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Meu pai fuma
maconha comigo
Ganha
corpo o fenômeno
do "baseado em família": o
de pais
que compartilham o
uso da droga com os filhos
Ariel Kostman
Montagem com fotos de André Penner e Zeca
Rodrigues
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Felipe
é um dentista de 53 anos. Como tantos outros de sua geração,
começou a fumar maconha nos anos 60, quando a erva fazia parte
do pacote básico dos jovens que queriam "contestar o sistema" ou
apenas "curtir numa boa" (ah, como as gírias se tornam bobocas
com o passar do tempo...). Felipe acendia baseados escondido dos pais.
Depois de adulto e casado, continuou a fumar os cigarrinhos enrolados
em papel de seda, mas sem ocultar o hábito de seus dois meninos.
Hoje, a maconha é um item menos presente no cardápio de
Felipe. Mas se tornou algo a ser compartilhado com os filhos. No mês
passado, ele e Lúcio, o primogênito de 26 anos, introduziram
o caçula de 16 na rodinha de fumo caseira. "Nessas ocasiões,
ficamos alegres, rimos bastante", diz Felipe.
O fenômeno do "baseado em família" já apresenta proporções
suficientes para chamar a atenção dos especialistas no tratamento
de dependentes químicos. Nos Estados Unidos, vinte de cada 100
jovens internados em clínicas de desintoxicação tinham
o costume de fumar maconha com os pais. Cerca de 5% deles foram apresentados
à erva por papai ou mamãe. No Brasil, os números
que emergem dos consultórios médicos impressionam. Dos dependentes
atendidos pela psicóloga paulista Sueli de Queiroz, uma das mais
respeitadas do país, metade é composta de pais que usam
a erva com os filhos ou de filhos que dividem o baseado com os pais. O
psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, diretor do Grupo Interdisciplinar
de Estudos de Álcool e Drogas da Universidade de São Paulo,
lembra a história de um de seus pacientes, um adolescente de 17
anos. Filho de um alto executivo, o rapaz foi expulso da escola depois
de ter sido flagrado com um cigarro de maconha. O pai, ao invés
de lhe dar uma bronca ou de encaminhá-lo a um psicólogo
ou algo que o valha, ensinou-lhe macetes de como fumar sem correr o risco
de ser pego.
Para esses pais, fumar maconha é uma experiência inócua,
que serve inclusive para estreitar laços. "É como tomar
um cálice de vinho ou um copo de cerveja ao lado de quem se gosta",
compara a empresária Lúcia, de 45 anos, que de vez em quando
enrola um baseado com João, seu filho de 19. É uma visão
equivocada. Assim como o álcool e o tabaco, a maconha faz mal,
sim, à saúde. Com uma agravante: é droga ilegal.
Esse fato, no caso do "baseado em família", tem implicações
maiores do que a pena criminal. Uma das funções dos pais
é inculcar nos filhos a obediência a determinados códigos.
Em muitos pontos, as figuras paterna e materna encarnam as próprias
regras sociais, o que é essencial não só para a educação,
como para a formação da personalidade da criança
e do jovem. "Quando um adulto usa a droga com o filho, está sinalizando
que não é preciso respeitar a lei, nenhuma lei. A partir
daí, cria-se uma confusão que pode levar a distúrbios
psíquicos e de comportamento", critica o psiquiatra gaúcho
Sérgio de Paula Ramos. Em resumo, pai é pai, amigo é
amigo. O "pai amigo", que até fuma baseado, é uma daquelas
modernices que só servem para causar transtornos. Os especialistas
são unânimes: se um adulto é usuário de maconha
(ou de qualquer outra droga), que a utilize longe da vista de seus filhos.
A hipocrisia, aqui, é mesmo um elogio que o vício presta
à virtude.
Existe, ainda, um contigente expressivo de pais que, embora não
fumem maconha, permitem abertamente que seus filhos o façam dentro
de casa na linha "melhor aqui do que lá fora". Há
também aqueles que fingem não ver o que ocorre. Permanecem
na sala, tentando ignorar aquele cheirinho de mato que vem do quarto.
Esse universo foi abordado num estudo realizado pela antropóloga
Rachel Trajber. Durante três meses, Rachel conviveu com sessenta
jovens de 12 a 21 anos, de todos os segmentos sociais da cidade de São
Paulo. Os jovens de classe média, principalmente, mencionaram um
"certo consentimento" dos pais em relação ao uso da erva.
Essa atitude não é tão perniciosa quanto consumir
a droga ao lado dos filhos, mas ajuda a cristalizar a idéia de
que maconha não faz mal e de que é um erro incluí-la
no rol dos entorpecentes. A maioria dos pesquisados, aliás, acredita
que só as substâncias mais pesadas, como cocaína,
crack e ecstasy, podem ser consideradas drogas. Eles, assim como seus
pais, deveriam ser informados de que nunca a erva foi tão perigosa.
Nos últimos quarenta anos, a concentração de THC,
o princípio ativo da maconha, aumentou muito (veja quadro abaixo).
Conseqüentemente, seu poder de viciar também. Uma pesquisa
conduzida pela psicóloga Flávia Jungerman, supervisora do
Ambulatório da Maconha da Universidade Federal de São Paulo,
traçou o perfil dos usuários no Brasil. Eles começam
a fumar por volta dos 14 anos e mais da metade enrola mais de um baseado
por dia. "Os jovens precisam que alguém imponha limites", afirma
Flávia. Isso cabe a você, pai.
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MAIS
FORTE E MAIS
PERIGOSA
O
princípio ativo da maconha é o THC, sigla de tetrahidrocanabinol.
É ele o responsável pelas sensações
de relaxamento e desinibição experimentadas por quem
fuma a erva. Traduzindo: aquele sorrisinho estereotipado é
causado pelo THC. A fome que todo usuário sente depois de
fumar a popular "larica" também é obra
do THC. Nos últimos quarenta anos, a presença dessa
substância aumentou muito nos baseados enrolados pela moçada.
Na década de 60, um cigarro da erva continha 0,5% de THC.
Atualmente, estudos americanos apontam para níveis de até
5%. Há ainda o skank, a supermaconha desenvolvida em laboratório,
com 20% de THC. Por causa dessas altas taxas de princípio
ativo, a maconha hoje vicia mais e inflige danos ainda maiores ao
organismo. O uso freqüente da droga diminui a coordenação
motora, altera a memória e a concentração.
Pode levar o usuário a crises de ansiedade e depressão.
Além disso, prejudica o funcionamento do sistema respiratório
acarreta infecções de garganta e de pulmão.
O THC é apenas um dos 400 compostos químicos encontrados
em um cigarro de maconha. Alguns deles são cancerígenos,
como o alcatrão.
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