis. Querem lei, disciplina, ética. Tanto que lançaram um manifesto pela aprovação do projeto que trata do assunto e está parado há mais de dez anos no Congresso. Os defensores dos animais, que deveriam apoiar a idéia, pois disciplina o manejo de cobaias, fizeram silêncio. Por quê? Uma pista: o projeto que tramita há mais de dez anos protege os bichos, mas não a ponto de interditar a ciência, como o tal código do deputado. Isso mostra que, no fundo, muitos dos pró-bichos, no seu radicalismo cego, não querem um único rato, camundongo ou coelho como cobaia. O negócio deles é parar a ciência em nome da bicharada. É o obscurantismo zoofílico.

Em tempo: o Nobel de Medicina deste ano saiu para os três criadores de uma técnica que simula doenças em camundongos, permitindo identificar o efeito de certos genes na saúde humana. Se dependesse dos pró-bichos radicais, os três cientistas, em vez de premiados, seriam presos.




  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |