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Radical infantil
O que
é aquilo? Um pássaro,
um avião, um X-Salada...
Não, é o Capitão Cueca!
Marcelo Marthe
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| Haroldo,
Jorge e o Capitão Cueca: 25 000 exemplares vendidos no Brasil |
Na infância,
o americano Dav Pilkey encabeçava a lista de maus elementos de
seu colégio. Era um menino incontrolável, freqüentador
assíduo da sala do diretor. Mas ele soube tirar bom proveito dessa
fase. Hoje, aos 35 anos, assina uma das séries de livros mais populares
entre as crianças americanas: a do Capitão Cueca, um super-herói
rechonchudo que traja apenas uma capa e a roupa de baixo. Pilkey narra
peripécias com vilões absurdos e um bom toque de anarquia.
Seu tema, no fundo, é a maneira como as crianças lidam com
a questão da autoridade. Na ficção criada por Pilkey,
o Capitão Cueca é invenção de dois garotos,
Jorge e Haroldo, que são uma espécie de retrato do artista
quando jovem. Agitadíssimos, quase beirando a hiperatividade, eles
irritam seus professores ao bolar um gibi cheio de erros de gramática
e ortografia com as aventuras do personagem. E a coisa não pára
aí: por meio de um anel hipnótico, a dupla consegue transformar
o diretor da escola no herói amalucado.
Lançado
em 1997, o Capitão Cueca é um fenômeno editorial.
Ilustrados em preto-e-branco, os cinco livros da série ultrapassaram
a marca dos 12 milhões de exemplares vendidos nos Estados Unidos.
O mais recente deles ocupa as primeiras posições da lista
de best-sellers infantis do jornal The New York Times. A moda também
está pegando no Brasil, na mesma faixa de público: os meninos
de 7 a 12 anos. Até agora foram lançados por aqui os três
primeiros volumes, As Aventuras do Capitão Cueca, Capitão
Cueca e o Ataque das Privadas Falantes e Capitão Cueca e
a Invasão das Incrivelmente Malvadas Garotas da Cantina do Outro
Planeta (todos têm cerca de 140 páginas e custam 15 reais).
Eles fazem parte do catálogo de uma editora paulistana especializada
em livros sobre arte, a Cosac & Naify. Mesmo sem divulgação,
já foram vendidos 25.000 exemplares,
o que faz da série uma exceção no frágil balanço
da empresa (veja quadro).
"No começo, eu me negava a pronunciar o nome dos livros, porque
tenho horror a essa palavra: cueca. Procurei um sinônimo nos dicionários,
até em latim, mas descobri que cueca é insubstituível",
diz o excêntrico editor Charles Cosac.
O Capitão
Cueca é uma delícia. Nas passagens com alguma pancadaria,
o leitor deve mover as páginas rapidamente, para criar a ilusão
de imagem animada. O autor apelidou esse recurso de flip-o-rama
("vire-o-game", em português). E uma das armas de Jorge e Haroldo
é o seu infalível "falso cocô de cachorro". "Trabalho
para atrair crianças arredias à leitura", diz Pilkey. Por
acharem as histórias vulgares, algumas escolas americanas baniram
o Capitão Cueca de suas bibliotecas. Mas muitos educadores vêem
a série com bons olhos. "Essas histórias são um bom
pretexto para debater a relação entre alunos e professores
na sala de aula", acredita Hubert Alqueres, secretário adjunto
de Educação do Estado de São Paulo. O governo paulista
investiu 35.000 reais na compra dos livros
da série, que serão distribuídos em mais de 3.000
escolas. O rebelde Dav Pilkey, quem diria, triunfou nas fileiras inimigas.
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"Tenho
horror a essa palavra: cueca"
Paulo Pinto/Ag. Estado
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| Cosac:
editora no vermelho |
Fundada há cinco anos, a editora Cosac & Naify chegou
ao mercado com a proposta de publicar livros de arte luxuosos a
preços razoáveis. Essa proposta foi cumprida à
risca, mas o público não correspondeu como esperado.
Títulos com tiragem de 5 000 exemplares não alcançaram
vendagem superior a 100. "Nem as pessoas ligadas ao mercado de arte
compram. Fico chocado quando donos de galeria ligam para pedir os
livros de presente", diz Charles Cosac, dono da editora. Até
agora, a empresa conseguiu sobreviver graças aos aportes
de dinheiro feitos pelos três sócios Charles
e sua irmã, herdeiros de um imigrante sírio que fez
fortuna com mineração, e o investidor americano Michael
Naify. A injeção de recursos estaria na faixa dos
3,5 milhões de dólares por ano. Para estancar a sangria
financeira, a editora resolveu recentemente diversificar um pouco
o seu catálogo. Além dos livros de arte, passou a
publicar também uma coleção de clássicos
universais e obras de interesse geral, como a coleção
Fique por Dentro. E, claro, a série do Capitão Cueca,
um dos maiores sucessos desta fase de "reposicionamento no mercado".
Mas Cosac confessa que não é um grande fã do
herói. Ele descarta a idéia de popularizar ainda mais
a linha editorial. "Se for para baratear meu ideal, prefiro fechar
as portas", sentencia.
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