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O
inferno existe
A
Caminho de Kandahar mistura documentário
e ficção, para mostrar
a tragédia do Afeganistão
Isabela Boscov
Divulgação
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| Niloufar,
a protagonista: peregrinação pelo horror |
O
cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf estava um passo à frente da
história quando, no início deste ano, decidiu filmar A
Caminho de Kandahar (Safar É Ghandehar, Irã/França,
2001), que estréia nesta quinta-feira em São Paulo e no
Rio de Janeiro. O filme narra a peregrinação de Nafas (Niloufar
Pazira), uma jornalista afegã radicada no Canadá que empreende
uma viagem desesperada até a cidade do título (quartel-general
da milícia Talibã, aliás). O motivo de sua jornada
é impedir o suicídio da irmã, que já não
tem vontade de viver sob a opressão da burca. Coberta também
ela da cabeça aos pés, Nafas é conduzida através
do deserto por quem se disponha a ajudá-la uma família
de refugiados que é roubada por milicianos, um garoto expulso da
escola corânica, um negro americano que faz as vezes de médico
num vilarejo e um homem mutilado por uma mina. Em pouco mais de uma hora,
o diretor consegue algo que, desde os atentados de 11 de setembro, se
transformou em artigo valioso: um retrato da vida como ela realmente é
hoje no Afeganistão do Talibã. Lançado com pouco
alarde no Festival de Cannes, em maio, o filme agora se tornou um título
disputado pelos distribuidores internacionais. Até o presidente
americano George W. Bush fez questão de vê-lo.
A
Caminho de Kandahar tem valores que ultrapassam o caráter meramente
documental. O cenário de miséria que ele revela é
tanto mais rascante porque Makhmalbaf, um expoente do cinema de seu país,
consegue infundi-lo com uma espécie de poesia da desesperança
como na cena, bela e horrível, em que a câmara registra
os rostos de um grupo de mutilados que correm com suas muletas e próteses
toscas em direção a um helicóptero da Cruz Vermelha.
Fiel à tradição iraniana, o diretor que é
conhecido aqui por Gabbeh e Um Instante de Inocência
empregou quase que só amadores no elenco. São na
maioria refugiados afegãos que vivem na fronteira com o Irã
(onde o filme foi rodado) e conhecem na pele o drama que interpretam.
A protagonista é mesmo uma jornalista que mora no Canadá.
Há mais de um ano, Niloufar pediu a Makhmalbaf ajuda para entrar
no Afeganistão e retirar de lá uma amiga. O diretor não
pôde atendê-la na ocasião, mas mais tarde sugeriu que
filmassem uma versão ficcionalizada dessa história. Makhmalbaf,
contudo, diz que ela é incompleta. "Se eu mostrasse toda a tristeza
que vi, ninguém acreditaria."
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