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Fera famintaEm vez
de adequar suas despesas
Alexandre Secco e Felipe Patury
O gráfico que atravessa a boca da fera (veja gráfico) é a melhor representação da voracidade com que o governo arranca impostos da sociedade. Repare que, ano após ano, com poucas exceções, o volume de tributos arrecadado cresce de forma expressiva. Até o fim deste ano, calcula-se que o poder público terá recolhido algo como 370 bilhões de reais, ou 34% do PIB. Estudos informam que o total de impostos poderá chegar a 35% do PIB até o fim de 2002. A arrecadação tributária já ultrapassou o patamar praticado nos Estados Unidos e se aproxima do padrão do Reino Unido e do Canadá países onde a renda per capita é cinco vezes a brasileira e a qualidade do serviço público dispensa apresentações. Nessa tarefa de tirar dinheiro do contribuinte, a Receita Federal adota todos os expedientes conhecidos. Cria um imposto prometendo que será provisório, mas ele logo se torna definitivo. A CPMF deveria durar dois anos. Já dura cinco. Outro truque é criar um tributo dizendo ao Congresso que a alíquota será mínima. No ano seguinte, ela acaba reajustada. Aconteceu com o Cofins, que subiu de 2% para 3%. Na semana passada, a voracidade do governo estava novamente em campo para dar uma tunga, agora no imposto de renda. Numa manobra tão marota quanto as aqui descritas, o governo não reajusta desde 1996 a tabela que define quem paga e quem está isento do IR. Na tabela, lê-se que não paga imposto quem ganha até 900 reais por mês. Como a inflação do período foi de 35%, mas a tabela permaneceu inalterada, o governo produziu uma distorção incrível. Fez subir de 6 milhões para 11 milhões a massa de pagadores de IR. Resultado da esperteza: 5 bilhões de reais por ano no cofre do governo. O Congresso Nacional passou a semana discutindo um projeto para recuperar o prejuízo. Pelo texto aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, o novo limite de isenção passa a ser de 1 217 reais. A primeira atitude do governo foi tentar derrubar o projeto. Como ficou constrangedor, propôs uma compensação no próprio imposto de renda. A idéia é subir de 27,5% para 35% a maior das alíquotas, a ser aplicada sobre quem recebe acima de 10 000 reais. Como argumento principal, o secretário da Receita, Everardo Maciel, afirma que é preciso arrumar 5 bilhões para repor a perda como chamou aquele dinheiro do qual o governo se apropriou ao congelar a tabela. Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, um dos maiores especialistas em tributação, o consultor Antoninho Marmo Trevisan, desmonta o conceito de perda. "Não existe perda, mas um enorme crédito do contribuinte perante o poder arrecadador", escreveu. "De 1993 até 2000, a arrecadação per capita cresceu 187%, e a carga tributária global saltou de 26% para 34%. Como cada ponto porcentual do PIB representa 10 bilhões de reais nos cofres públicos por ano, temos um crédito de 80 bilhões anuais a favor do contribuinte brasileiro."
E por que o governo trata a sociedade dessa forma, mordendo taxas, tributos e contribuições de todas as fontes possíveis? Porque a despesa pública não pára de subir, o governo precisa arrumar dinheiro para sustentar seu corpanzil e, para piorar, não consegue vencer a sonegação. Estudo feito pela Receita revela que 29% de todo o dinheiro em circulação na economia não sofre nenhum tipo de tributação, a não ser por meio da CPMF. Suspeita-se que esse seja o tamanho da sonegação. A saída tem sido concentrar a cobrança sobre um grupo pequeno de empresas e uma parcela reduzida das pessoas. De acordo com dados oficiais, 1% dos 3 milhões de empresas brasileiras responde por 85% do recolhimento de imposto de renda de pessoa jurídica. Quanto ao imposto de renda de pessoa física, ele só é pago por 7% da população economicamente ativa. Num modelo concentrado como esse, as distorções acabam sendo inevitáveis. Como é preciso tributar, tributar, tributar, as empresas são chamadas a pagar um imposto sobre o faturamento, outro sobre o lucro e um terceiro sobre a folha de pagamento. A Companhia Siderúrgica Nacional dispõe de um exército de trinta pessoas para cuidar do emaranhado fiscal. Há de tudo: diretor, três advogados cuja única função é brigar na Justiça para pagar menos impostos e funcionários especializados em calcular o valor dos tributos e preencher guias. Tudo com a ajuda de quatro