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Edição 1 726 - 14 de novembro de 2001
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A governadora não tem muito tempo livre. Nos fins de semana, cozinha um pouco. Nas horas vagas, gosta de ocupar-se com uma boa biografia ou um filme leve. Não vê novela – e, se visse, provavelmente choraria em qualquer cena emocionante. É uma mulher de lágrima fácil. Diz que não é ciumenta e que, depois de cinco anos separada de Jorge Murad, entre 1987 e 1992, sua maior felicidade foi reencontrar o marido – com quem voltou a se casar oficialmente há apenas quatro anos. Sua fragilidade é a saúde. Depois da cirurgia na Suíça, em 1973, fez outras onze: retirada de novo cisto no ovário, quatro cirurgias para extrair pólipos no intestino, retirada de nódulo do pulmão esquerdo, extração de útero e ovário, extração de tumor benigno no seio direito, retirada de parte do intestino, cirurgia no joelho esquerdo e outra retirada de tumor benigno no seio.

 
Fotos Ana Araújo
A obra em torno da Lagoa da Jansen e, abaixo e uma favela perto de São Luís: ajuda do irmão ministro, que presenteia a irmã com o grosso das verbas do Meio Ambiente, destinando-as para um Estado com dramáticos índices sociais e econômicos

Com o pai tem uma relação de carinho e admiração, mas as faíscas entre os dois são freqüentes. Quando assumiu o governo do Maranhão, ela implantou uma reforma administrativa radical. Extinguiu todas as secretarias estaduais e substituiu-as por oito gerências na capital e outras dezoito espalhadas pelo Estado. Sarney ficou apavorado, achava que a filha inauguraria uma baderna administrativa, mas não conseguiu demovê-la. Ela tem voz suave, gestos leves e aparência frágil, mas sabe dar murro na mesa. Governa com uma rede de apoio que beira a unanimidade. Dos 217 prefeitos maranhenses, tem o apoio de 210. Dos 42 deputados estaduais, sua base tem 37. Ela não permite emendas a sua proposta de orçamento. Em sete anos, só duas foram aprovadas, e só porque corrigiam erros grosseiros. Num deles, previa-se o desembolso de 25 milhões de reais para uma estatal, a Maranhão Investimentos, que nem existia mais. Em 1998, ano eleitoral, os deputados se rebelaram e apresentaram 800 emendas. Roseana fez o relator do orçamento, José Orlando, dar 800 pareceres contra, alegando que elas eram inconstitucionais. Inclusive as dele próprio. "Vi que ela tinha razão", diz Orlando.

Suas contas sempre foram aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado, sem uma única retificação. Dos sete conselheiros do tribunal, quatro têm relação direta com os Sarney: dois são aliados políticos, o terceiro é primo de um aliado e o quarto é primo do próprio Sarney. No Tribunal de Justiça, o domínio se repete. Recentemente, uma cunhada de Sarney, Nelma Sarney, foi eleita desembargadora, mesmo não sendo sua vez de chegar ao posto. Uma das explicações para tanto poder está no formidável império de comunicação dos Sarney. Num fenômeno típico do Norte e Nordeste, em que as oligarquias políticas detêm o controle dos meios de comunicação, os Sarney são donos de quatro emissoras de televisão, que transmitem a programação da Rede Globo para todo o Estado, controlam o jornal diário de maior circulação, O Estado do Maranhão, e possuem ainda catorze emissoras de rádio, na capital e no interior. Não passa um dia sem que um desses veículos saia com alguma reportagem positiva sobre o governo do Estado.


O império funciona sob o comando do irmão Fernando Sarney e sua mulher, Teresa Murad, que é irmã do marido de Roseana. E as relações entre as empresas privadas do clã e o governo do Estado se cruzam a todo momento. O governo, o maior anunciante do Estado, destina 64% da verba publicitária televisiva às empresas da família. "É o caso de quem paga e recebe ao mesmo tempo. Ou seja: ela está dos dois lados do balcão", diz o deputado federal Roberto Rocha, do PSDB, um raro militante da oposição local. "Apenas obedecemos ao critério de audiência", explica Antônio Carlos Lima, secretário de Comunicação. Com tentáculos por todo o Estado, existem outras confusões. Nos Carnavais fora de época, a emissora de Sarney, a TV Mirante, usa um helicóptero da Polícia Militar para filmar a festa. Há algum tempo, o governo do Estado patrocinou a recuperação e restauração da Igreja da Sé, no centro de São Luís. Um dos primeiros eventos de porte que aconteceram na igreja foi o casamento da filha de Roseana, Rafaela, hoje mãe de dois filhos, um de 3 anos, outro de 5 meses.

