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A
nova ordem
Estrategista americano diz que o Brasil
está fora da aliança contra o terror e
que a globalização
pode estar em declínio
Eduardo Salgado
Antonio Milena
 |
"O
Brasil tinha
chance de entrar no G-7 antes de 11 de setembro.
O foco era geoeconômico. Agora não mais.
É
geopolítico"
|
O
cientista político e historiador Edward Nicolae Luttwak é
uma daquelas pessoas com uma curiosidade intelectual fora do comum. Por
isso, especializou-se em mais de uma área do conhecimento. Além
de ser uma das maiores autoridades mundiais em questões de estratégia
militar, é um respeitado crítico do processo de globalização.
Membro do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, o instituto
de pesquisa independente de Washington, foi o estrategista civil incumbido
pelo presidente George Bush de escolher os alvos dos aviões americanos
durante o conflito no Iraque. Nascido em 1942, na Romênia, Luttwak
emigrou para os Estados Unidos na década de 70 e se naturalizou
americano. Hoje divide seu tempo entre a casa onde vive com a família,
em Washington, palestras em várias partes do mundo e a fazenda
de 18.000 hectares que possui na Bolívia, perto da fronteira com
o Brasil. Luttwak falou a VEJA antes de sua palestra a convidados da Fundação
Armando Alvares Penteado e do Instituto Fernand Braudel, em São
Paulo.
Veja O senhor continua sendo um dos capitalistas mais críticos
do capitalismo?
Luttwak
Nos Estados Unidos, 60% dos trabalhadores viram seu salário estagnar
entre 1979 e 2000. Não perderam, mas não ganharam. Em razão
disso, houve a formação de uma hierarquia social rígida
pela primeira vez na história do país. A sociedade americana
ficou parecida com a Inglaterra vitoriana. Os yuppies com salário
alto começaram a empregar gente para cuidar da casa, do jardim,
das crianças. Quando vão aos Estados Unidos, os brasileiros
sempre ficam impressionados com a quantidade de pessoas gordas nas ruas.
São os 60% que se entopem de hambúrguer, não viajam
e tiram férias curtas. Seus filhos raramente chegam às melhores
universidades, mesmo quando são inteligentes. O fluxo de talento
na sociedade americana é quase nulo.
Veja Por que a desigualdade social não impediu que
os Estados Unidos tivessem nos anos 90 um período de forte expansão
econômica?
Luttwak
A elite americana é composta de arquitetos da globalização
e dos acrobatas que operam nos mercados. Esses foram muito bem-sucedidos.
Mas a expansão também dependeu da importação
de mão-de-obra. Engenheiros indianos, chineses e de várias
outras nacionalidades foram cruciais para o boom da nova economia. Os
atentados de 11 de setembro talvez tenham sido o ápice da globalização.
Todos os fenômenos têm um clímax, depois do qual começam
a declinar. De agora em diante, teremos restrições maiores
ao movimento de pessoas. Talvez tenha sido o fim dessa tendência
de estratificação da sociedade americana. Os banqueiros
estão em baixa e os bombeiros em alta. Isso não é
temporário. A preocupação com a segurança
vai aumentar o salário e a importância de policiais, soldados
e bombeiros.
Veja Por que os Estados Unidos estão demorando tanto
para vencer o Talibã?
Luttwak
Os Estados Unidos eram muito fracos em determinadas áreas quando
essa guerra começou. A CIA tem problemas estruturais. Pessoas com
diploma de universidades como Yale, Stanford, Princeton e o Instituto
de Tecnologia de Massachusetts (MIT) pararam de ir para a CIA. Os Estados
Unidos poderiam ter acabado com essa guerra rapidamente recrutando chefes
patanes para lutar contra o Talibã. Não fizeram isso porque
não têm agentes talentosos. Ações militares
não são instantâneas. Leva-se certo tempo para armar
a Aliança do Norte, mandar tropas especiais ao local, coordenar
a comunicação entre soldados e pilotos, aprender algumas
palavras dos dialetos e idiomas locais. Essa guerra vai durar de seis
meses a um ano.
Veja O governo do Paquistão, que tenta conter protestos
internos contra a ação americana, conseguirá manter
a situação sob controle por tanto tempo?
