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Edição 1 726 - 14 de novembro de 2001
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Torço pelo Brasil

"A nossa TV melhorou muito.
Fico grudado no programa que
mostra a portaria do prédio em
que estou hospedado"

Costumo falar mal do Brasil. Não sou o único. Todo mundo fala mal. A diferença é que levei a coisa adiante e fui morar no exterior. Pior: fui morar em Veneza, um vilarejo inabitável, lamacento e fedido, sem nada o que fazer. Se eu tivesse escolhido Nova York, Londres ou Paris, a traição seria aceitável. O fato de ter escolhido Veneza é visto como uma provocação. Não é. Eu gosto do Brasil. Torço pelo Brasil. Comemoro toda vez que volto para cá e noto algum progresso significativo.

A TV, por exemplo, melhorou muito. Eu achava que era a pior do mundo. Agora não acho mais. Fico grudado o dia todo em programas que não existiam em meu tempo, como o do canal 6. É uma espécie de "reality show", no modelo do Big Brother. Mostra a portaria do prédio em que estou hospedado. Todas as pessoas que entram ou saem são enquadradas. Como o prédio tem poucos moradores, não há grande movimento. A câmara fixa, com uma lente grande-angular, transmite 24 horas por dia imagens da portaria deserta, com suas grades. De vez em quando, acontece uma surpresa, como quando um motoqueiro do restaurante chinês vem entregar uma marmita de frango xadrez para o vizinho do apartamento 51. Não sei se você, ao sintonizar o canal 6, também vê a portaria do prédio em que estou hospedado. Se não vê, reclame com seu fornecedor de TV por assinatura.

Outro programa que recomendo com fervor passa na Rede Vida. Trata-se de uma missa rezada por um padre com bigode à la Hitler. Ainda não consegui descobrir seu nome. Mas não perco uma única exibição. Assim como não perco os programas eleitorais gratuitos. Roseana Sarney parece atriz de telenovela. O que confirma a minha velha teoria. Acho que a ruindade de nossos políticos depende diretamente da ruindade de nossos atores. Se tivéssemos atores menos ruins, a população aprenderia a reconhecer com facilidade a canastrice de nossos políticos. A solução para os problemas do Brasil é mandar todos os atores de telenovela para estágios na Royal Shakespeare Company.

A imprensa também se desenvolveu de maneira impressionante nos últimos anos. Refiro-me especificamente a uma revista chamada Plástica & Beleza. Fala dos avanços no campo da cirurgia plástica. Abandonei um livro (Paraíso Perdido, de John Milton) para me dedicar à sua leitura. No último número, Renata Banhara exibe orgulhosamente suas próteses de silicone de 260 mililitros. Uma das consultoras da revista é uma certa doutora Loriti Breuel. Sempre sorridente, mais operada que suas pacientes, ela aparece em fotografias espalhadas na seção de cartas, num artigo sobre o tratamento contra estrias, ao lado do cantor sertanejo Luciano, em companhia do doutor Ewaldo Bolivar, e no lançamento de sua grife de moda, a Boutique La Lory. Vou tentar obter informações mais detalhadas a seu respeito. E sobre o padre com bigode à la Hitler. Assim que as obtiver, prometo repassá-las a você, leitor.

O Brasil tornou-se um lugar melhor para viver. Quase me arrependo de ter ido embora. Quase fico com vontade de voltar.

 
 
   
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