Com tanta publicidade, Roseana virou a governadora mais bem avaliada do país, com 88% de aprovação, segundo a última pesquisa disponível. É muita propaganda, mas sua gestão tem méritos. De 1994 para cá, todos os índices sociais do Maranhão melhoraram. Há alguns, como a queda da taxa de analfabetismo e o aumento do número de crianças matriculadas na escola, que melhoraram mais rapidamente do que no resto do Nordeste e do Brasil. Isso decorre de dois fatores: a administração dedicada de Roseana e a dramática paisagem social do Maranhão, em que qualquer melhoria tende a ter impacto mais profundo. Se fosse um país, o Maranhão teria IDH, o índice que mede o desenvolvimento humano, semelhante ao do Congo. Separado do Brasil, o Maranhão seria o país mais miserável da América Latina, à frente apenas do Haiti. Os números do IBGE mostram que metade da população maranhense vive abaixo da linha de pobreza. É um Estado agrário, rural. Apenas 14% do eleitorado mora em São Luís. Curiosamente, a capital é o calcanhar-de-aquiles da oligarquia Sarney. Lá, a família não ganha. "O interior é um terreno fértil para práticas clientelistas", diz o professor Wagner Cabral, da Universidade Federal do Maranhão, autor de uma tese sobre a trajetória dos Sarney.

"A economia é muito pouco capitalista, na zona rural o pessoal vive muito na base da subsistência, do escambo", explica o sociólogo Ricardo Paes de Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que se debruçou sobre a realidade socioeconômica do Estado. "Mas a equipe de Roseana é muito esforçada." Ela saneou as finanças do Estado, cortou a folha salarial do funcionalismo e não dá aumento real de salário aos 94.000 servidores públicos para manter o equilíbrio fiscal. Extinguiu empresas públicas, gerando uma economia de 170 milhões de reais, e privatizou algumas estatais. Seu desempenho menos luminoso foi na administração do Banco do Estado do Maranhão (BEM). Quando Roseana assumiu, o BEM era lucrativo, com 40 milhões em caixa. Em 1999, apresentava um rombo de 211 milhões, coberto com dinheiro do contribuinte despachado pelo governo federal. Ela tentou privatizar o banco, não conseguiu, e o BEM acabou federalizado. Sob administração do Banco Central, descobriu-se que a gestão no banco escondia um escândalo, mantido em segredo até hoje.

 
Ana Araujo

A mansão colonial da família Sarney, na Praia do Calhau, cercada por coqueiros de babaçu: o clã é dono de um império de comunicação e tem patrimônio de 125 milhões de reais

Trata-se de um relatório do próprio BEM, de 48 páginas, redigido em dezembro do ano passado com base em auditoria do Banco Central. Os fiscais descobriram que o último balanço produzido pela administração estadual, em junho do ano passado, era uma obra de ficção. Apresentava um lucro de 2,2 milhões de reais, mas, segundo o BC, a instituição na verdade teve um prejuízo milionário – de "pelo menos", afirma o relatório, 31,6 milhões de reais. O dono da mágica foi o então presidente do BEM, Afonso Pantoja, velho amigo da governadora. Por sua contabilidade, o banco tivera lucro e pôde até distribuir dividendos aos diretores. Pantoja embolsou cerca de 30.000 reais. Em vez de punido, ele foi premiado. Viu-se indicado por Roseana para integrar a direção do BEM federalizado. Pantoja ganhou outro prêmio. O marido da governadora, Jorge Murad, indicou-o para cuidar da tesouraria do Sebrae do Maranhão. Num governo exercido por uma mulher, Jorge Murad é considerado o homem forte da administração estadual. É chamado, em tom jocoso, de "o primeiro-damo do Maranhão". É um dos gerentes de Roseana. Acumula as antigas secretarias da Fazenda, Indústria e Comércio, Ciência e Tecnologia, Turismo e Agricultura. Tem 40% do orçamento do Estado nas mãos – e ainda detém o poder de liberar ou reter os outros 60%.

Oligarquia mais duradoura e de mais sucesso na política brasileira, mais até que a de Antonio Carlos Magalhães na Bahia, a família Sarney domina a política maranhense há 35 anos. E trabalha em sintonia. A oposição costuma dizer que Roseana faz sucesso porque recebeu muita verba federal. É uma acusação falsa. Neste ano, o Maranhão só recebeu 6,4% dos recursos previstos no Orçamento da União – enquanto o Nordeste todo, em média, recebeu 14,7% das verbas previstas. A salvação da pátria é o ministro Zequinha Sarney, do Meio Ambiente, que só pensa na urbanização da Lagoa da Jansen, em São Luís, e despacha o grosso dos recursos de seu ministério para a irmã. No que diz respeito a dinheiro, o clã dos Sarney sabe trabalhar. Tudo começou quando o pai de Sarney vendeu uma máquina de escrever para que o filho, nascido em Pinheiro, fosse estudar na capital. José Sarney está há 47 anos na política e fez um belíssimo pé-de-meia. Além do império de comunicação, tem uma mansão colonial cercada por uma floresta de coqueiros de babaçu, conhecida como Casa do Calhau, e é dono da Ilha do Curupu, uma estupenda reserva ambiental onde só se chega de barco ou avião. Numa estimativa conservadora, a família Sarney teria hoje um patrimônio de 125 milhões de reais. O suficiente para sustentar incontáveis gerações de Sarneys. Dentro ou fora da política.

 


 
 




   
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