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Edição 1 726 - 14 de novembro de 2001
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O inferno existe

A Caminho de Kandahar mistura documentário e ficção, para mostrar
a tragédia do Afeganistão

Isabela Boscov

 
Divulgação
Niloufar, a protagonista: peregrinação pelo horror

O cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf estava um passo à frente da história quando, no início deste ano, decidiu filmar A Caminho de Kandahar (Safar É Ghandehar, Irã/França, 2001), que estréia nesta quinta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro. O filme narra a peregrinação de Nafas (Niloufar Pazira), uma jornalista afegã radicada no Canadá que empreende uma viagem desesperada até a cidade do título (quartel-general da milícia Talibã, aliás). O motivo de sua jornada é impedir o suicídio da irmã, que já não tem vontade de viver sob a opressão da burca. Coberta também ela da cabeça aos pés, Nafas é conduzida através do deserto por quem se disponha a ajudá-la – uma família de refugiados que é roubada por milicianos, um garoto expulso da escola corânica, um negro americano que faz as vezes de médico num vilarejo e um homem mutilado por uma mina. Em pouco mais de uma hora, o diretor consegue algo que, desde os atentados de 11 de setembro, se transformou em artigo valioso: um retrato da vida como ela realmente é hoje no Afeganistão do Talibã. Lançado com pouco alarde no Festival de Cannes, em maio, o filme agora se tornou um título disputado pelos distribuidores internacionais. Até o presidente americano George W. Bush fez questão de vê-lo.

A Caminho de Kandahar tem valores que ultrapassam o caráter meramente documental. O cenário de miséria que ele revela é tanto mais rascante porque Makhmalbaf, um expoente do cinema de seu país, consegue infundi-lo com uma espécie de poesia da desesperança – como na cena, bela e horrível, em que a câmara registra os rostos de um grupo de mutilados que correm com suas muletas e próteses toscas em direção a um helicóptero da Cruz Vermelha. Fiel à tradição iraniana, o diretor – que é conhecido aqui por Gabbeh e Um Instante de Inocência – empregou quase que só amadores no elenco. São na maioria refugiados afegãos que vivem na fronteira com o Irã (onde o filme foi rodado) e conhecem na pele o drama que interpretam. A protagonista é mesmo uma jornalista que mora no Canadá. Há mais de um ano, Niloufar pediu a Makhmalbaf ajuda para entrar no Afeganistão e retirar de lá uma amiga. O diretor não pôde atendê-la na ocasião, mas mais tarde sugeriu que filmassem uma versão ficcionalizada dessa história. Makhmalbaf, contudo, diz que ela é incompleta. "Se eu mostrasse toda a tristeza que vi, ninguém acreditaria."

   
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