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Sotaque
latino
Os experimentos de um inglês
com o realismo mágico
Sérgio
Sant'Anna
O
inglês Louis de Bernières ganhou fama com o excelente romance
O Bandolim de Corelli, transformado num filme que está em
cartaz no Brasil e nem de longe lhe faz justiça. Na juventude,
ele viveu na Colômbia, dando aulas e cuidando de gado. Ao voltar
à Inglaterra, trabalhou como mecânico e jardineiro, antes
de estrear na literatura com um romance explicitamente calcado na escola
latino-americana. A Guerra de Don Emmanuel (tradução
de Celina Cavalcante Falck; Record; 389 páginas; 40 reais) paga
tributo não só à experiência do autor por estas
bandas, como a um de seus maiores escritores, o colombiano Gabriel García
Márquez de Cem Anos de Solidão. Don Emmanuel, que
batiza o romance, é meio inglês. Depois de viver dois anos
com índios na América do Sul, ele se estabelece como fazendeiro
e prospera num povoado de um país fictício. Será
esse homem, latifundiário e anarquista, que irá unir-se
a camponeses e guerrilheiros numa utópica rebelião contra
as oligarquias locais e, principalmente, as forças armadas. O motivo
da guerra de don Emmanuel é o desvio do Rio Mula, que atravessa
suas terras e as de camponeses, pela aristocrática dona Constanza,
que deseja essas águas para construir uma piscina.
Mesmo quando trafega por temas duríssimos como opressão
e miséria, A Guerra de Don Emmanuel vive de um humor rasgado,
que pode chegar ao pastelão e à tolice. Há gratuidade
no realismo mágico de Bernières. Seu livro traz episódios
como uma epidemia de risos e uma enchente de gatos, esta última
responsável por uma passagem infame: a mulher do presidente dá
à luz um felino, depois de o casal recorrer à alquimia em
seus amores. Outra obsessão que percorre a obra é a de uma
abrasadora sexualidade, que acaba por resvalar para o machismo. Em alguns
momentos, Louis de Bernières põe de fato o dedo em feridas
sangrentas da América Latina, como a tortura. Mas, apesar desse
carinho legítimo pelo continente sul-americano e de momentos de
bela arte narrativa, ainda é melhor ler o modelo do autor. García
Márquez, ele mesmo.
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