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Fora
da redoma
Câmara dos Deputados aprova
emenda que acaba com a imunidade
parlamentar para crimes comuns
Márcio Pacelli
Na
semana passada, o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro,
encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) denúncia contra o
senador Luiz Otávio (PPB-PA). Em 1992, ele pegou emprestados 12
milhões de reais do Banco do Brasil para construir treze balsas
e sumiu com o dinheiro. Se tivesse persistido a tradição,
o senador só iria se explicar à Justiça depois que
terminasse o seu mandato, em 2007, isso se não fosse reeleito por
mais uma temporada de oito anos. Acontece que, até hoje, no Brasil,
os parlamentares são protegidos pela imunidade, um instrumento
do século XVII que foi inventado na Inglaterra para evitar que
os representantes do povo sofressem pressões no exercício
de seus mandatos. O problema é que, por aqui, a imunidade acabou
servindo de salvo-conduto para que políticos acusados de crimes
comuns, como corrupção e estelionato, permanecessem bem
longe dos tribunais. Na terça-feira passada, a Câmara dos
Deputados deu o primeiro passo para acabar com essa distorção.
Por 412 votos a 9, foi aprovado o projeto que limita a imunidade aos crimes
de opinião. Para a grande maioria dos congressistas, não
muda nada. Eles poderão continuar questionando e debatendo os temas
de interesse nacional sem nenhuma restrição. Para uma minoria
enrolada, o mandato deixa de ser um instrumento de impunidade.
Há nos escaninhos do Congresso Nacional 28 pedidos da Justiça
para processar deputados e senadores por crimes que nada têm a ver
com o exercício do mandato. A lei em vigor estabelece que qualquer
investigação sobre parlamentares deve seguir para o STF,
ao qual cabe solicitar ao Parlamento autorização para instaurar
o processo. Invocando a imunidade, os próprios deputados e senadores
nunca concedem essa autorização. A Justiça é
obrigada então a aguardar o fim do mandato. Isso é uma delícia
para quem tem o que esconder, mas acaba sendo um problema para quem não
tem. O senador Luiz Otávio, por exemplo, que se diz injustiçado,
poderia estar sendo processado normalmente. Isso não atrapalharia
seu desempenho parlamentar e ainda lhe daria a chance de esclarecer de
uma vez por todas, como qualquer cidadão comum, o que fez com o
dinheiro que evaporou de seu estaleiro há nove anos. Com a imunidade
provocando a paralisia do processo, paira sobre a cabeça dos acusados
uma aura permanente de suspeição o que é ruim
para quem não deve.
Só na Câmara existem 42 pedidos de licença para processar
deputados. Desses, 27 envolvem acusações de crimes pesados
que prevêem pena de prisão para os responsáveis. O
deputado Remi Trinta (PL-MA) é o campeão há quatro
pedidos do STF contra ele. O parlamentar é acusado de estelionato,
formação de quadrilha, falsificação de documentos
e até racismo. O deputado não estava em Brasília
para votar a emenda da imunidade, mas se diz feliz da vida com o resultado.
"Vou finalmente me defender. Tem mais de dez anos que sou punido pelo
que nunca fiz." O deputado Fernando Gonçalves (PTB-RJ) é
acusado de aumentar o número de leitos de um hospital para, com
isso, obter mais repasses da Previdência Social. Seu colega, o deputado
José Aleksandro (PSL-AC), suplente de Hildebrando Pascoal aquele
que foi cassado por uso de motosserra contra seres humanos , também
é alvo de dois pedidos de licença do STF. É acusado
de falsificar documentos e se apropriar indevidamente de recursos públicos
quando era vereador em Rio Branco. Ele também estava ausente da
votação. Contra o deputado Eurico Miranda (PPB/RJ) há
um pedido de processo por crime de lesão corporal contra os torcedores
que foram atingidos pelo alambrado do estádio de São Januário,
que desabou no ano passado. No Senado, além de Luiz Otávio,
cujo pedido de licença deve chegar nos próximos dias, existem
quatro parlamentares com processos trancados todos por crime de opinião
em ações movidas por pessoas que se sentiram ofendidas.
O projeto que restringe a imunidade ainda vai ser analisado em segundo
turno pelos deputados e, depois, segue para o Senado. O presidente da
Câmara, deputado Aécio Neves, quer encerrar a votação
da emenda em, no máximo, duas semanas. "Estamos nos colocando ao
lado dos Parlamentos mais avançados do mundo", diz. A imunidade
limitada já deve mostrar os primeiros resultados na eleição
do ano que vem. Com os processos contra parlamentares tramitando sem necessidade
de autorização, podem surgir casos em que o deputado ou
senador acabe condenado por um crime no meio do mandato. Como causará
constrangimento ao Congresso abrigar um condenado, a perda de mandato
será iminente. Isso constituirá uma preocupação
a mais dos partidos na hora de definir as candidaturas às eleições,
já que a medida vale também para deputados estaduais. Além
de tirar do páreo interesseiros com prontuários policiais,
torna sem efeito a estratégia daqueles que fazem da atividade política
um biombo para se esconder da Justiça.
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