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A governadora
não tem muito tempo livre. Nos fins de semana, cozinha um pouco.
Nas horas vagas, gosta de ocupar-se com uma boa biografia ou um filme
leve. Não vê novela e, se visse, provavelmente choraria
em qualquer cena emocionante. É uma mulher de lágrima fácil.
Diz que não é ciumenta e que, depois de cinco anos separada
de Jorge Murad, entre 1987 e 1992, sua maior felicidade foi reencontrar
o marido com quem voltou a se casar oficialmente há apenas
quatro anos. Sua fragilidade é a saúde. Depois da cirurgia
na Suíça, em 1973, fez outras onze: retirada de novo cisto
no ovário, quatro cirurgias para extrair pólipos no intestino,
retirada de nódulo do pulmão esquerdo, extração
de útero e ovário, extração de tumor benigno
no seio direito, retirada de parte do intestino, cirurgia no joelho esquerdo
e outra retirada de tumor benigno no seio.
Fotos Ana Araújo
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| A
obra em torno da Lagoa da Jansen e, abaixo e uma favela perto de São
Luís: ajuda do irmão ministro, que presenteia a irmã com o grosso
das verbas do Meio Ambiente, destinando-as para um Estado com dramáticos
índices sociais e econômicos |
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Com o pai
tem uma relação de carinho e admiração, mas
as faíscas entre os dois são freqüentes. Quando assumiu
o governo do Maranhão, ela implantou uma reforma administrativa
radical. Extinguiu todas as secretarias estaduais e substituiu-as por
oito gerências na capital e outras dezoito espalhadas pelo Estado.
Sarney ficou apavorado, achava que a filha inauguraria uma baderna administrativa,
mas não conseguiu demovê-la. Ela tem voz suave, gestos leves
e aparência frágil, mas sabe dar murro na mesa. Governa com
uma rede de apoio que beira a unanimidade. Dos 217 prefeitos maranhenses,
tem o apoio de 210. Dos 42 deputados estaduais, sua base tem 37. Ela não
permite emendas a sua proposta de orçamento. Em sete anos, só
duas foram aprovadas, e só porque corrigiam erros grosseiros. Num
deles, previa-se o desembolso de 25 milhões de reais para uma estatal,
a Maranhão Investimentos, que nem existia mais. Em 1998, ano eleitoral,
os deputados se rebelaram e apresentaram 800 emendas. Roseana fez o relator
do orçamento, José Orlando, dar 800 pareceres contra, alegando
que elas eram inconstitucionais. Inclusive as dele próprio. "Vi
que ela tinha razão", diz Orlando.
Suas contas
sempre foram aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado, sem uma única
retificação. Dos sete conselheiros do tribunal, quatro têm
relação direta com os Sarney: dois são aliados políticos,
o terceiro é primo de um aliado e o quarto é primo do próprio
Sarney. No Tribunal de Justiça, o domínio se repete. Recentemente,
uma cunhada de Sarney, Nelma Sarney, foi eleita desembargadora, mesmo
não sendo sua vez de chegar ao posto. Uma das explicações
para tanto poder está no formidável império de comunicação
dos Sarney. Num fenômeno típico do Norte e Nordeste, em que
as oligarquias políticas detêm o controle dos meios de comunicação,
os Sarney são donos de quatro emissoras de televisão, que
transmitem a programação da Rede Globo para todo o Estado,
controlam o jornal diário de maior circulação, O
Estado do Maranhão, e possuem ainda catorze emissoras de rádio,
na capital e no interior. Não passa um dia sem que um desses veículos
saia com alguma reportagem positiva sobre o governo do Estado.
O
império funciona sob o comando do irmão Fernando Sarney
e sua mulher, Teresa Murad, que é irmã do marido de Roseana.
E as relações entre as empresas privadas do clã e
o governo do Estado se cruzam a todo momento. O governo, o maior anunciante
do Estado, destina 64% da verba publicitária televisiva às
empresas da família. "É o caso de quem paga e recebe ao
mesmo tempo. Ou seja: ela está dos dois lados do balcão",
diz o deputado federal Roberto Rocha, do PSDB, um raro militante da oposição
local. "Apenas obedecemos ao critério de audiência", explica
Antônio Carlos Lima, secretário de Comunicação.
Com tentáculos por todo o Estado, existem outras confusões.
Nos Carnavais fora de época, a emissora de Sarney, a TV Mirante,
usa um helicóptero da Polícia Militar para filmar a festa.
Há algum tempo, o governo do Estado patrocinou a recuperação
e restauração da Igreja da Sé, no centro de São
Luís. Um dos primeiros eventos de porte que aconteceram na igreja
foi o casamento da filha de Roseana, Rafaela, hoje mãe de dois
filhos, um de 3 anos, outro de 5 meses.
Com tanta
publicidade, Roseana virou a governadora mais bem avaliada do país,
com 88% de aprovação, segundo a última pesquisa disponível.
É muita propaganda, mas sua gestão tem méritos. De
1994 para cá, todos os índices sociais do Maranhão
melhoraram. Há alguns, como a queda da taxa de analfabetismo e
o aumento do número de crianças matriculadas na escola,
que melhoraram mais rapidamente do que no resto do Nordeste e do Brasil.
