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Edição 1 726 - 14 de novembro de 2001
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Sotaque latino

Os experimentos de um inglês
com o realismo mágico

Sérgio Sant'Anna

O inglês Louis de Bernières ganhou fama com o excelente romance O Bandolim de Corelli, transformado num filme que está em cartaz no Brasil e nem de longe lhe faz justiça. Na juventude, ele viveu na Colômbia, dando aulas e cuidando de gado. Ao voltar à Inglaterra, trabalhou como mecânico e jardineiro, antes de estrear na literatura com um romance explicitamente calcado na escola latino-americana. A Guerra de Don Emmanuel (tradução de Celina Cavalcante Falck; Record; 389 páginas; 40 reais) paga tributo não só à experiência do autor por estas bandas, como a um de seus maiores escritores, o colombiano Gabriel García Márquez de Cem Anos de Solidão. Don Emmanuel, que batiza o romance, é meio inglês. Depois de viver dois anos com índios na América do Sul, ele se estabelece como fazendeiro e prospera num povoado de um país fictício. Será esse homem, latifundiário e anarquista, que irá unir-se a camponeses e guerrilheiros numa utópica rebelião contra as oligarquias locais e, principalmente, as forças armadas. O motivo da guerra de don Emmanuel é o desvio do Rio Mula, que atravessa suas terras e as de camponeses, pela aristocrática dona Constanza, que deseja essas águas para construir uma piscina.

Mesmo quando trafega por temas duríssimos como opressão e miséria, A Guerra de Don Emmanuel vive de um humor rasgado, que pode chegar ao pastelão e à tolice. Há gratuidade no realismo mágico de Bernières. Seu livro traz episódios como uma epidemia de risos e uma enchente de gatos, esta última responsável por uma passagem infame: a mulher do presidente dá à luz um felino, depois de o casal recorrer à alquimia em seus amores. Outra obsessão que percorre a obra é a de uma abrasadora sexualidade, que acaba por resvalar para o machismo. Em alguns momentos, Louis de Bernières põe de fato o dedo em feridas sangrentas da América Latina, como a tortura. Mas, apesar desse carinho legítimo pelo continente sul-americano e de momentos de bela arte narrativa, ainda é melhor ler o modelo do autor. García Márquez, ele mesmo.

   
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