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Edição 1 726 - 14 de novembro de 2001
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Tolerância zero

Mater Dei, um filme contra a
selvageria
que castiga o país
em todos os níveis

Isabela Boscov

Divulgação
Carolina Ferraz e Gabriel Braga Nunes, em cena: roteiro de Diogo Mainardi

Em Mater Dei (Brasil, 2001), que estréia nesta quinta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro, os protagonistas são dois irmãos, o cineasta Vinicius (Gabriel Braga Nunes) e o jornalista Diogo (Dan Filip). Eles querem fazer um filme, não têm dinheiro e topam qualquer negócio para viabilizar seu projeto – inclusive emitir notas frias, envolver-se em corrupção e chantagear. Ou, pior ainda, vender informações sobre o paradeiro de uma mulher (Carolina Ferraz) cujo filho recém-nascido será sacrificado para pôr fim a uma guerra sanguinolenta entre um grande empreiteiro e um juiz ladrão. É ficção, sim, mas só até certo ponto. Dirigido pelo paulista Vinicius Mainardi, a partir de um roteiro de seu irmão, o colunista de VEJA Diogo Mainardi, Mater Dei elabora uma espécie de teoria da tolerância zero da realidade brasileira. Um dos objetivos é mostrar que esquema é esquema, não importa a identidade do corrupto ou o volume de rendimentos aferido com a tramóia. Do cineasta que superfatura um cenário ao juiz que enriquece numa negociata e ao deputado que esquarteja os inimigos com serra elétrica, todos estão igualmente a serviço do atraso e da selvageria, é o que diz Mater Dei.

Essa falta de complacência é só um dos aspectos que distinguem o filme. Ao contrário de seus alter egos de celulóide, os irmãos Mainardi de carne e osso não usaram de nenhum expediente para levantar dinheiro para seu projeto. Recusaram-se a obter um tostão que fosse através dos mecanismos de renúncia fiscal previstos em leis, por julgar que não cabe ao contribuinte o ônus de bancar filmes. Os 600.000 reais empregados em Mater Dei (o que inclui os gastos com distribuição) saíram de seus próprios bolsos e dos de seus sócios. Um deles, por sinal, é o empresário João Paulo Diniz, que anda entusiasmado com a idéia de financiar produções cinematográficas. Para diminuir os custos, filmaram em minivídeo digital, mais barato que a película. Por esses motivos, Diogo Mainardi define Mater Dei como "um protótipo" – ou seja, um modelo possível para um cinema sem subsídios governamentais.

Para que essa equação se complete, é preciso que Mater Dei agrade ao público e se pague nas bilheterias. O primeiro passo para tanto já foi dado. Se Dezesseis Zero Sessenta, o filme de estréia de Vinicius, mal chegou a ser distribuído, seu novo trabalho está sendo lançado com mais de uma dezena de cópias. Nem tudo é perfeito, claro. O tom farsesco que é o forte de Mater Dei não se aglutina bem com os ocasionais momentos dramáticos da trama, e o vídeo digital é por vezes um empecilho. Esse formato, muito usado em filmes mais experimentais e que tem em Vinicius um bom conhecedor, apresenta limitações técnicas significativas. Não comporta tomadas amplas, por exemplo, e também não permite colocar objetos mais distantes em foco. No estágio em que se encontra, está longe de ser um substituto para a tradicional película de 35 milímetros. Mas é ótimo para fazer filmes rápidos, econômicos e, espera-se, viáveis. Se somarmos a esses pontos a honestidade, tem-se aí, na íntegra, a carta de intenções representada por Mater Dei.

   
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