escritórios de advocacia de grande porte. Além da burocracia que o sistema produz, há prejuízos reais. Alguns deles são os impostos em cascata, como a Cofins, o PIS e a CPMF, que oneram a produção. A Secretaria para Assuntos Fiscais do BNDES tentou calcular o impacto dessa cascata. O setor mais prejudicado é o da siderurgia. Apenas em virtude dos tributos, o aço nacional acaba saindo 10% mais caro que o estrangeiro. As indústrias de material elétrico e de automóveis pagam 9% a mais. "Quando um carro nosso é exportado, o imposto vai dentro dele", diz Antônio Maciel Neto, presidente da Ford no Brasil. O modelo de tributação escolhido pelo país é componente-chave do chamado "custo Brasil". Um exemplo: 37% do valor das passagens aéreas acabam nos cofres oficiais na forma de impostos. Na Europa, a carga é de 16% e nos Estados Unidos, 15%. "O problema é que concorremos num mundo global com empresas estrangeiras que pagam muito menos", diz Ozires Silva, presidente da Varig. Muitas empresas acabam tendo dificuldade para se adaptar à realidade doméstica. A rede de lanchonetes McDonald's convive com uma parafernália de onze legislações e vinte tipos de alíquota nos 22 Estados em que atua. Isso porque o Brasil é o único país onde o imposto mais importante, o ICMS, é regido por 27 leis e gerenciado segundo regras próprias em cada uma das unidades da federação. O sistema provoca guerra fiscal e estimula a sonegação. As perguntas que ficam são: será que o governo precisa de 34% do PIB? Esse número não é um exagero? Ou é necessário arrumar muito mais se se quiser erradicar a miséria? A análise isolada do tamanho da carga tributária em geral conduz a conclusões equivocadas. A Coréia do Sul trabalha com uma das cargas tributárias mais baixas do mundo, pouco superior a 20% do PIB, e mesmo assim conseguiu empreender uma das mais bem-sucedidas reformas no campo da educação que se conhecem. A França, que trabalha com uma carga da ordem de 45% do PIB, discute cortar serviços públicos, pois o dinheiro não está dando. Tudo depende do que a sociedade espera que o governo faça, e a que preço. Até a Constituição de 1988, cerca de 70 milhões de pessoas não tinham direito ao serviço público de saúde no Brasil. A Carta garantiu atendimento gratuito a todos. O que aconteceu? O custo com a saúde praticamente dobrou. Atualmente, o governo paga tudo. O país é o segundo que mais faz transplantes no mundo e fornece medicamentos para o tratamento de todos os pacientes com Aids. Em países como Canadá e Inglaterra, há restrições para os tratamentos mais caros, como transplantes e remédios para Aids e câncer. O modelo de Estado no Brasil também prevê a existência de universidades estatais sustentadas pelo contribuinte. Isso tem um preço. "Não há milagre. Se queremos gastar com saúde e acabar com o analfabetismo, não é possível baixar a carga tributária", diz Roberto Setúbal, presidente do Banco Itaú. Um pedaço da resposta está aí, no chamado "modelo de Estado". Acontece que o poder público abriga também algumas despesas elevadíssimas, que não são exatamente sociais. Dos 370 bilhões de reais em impostos arrecadados por ano, algo como 150 bilhões ingressam sob a guarda de Everardo Maciel. Desse dinheiro, 30 bilhões são usados para pagar a aposentadoria dos servidores públicos. O dinheiro equivale ao dobro do faturamento da CPMF. É evidente que os servidores merecem se aposentar. Mas como justificar que o conjunto da sociedade (incluindo os que ganham 900 reais por mês) banque aposentadorias médias de 2.300 reais, contra os 299 reais praticados no mundo privado? Há também o desafio dos juros. No ano passado, o governo precisou arranjar 90 bilhões de reais para rolar a dívida pública. O jornalista Joelmir Beting fez a conta: se o governo baixasse os juros que paga ao mercado financeiro em 1 ponto porcentual, conseguiria um alívio de 5 bilhões de reais por ano em suas contas coincidentemente o mesmo que espera arrecadar com o aumento de alíquota do IR. É essa discussão que precisa ser feita. "Meu trabalho consiste em arranjar os recursos de que o governo precisa para a missão pactuada com a sociedade", afirma o secretário Everardo Maciel. "Se a sociedade acha que precisa reduzir a carga, deve decidir que despesas o governo deve cortar para que ela assuma a responsabilidade de pagar sozinha."
Com
reportagem de Ângela Nunes e |
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