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Edição 1 726 - 14 de novembro de 2001
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Roseana dispara e se consolida em segundo lugar
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A dama da sucessão

Filha de ex-presidente, com
saúde frágil e um governo
bem avaliado, Roseana Sarney
vira a estrela da corrida para
o
Planalto ao assumir o segundo
lugar nas pesquisas eleitorais

Alexandre Oltramari, Mauricio Lima e Malu Gaspar

 
Sérgio de Divitiis


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A nova campeã de audiência

Ela tinha tudo para não emplacar no time das estrelas nacionais. É filha de uma oligarquia que há mais de três décadas manda num dos Estados mais atrasados e pobres do Brasil. Seu pai deixou o Palácio do Planalto com uma inflação escandalosa e índices de popularidade de dar dó. Tem saúde frágil. Já passou doze vezes pela mesa de cirurgia. Sua carreira política começou há apenas onze anos, quando, já beirando os 40, enfrentou sua primeira eleição pelo PFL, um dos partidos menos populares do país. Mas Roseana Sarney Murad, 48 anos, casada, uma filha adotiva e dois netos, é o fenômeno da temporada. Na semana passada, pela primeira vez, uma pesquisa colocou-a isolada em segundo lugar na corrida para a sucessão presidencial de 2002. Pulou de 14,4% para 19,1%. Está mais de 10 pontos atrás do líder Luís Inácio Lula da Silva, do PT, mas desgarrou-se do segundo pelotão: ficou 7 pontos à frente do terceiro colocado. Com isso, Roseana Sarney entrou de fato para a turma dos presidenciáveis.


Sua ascensão é resultado direto de um trabalho de laboratório. Nos últimos três meses, Roseana tem sido a única estrela na propaganda do PFL. Foram setenta inserções em cadeia nacional e 250 em redes regionais, de trinta segundos cada uma. Nos comerciais, ela não faz discurso, não critica ninguém, não apresenta propostas nem faz promessas. Ela apenas aparece. Por isso, nos meios políticos, e mesmo dentro do PFL, sobram dúvidas sobre a consistência do crescimento de Roseana. O telespectador gosta do que vê, segundo demonstram as pesquisas, mas o que ele vê não é propriamente um candidato no modelo tradicional. O que aparece na televisão é uma mulher dinâmica, bonita, simpática, sorridente. Resta esperar agora pelo teste da campanha aberta, aquele momento em que surgem os confrontos de idéias e os ataques dos adversários. Roseana já surpreendeu uma vez, com sua ascensão nas pesquisas. Deixou os colegas tucanos a anos-luz de distância. Pode surpreender de novo lá na frente, mas isso só o tempo dirá. Em 1989, o paulista Guilherme Afif Domingos teve seu momento de ascensão nas pesquisas como candidato a presidente. Acabou em sexto lugar na eleição.

A candidatura de Roseana não é um fenômeno localizado. Analisando-se os dados da pesquisa divulgada na semana passada, constata-se que ela tem bom desempenho em quase todos os segmentos do eleitorado. Ao contrário do que se tem dito, não vai bem apenas em sua região, o Nordeste. Sua candidatura está em segundo lugar em todas as áreas geográficas do país, à exceção do Norte, onde já é líder nas pesquisas, acima de Lula. Ela também está em segundo lugar na preferência dos homens e das mulheres, dos moradores das zonas urbana e rural, das capitais e das cidades pequenas, dos eleitores de todas as faixas etárias e de todos os níveis de escolaridade – à exceção dos que têm curso superior, que preferem, pela ordem, Luís Inácio Lula da Silva, depois Ciro Gomes, o candidato do PPS, e só então Roseana. Diante desses dados, pode-se afirmar que sua candidatura se espraiou pelo eleitorado.

