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Roberto
Pompeu de Toledo
Mrs.
Zenowich desistiu de bandeira nova
Ou:
bondades e
maldades, doçuras
e
vilanias
motivadas
pelo
problemático
sentimento
do patriotismo
A
senhora Ann Moss Zenowich, moradora em Nova Orleans, Estado da Louisiana,
tem uma bandeira em frente de casa. Não se trata de grande originalidade.
Todo mundo, nos Estados Unidos, nestes dias, tem bandeira em frente de
casa. Americano é bicho esquisito. Brasileiro, quando exibe bandeira
em casa, é porque tem jogo da seleção. Pátria
é, por aqui, um time de futebol. Para os americanos é a
abstração em que conceitos como os de nação,
terra natal e comunidade têm seu ponto de encontro. Normalmente,
já muitos têm bandeiras em casa, assim como nos escritórios
ou nas lojas. Nestes dias então... As lojas que vendem bandeiras
não dão conta da demanda.
A proliferação das bandeiras, em cada quarteirão,
resulta, segundo a senhora Zenowich, numa "bonita vista". Mesmo assim,
e mesmo habitando um país muito mais afeito à bandeira do
que o normal dos países, a moradora de Nova Orleans tem uma restrição
a fazer aos compatriotas. Ela lamenta ter sido necessária uma tragédia
como a de 11 de setembro para as casas se encherem de bandeiras. Deveria
ser sempre assim. "Os americanos não podem esquecer por um minuto
todos os benefícios, confortos e, mais importante, a liberdade
de que gozam", afirma.
A senhora Ann Moss Zenowich escreveu uma carta à revista Newsweek
(edição de 5 de novembro, página 22). É por
esse pequeno texto que travamos conhecimento com ela. A missivista exibe-se
como exemplo de pessoa que não precisou esperar os terríveis
acontecimentos de Nova York e Washington para exibir a bandeira no jardim.
Há muito tempo ela o faz, tanto que sua bandeira já anda
meio rota e desbotada. Ultimamente a senhora Zenowich vinha discutindo
com o marido da conveniência de trocá-la por uma nova. "Mas",
escreve ela, "sinto-me orgulhosa de nossa velha bandeira, porque ela reflete
como nos sentimos todos os dias." A carta não é explícita
nesse ponto, mas depreende-se que a senhora Zenowich desistiu de comprar
bandeira nova. Ficou com a velha, para mostrar que não é
uma recém-chegada ao nicho do patriotismo. Tal conclusão
combina com a afirmação que é o centro de seu pensamento:
"Lembremo-nos sempre de que patriotismo é sentimento que se deve
ter todos os dias, não só de vez em quando".
A carta da senhora Ann Moss Zenowich, em parte comovente, em parte assustadora,
resume os elementos antagônicos contidos nesse sentimento problemático
que é o patriotismo. Os Estados Unidos, nestes dias, acham-se embriagados
de patriotismo. Pode ser bonito de um lado as pessoas apresentam-se
unidas e solidárias, tomadas de comoção pela origem,
hábitos, valores e destino comuns. De outro lado... Bem, uma tendência
dos unidos é patrulhar os desgarrados. Alguém que não
tem bandeira à porta, numa rua onde todos têm, vira um esquisitão.
Além disso, os que se apresentam unidos, em geral, estão
unidos contra alguém, ou algo. Estar unido contra o terrorismo
todo mundo está. O problema, tão fácil de ocorrer,
é extrapolar daí para estar unido contra outro país,
outra etnia, outra religião. Em outras épocas e outros lugares,
já se esteve patrioticamente unido contra o vizinho, o herege,
o judeu, o negro... O "outro".
Não é à toa que a mais famosa e mais citada frase
sobre o patriotismo, tão caro à senhora Ann Moss Zenowich,
seja depreciativa: "O patriotismo é o último refúgio
dos calhordas" (Samuel Johnson). É o sentimento invocado por um
Estado quando quer aniquilar outro, ou por um governo quando se propõe
a massacrar os dissidentes. No Brasil o patriotismo era invocado pelo
regime militar. Mesmo o patriotismo futebolístico não é
exatamente inofensivo. Vá alguém ser contra, quando se formam
as correntes-pra-frente. Vá destoar, quando os locutores da TV
criam o clima de empolgação. O patriotismo costuma ser exaltado
mais por poetastros que por poetas. Os poetas melhores vão com
calma ao assunto. Vinicius de Moraes, no belo Pátria Minha,
descreve a pátria não como "a mais garrida", mas com esta
precisa definição, para quem, como ele, estava vivendo no
estrangeiro: "Tenho-te (à pátria) em tudo em que
não me sinto a jeito / Nesta terra estrangeira com lareira / E
sem pé direito". Mário de Andrade, em O Poeta Come Amendoim,
dá a razão por que ama o Brasil: "Porque é o meu
jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir". Nada de bandeira.
A carta da senhora Zenowich tem um lado intolerante. Porque se embandeirou
antes, ela se sente superior aos vizinhos, e reprova os que só
agora se lembram da pátria. Por outro lado, pensa-se com carinho
nessa senhora, talvez moradora de uma casa de subúrbio, sem muro,
com uma bandeira rota e desbotada espetada no gramado da entrada. Ela
se sente insegura. Em Nova York aconteceu o impensável. Há
gente espalhando veneno em cartas. Uma guerra estranha foi aberta lá
longe. O medo faz a senhora Ann Moss Zenowich recolher-se ao mais ancestral
dos refúgios, que é o aconchego da tribo. Ela é a
personificação dos Estados Unidos, na atual quadra
ao mesmo tempo arrogantes e trágicos.
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