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Tolerância
zero
Mater
Dei, um filme contra a
selvageria que
castiga o país
em todos os níveis
Isabela Boscov
Divulgação
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Carolina Ferraz e
Gabriel Braga Nunes, em cena: roteiro de Diogo Mainardi |
Em
Mater Dei (Brasil, 2001), que estréia nesta quinta-feira
em São Paulo e no Rio de Janeiro, os protagonistas são dois
irmãos, o cineasta Vinicius (Gabriel Braga Nunes) e o jornalista
Diogo (Dan Filip). Eles querem fazer um filme, não têm dinheiro
e topam qualquer negócio para viabilizar seu projeto inclusive
emitir notas frias, envolver-se em corrupção e chantagear.
Ou, pior ainda, vender informações sobre o paradeiro de
uma mulher (Carolina Ferraz) cujo filho recém-nascido será
sacrificado para pôr fim a uma guerra sanguinolenta entre um grande
empreiteiro e um juiz ladrão. É ficção, sim,
mas só até certo ponto. Dirigido pelo paulista Vinicius
Mainardi, a partir de um roteiro de seu irmão, o colunista de VEJA
Diogo Mainardi, Mater Dei elabora uma espécie de teoria
da tolerância zero da realidade brasileira. Um dos objetivos é
mostrar que esquema é esquema, não importa a identidade
do corrupto ou o volume de rendimentos aferido com a tramóia. Do
cineasta que superfatura um cenário ao juiz que enriquece numa
negociata e ao deputado que esquarteja os inimigos com serra elétrica,
todos estão igualmente a serviço do atraso e da selvageria,
é o que diz Mater Dei.
Essa falta de complacência é só um dos aspectos que
distinguem o filme. Ao contrário de seus alter egos de celulóide,
os irmãos Mainardi de carne e osso não usaram de nenhum
expediente para levantar dinheiro para seu projeto. Recusaram-se a obter
um tostão que fosse através dos mecanismos de renúncia
fiscal previstos em leis, por julgar que não cabe ao contribuinte
o ônus de bancar filmes. Os 600.000 reais empregados em Mater
Dei (o que inclui os gastos com distribuição) saíram
de seus próprios bolsos e dos de seus sócios. Um deles,
por sinal, é o empresário João Paulo Diniz, que anda
entusiasmado com a idéia de financiar produções cinematográficas.
Para diminuir os custos, filmaram em minivídeo digital, mais barato
que a película. Por esses motivos, Diogo Mainardi define Mater
Dei como "um protótipo" ou seja, um modelo possível
para um cinema sem subsídios governamentais.
Para que essa equação se complete, é preciso que
Mater Dei agrade ao público e se pague nas bilheterias.
O primeiro passo para tanto já foi dado. Se Dezesseis Zero Sessenta,
o filme de estréia de Vinicius, mal chegou a ser distribuído,
seu novo trabalho está sendo lançado com mais de uma dezena
de cópias. Nem tudo é perfeito, claro. O tom farsesco que
é o forte de Mater Dei não se aglutina bem com os
ocasionais momentos dramáticos da trama, e o vídeo digital
é por vezes um empecilho. Esse formato, muito usado em filmes mais
experimentais e que tem em Vinicius um bom conhecedor, apresenta limitações
técnicas significativas. Não comporta tomadas amplas, por
exemplo, e também não permite colocar objetos mais distantes
em foco. No estágio em que se encontra, está longe de ser
um substituto para a tradicional película de 35 milímetros.
Mas é ótimo para fazer filmes rápidos, econômicos
e, espera-se, viáveis. Se somarmos a esses pontos a honestidade,
tem-se aí, na íntegra, a carta de intenções
representada por Mater Dei.
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