 
Fotos álbum de família
Os Sarney, numa rara imagem em que aparece toda a família, e Roseana, aos 3 anos: no início, a carreira política era coisa para os irmãos, mas a menina venceu a resistência familiar

"Estou muito feliz", diz Roseana, saboreando a novidade. Única filha do ex-presidente José Sarney e dona Marly, ela começou tarde seu namoro com as urnas. "Acho que papai não queria que eu fosse política." A família preferia que a vida pública fosse seguida pelos filhos, Fernando, que se transformou no administrador do formidável patrimônio do clã, e José Sarney Filho, o Zequinha, que entrou para o ramo e hoje é ministro do Meio Ambiente. Mas a política, por força da atividade do pai, sempre foi o prato da casa. Roseana nasceu em São Luís, morou no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brasília, andou pela Suíça. Casou-se aos 25, elegeu-se deputada federal em 1990 e, quatro anos mais tarde, numa disputa acirrada, tornou-se a primeira mulher eleita para um governo estadual. Em 1998, reelegeu-se com folga.

Na infância em Brasília, Roseana sempre estudou em colégio de freiras, nunca foi reprovada, mas não era uma aluna muito aplicada. Tinha gosto por disciplinas como história, geografia e português, e arrepios de horror nas aulas de física. Aos 12 anos, ao voltar ao Maranhão, quando Sarney se elegeu governador, teve uma experiência nova. Passou a conviver na escola com colegas mais pobres. "Em Brasília, morava em prédio de parlamentares e convivia com filhos de parlamentares. Em São Luís comecei a perceber que existiam diferenças", relembra. Na escola, jogava vôlei e tocava guitarra na banda do colégio. Apresentava pequenos shows com músicas da jovem guarda. "Sempre adorei Roberto Carlos, gosto até hoje." Ela mantém as duas paixões. Vive sintonizada nos canais esportivos da televisão e torce para o Flamengo. Também não perde uma oportunidade de pegar um violão e cantar ao microfone, embora esse hábito esteja cada vez mais restrito às festas de família. Seu repertório é formado por músicas de seresta, da jovem guarda, de Roberto Carlos e de cantores maranhenses. Outra paixão, desenvolvida mais tarde, mas sobre a qual Roseana não gosta de falar, é o carteado. Prefere jogar pontinho e já andou apostando nos panos verdes em Las Vegas.

A filha do ex-presidente pensou em fazer medicina, mas acabou cursando ciências sociais na Universidade de Brasília (UnB). Era uma época em que não se preocupava em pentear o cabelo, usava bata hippie, lia Max Weber, cantava músicas de protesto e tinha alguma militância política. Antes de concluir o curso, resolveu largar tudo e ir para o Rio de Janeiro, onde conviveu com seu futuro marido, Jorge Murad, que, na época, usava cabelos compridos e tocava num grupo que se apresentava no Teatro Opinião. Foi quando, pela primeira vez, sentiu incômodo de ser filha de Sarney, político então filiado à Arena, partido que dava sustentação política à ditadura militar. "O clima influenciava muito, a gente tinha de ser do contra." Nesse período, ela torcia pelo sucesso da Revolução de Cuba e tinha simpatia pelo socialismo soviético.

 
Marina Malheiros
  Ana Araújo
Jorge Murad, o marido de Roseana e homem forte no governo, e o prédio em São Luís que serve de sede para suas empresas: ele comanda 40% do orçamento do Estado e decide se libera ou não os outros 60% das verbas

Na dúvida sobre que rumo tomar na vida, Roseana decidiu, aos 20 anos, deixar o Rio e encontrar seus dois irmãos – Fernando e Zequinha, que moravam na Suíça. "Aluguei um quarto num pensionato em Genebra e fui estudar francês e inglês." Não concluiu os cursos porque teve de ser submetida a uma cirurgia para extrair um cisto no ovário. Ela suspeita que essa cirurgia a deixou estéril. Sua mãe, dona Marly, só ficou sabendo da internação uma semana depois, por meio de um telegrama da embaixada brasileira. Tomou um avião e trouxe a filha de volta ao Brasil. Em Brasília, Roseana concluiu o curso de ciências sociais e fascinou-se pelo Congresso Nacional, onde fazia pesquisas acadêmicas. Gostou do clima, das conversas, das articulações. Nessa época, começou a pensar seriamente em seguir a carreira política. Esteve muito próxima ao pai, no período em que José Sarney exerceu a Presidência, de 1985 a 1990, e foi do Palácio do Planalto que saltou para seu vôo-solo na vida pública.

 

 

 
 

 

   
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