Isso decorre de dois fatores: a administração dedicada de
Roseana e a dramática paisagem social do Maranhão, em que
qualquer melhoria tende a ter impacto mais profundo. Se fosse um país,
o Maranhão teria IDH, o índice que mede o desenvolvimento
humano, semelhante ao do Congo. Separado do Brasil, o Maranhão
seria o país mais miserável da América Latina, à
frente apenas do Haiti. Os números do IBGE mostram que metade da
população maranhense vive abaixo da linha de pobreza. É
um Estado agrário, rural. Apenas 14% do eleitorado mora em São
Luís. Curiosamente, a capital é o calcanhar-de-aquiles da
oligarquia Sarney. Lá, a família não ganha. "O interior
é um terreno fértil para práticas clientelistas",
diz o professor Wagner Cabral, da Universidade Federal do Maranhão,
autor de uma tese sobre a trajetória dos Sarney.
"A economia
é muito pouco capitalista, na zona rural o pessoal vive muito na
base da subsistência, do escambo", explica o sociólogo Ricardo
Paes de Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea),
que se debruçou sobre a realidade socioeconômica do Estado.
"Mas a equipe de Roseana é muito esforçada." Ela saneou
as finanças do Estado, cortou a folha salarial do funcionalismo
e não dá aumento real de salário aos 94.000
servidores públicos para manter o equilíbrio fiscal. Extinguiu
empresas públicas, gerando uma economia de 170 milhões de
reais, e privatizou algumas estatais. Seu desempenho menos luminoso foi
na administração do Banco do Estado do Maranhão (BEM).
Quando Roseana assumiu, o BEM era lucrativo, com 40 milhões em
caixa. Em 1999, apresentava um rombo de 211 milhões, coberto com
dinheiro do contribuinte despachado pelo governo federal. Ela tentou privatizar
o banco, não conseguiu, e o BEM acabou federalizado. Sob administração
do Banco Central, descobriu-se que a gestão no banco escondia um
escândalo, mantido em segredo até hoje.
Ana Araujo

A mansão
colonial da família Sarney, na Praia do Calhau, cercada por coqueiros
de babaçu: o clã é dono de um império de comunicação e tem patrimônio
de 125 milhões de reais |
Trata-se
de um relatório do próprio BEM, de 48 páginas, redigido
em dezembro do ano passado com base em auditoria do Banco Central. Os
fiscais descobriram que o último balanço produzido pela
administração estadual, em junho do ano passado, era uma
obra de ficção. Apresentava um lucro de 2,2 milhões
de reais, mas, segundo o BC, a instituição na verdade teve
um prejuízo milionário de "pelo menos", afirma o
relatório, 31,6 milhões de reais. O dono da mágica
foi o então presidente do BEM, Afonso Pantoja, velho amigo da governadora.
Por sua contabilidade, o banco tivera lucro e pôde até distribuir
dividendos aos diretores. Pantoja embolsou cerca de 30.000
reais. Em vez de punido, ele foi premiado. Viu-se indicado por Roseana
para integrar a direção do BEM federalizado. Pantoja ganhou
outro prêmio. O marido da governadora, Jorge Murad, indicou-o para
cuidar da tesouraria do Sebrae do Maranhão. Num governo exercido
por uma mulher, Jorge Murad é considerado o homem forte da administração
estadual. É chamado, em tom jocoso, de "o primeiro-damo do Maranhão".
É um dos gerentes de Roseana. Acumula as antigas secretarias da
Fazenda, Indústria e Comércio, Ciência e Tecnologia,
Turismo e Agricultura. Tem 40% do orçamento do Estado nas mãos
e ainda detém o poder de liberar ou reter os outros 60%.
Oligarquia
mais duradoura e de mais sucesso na política brasileira, mais até
que a de Antonio Carlos Magalhães na Bahia, a família Sarney
domina a política maranhense há 35 anos. E trabalha em sintonia.
A oposição costuma dizer que Roseana faz sucesso porque
recebeu muita verba federal. É uma acusação falsa.
Neste ano, o Maranhão só recebeu 6,4% dos recursos previstos
no Orçamento da União enquanto o Nordeste todo, em
média, recebeu 14,7% das verbas previstas. A salvação
da pátria é o ministro Zequinha Sarney, do Meio Ambiente,
que só pensa na urbanização da Lagoa da Jansen, em
São Luís, e despacha o grosso dos recursos de seu ministério
para a irmã. No que diz respeito a dinheiro, o clã dos Sarney
sabe trabalhar. Tudo começou quando o pai de Sarney vendeu uma
máquina de escrever para que o filho, nascido em Pinheiro, fosse
estudar na capital. José Sarney está há 47 anos na
política e fez um belíssimo pé-de-meia. Além
do império de comunicação, tem uma mansão
colonial cercada por uma floresta de coqueiros de babaçu, conhecida
como Casa do Calhau, e é dono da Ilha do Curupu, uma estupenda
reserva ambiental onde só se chega de barco ou avião. Numa
estimativa conservadora, a família Sarney teria hoje um patrimônio
de 125 milhões de reais. O suficiente para sustentar incontáveis
gerações de Sarneys. Dentro ou fora da política.
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