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Edição 1 726 - 14 de novembro de 2001
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Radical infantil

O que é aquilo? Um pássaro,
um avião, um
X-Salada...
Não, é o Capitão Cueca!

Marcelo Marthe

Haroldo, Jorge e o Capitão Cueca: 25 000 exemplares vendidos no Brasil

Na infância, o americano Dav Pilkey encabeçava a lista de maus elementos de seu colégio. Era um menino incontrolável, freqüentador assíduo da sala do diretor. Mas ele soube tirar bom proveito dessa fase. Hoje, aos 35 anos, assina uma das séries de livros mais populares entre as crianças americanas: a do Capitão Cueca, um super-herói rechonchudo que traja apenas uma capa e a roupa de baixo. Pilkey narra peripécias com vilões absurdos e um bom toque de anarquia. Seu tema, no fundo, é a maneira como as crianças lidam com a questão da autoridade. Na ficção criada por Pilkey, o Capitão Cueca é invenção de dois garotos, Jorge e Haroldo, que são uma espécie de retrato do artista quando jovem. Agitadíssimos, quase beirando a hiperatividade, eles irritam seus professores ao bolar um gibi cheio de erros de gramática e ortografia com as aventuras do personagem. E a coisa não pára aí: por meio de um anel hipnótico, a dupla consegue transformar o diretor da escola no herói amalucado.

Lançado em 1997, o Capitão Cueca é um fenômeno editorial. Ilustrados em preto-e-branco, os cinco livros da série ultrapassaram a marca dos 12 milhões de exemplares vendidos nos Estados Unidos. O mais recente deles ocupa as primeiras posições da lista de best-sellers infantis do jornal The New York Times. A moda também está pegando no Brasil, na mesma faixa de público: os meninos de 7 a 12 anos. Até agora foram lançados por aqui os três primeiros volumes, As Aventuras do Capitão Cueca, Capitão Cueca e o Ataque das Privadas Falantes e Capitão Cueca e a Invasão das Incrivelmente Malvadas Garotas da Cantina do Outro Planeta (todos têm cerca de 140 páginas e custam 15 reais). Eles fazem parte do catálogo de uma editora paulistana especializada em livros sobre arte, a Cosac & Naify. Mesmo sem divulgação, já foram vendidos 25.000 exemplares, o que faz da série uma exceção no frágil balanço da empresa (veja quadro). "No começo, eu me negava a pronunciar o nome dos livros, porque tenho horror a essa palavra: cueca. Procurei um sinônimo nos dicionários, até em latim, mas descobri que cueca é insubstituível", diz o excêntrico editor Charles Cosac.

O Capitão Cueca é uma delícia. Nas passagens com alguma pancadaria, o leitor deve mover as páginas rapidamente, para criar a ilusão de imagem animada. O autor apelidou esse recurso de flip-o-rama ("vire-o-game", em português). E uma das armas de Jorge e Haroldo é o seu infalível "falso cocô de cachorro". "Trabalho para atrair crianças arredias à leitura", diz Pilkey. Por acharem as histórias vulgares, algumas escolas americanas baniram o Capitão Cueca de suas bibliotecas. Mas muitos educadores vêem a série com bons olhos. "Essas histórias são um bom pretexto para debater a relação entre alunos e professores na sala de aula", acredita Hubert Alqueres, secretário adjunto de Educação do Estado de São Paulo. O governo paulista investiu 35.000 reais na compra dos livros da série, que serão distribuídos em mais de 3.000 escolas. O rebelde Dav Pilkey, quem diria, triunfou nas fileiras inimigas.

 

"Tenho horror a essa palavra: cueca"


Paulo Pinto/Ag. Estado
Cosac: editora no vermelho


Fundada há cinco anos, a editora Cosac & Naify chegou ao mercado com a proposta de publicar livros de arte luxuosos a preços razoáveis. Essa proposta foi cumprida à risca, mas o público não correspondeu como esperado. Títulos com tiragem de 5 000 exemplares não alcançaram vendagem superior a 100. "Nem as pessoas ligadas ao mercado de arte compram. Fico chocado quando donos de galeria ligam para pedir os livros de presente", diz Charles Cosac, dono da editora. Até agora, a empresa conseguiu sobreviver graças aos aportes de dinheiro feitos pelos três sócios – Charles e sua irmã, herdeiros de um imigrante sírio que fez fortuna com mineração, e o investidor americano Michael Naify. A injeção de recursos estaria na faixa dos 3,5 milhões de dólares por ano. Para estancar a sangria financeira, a editora resolveu recentemente diversificar um pouco o seu catálogo. Além dos livros de arte, passou a publicar também uma coleção de clássicos universais e obras de interesse geral, como a coleção Fique por Dentro. E, claro, a série do Capitão Cueca, um dos maiores sucessos desta fase de "reposicionamento no mercado". Mas Cosac confessa que não é um grande fã do herói. Ele descarta a idéia de popularizar ainda mais a linha editorial. "Se for para baratear meu ideal, prefiro fechar as portas", sentencia.



   
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