Luttwak
É verdade que o governo está sob pressão, mas a cobertura
da imprensa exagera muito. No Paquistão, os jornalistas estrangeiros
estão concentrados nas regiões onde vivem os patanes. Cerca
de 50% dos paquistaneses são da etnia punjabi, que odeia os patanes
do Paquistão e do Afeganistão. Há menos oposição
ao governo do que parece. Ainda assim, é possível que o
Paquistão esteja um caos quando a guerra acabar. De qualquer forma,
os americanos não têm escolha. Não se trata de Somália
nem mesmo de Vietnã. Essa é a guerra que os Estados Unidos
têm a obrigação de ganhar. Vladimir Putin, o presidente
russo, diz que várias regiões islâmicas ficarão
instáveis se, ao final do conflito, um único soldado do
Talibã ficar de pé. O Afeganistão pós-Talibã
certamente não será uma democracia suíça,
mas terá um governo menos fanático.
Veja Os americanos cometeram algum erro em termos de estratégia?
Luttwak
Os erros são em decorrência de limitações do
sistema militar. Nada a ver com decisões. Os militares americanos
são rígidos e levam tempo para se adaptar. Os ingleses e
os israelenses têm estruturas flexíveis. Criam tropas especiais
para vários tipos de ação, usam novas táticas,
fazem qualquer coisa. O repertório à disposição
dos militares americanos não é muito grande. Está
mais para um McDonald's que para um restaurante francês. Dito isso,
é verdade que o Talibã está perdendo essa guerra.
Os fanáticos conquistaram o país com dinheiro, subornando
chefes locais. Parecem ferozes nas fotos, mas não são guerreiros
de verdade.
Veja O senhor acha que será fácil encontrar
Osama bin Laden?
Luttwak
Em
condições normais, seria impossível. Na II Guerra
Mundial, Benito Mussolini foi pego por acaso e Adolf Hitler cometeu suicídio.
As probabilidades de pegar Laden são pequenas, mas há um
detalhe que pode mudar isso. Ele tem quase 2 metros de altura. Não
pode fazer-se passar por uma mulher. O governo americano oferece 5 milhões
de dólares de recompensa. Acredito no espírito empreendedor
dos afegãos.
Veja Como evitar que um número maior de jovens se
torne terrorista?
Luttwak
Há um paradoxo. A Arábia Saudita é a maior aliada
dos Estados Unidos e seu pior inimigo. A família real saudita é
wahabita, seita diferente do islamismo tradicional porque rejeita a coexistência
entre muçulmanos, cristãos e judeus. Os sauditas financiam
milhares de escolas wahabitas em todo o mundo, inclusive no Brasil. São
centros de treinamento de extremistas. Os Estados Unidos deveriam colocar
uma pressão irresistível em cima dos sauditas para que parem
de financiar o islamismo extremista.
Veja Existe alguma chance de o Brasil fazer parte do grupo
de países mais influentes do mundo?
Luttwak
Antes de 11 de setembro, havia um movimento para que o G-7, o grupo de
países ricos, fosse ampliado. Falava-se da entrada da Índia,
da China, do Brasil e talvez da África do Sul. O foco era geoeconômico.
Agora mudou. É geopolítico. A nova aliança contra
o terrorismo é formada por Estados Unidos, Rússia, Índia,
China, União Européia e Japão. O interesse pelo Brasil
diminuiu. Em termos econômicos, o interesse deve continuar. Os investimentos
estrangeiros vão cair por causa da desaceleração
do crescimento mundial, mas o país deve manter sua posição
no ranking das economias mais atraentes entre as nações
em desenvolvimento.
Veja O líder palestino Yasser Arafat e o primeiro-ministro
israelense, Ariel Sharon, querem a paz?
Luttwak Cada
vez que a violência cresce demais, Arafat fala de paz. Cada vez
que a oportunidade de selar a paz surge, ele recomeça a violência.
Ele é como aquele sujeito que diz para todo mundo que quer comprar
um apartamento. Leva a mulher para ver, depois o advogado, o encanador,
o eletricista, a sogra, mas nunca assina o contrato. Sharon também
não quer chegar a um acordo. Como é parte de uma coalizão,
poderá ser obrigado a assinar a paz. Dito isso, acho que não
chegaremos a essa situação.
Veja O senhor é a favor do movimento antiglobalização?
Luttwak
As pessoas que deveriam estar protestando são as de direita, porque
a globalização é um fenômeno antinacionalista.
Os manifestantes não sabem nada de economia. Acham que a globalização
está ferindo os países mais pobres do mundo, o que é
uma mentira. A globalização é ruim para os pobres
dos países ricos. As estatísticas sobre renda provam, sem
sombra de dúvida, que os 70% mais pobres dos países ricos
estão perdendo dinheiro. Isso acontece porque os empregos estão
migrando de lugares caros como os Estados Unidos para o México.
A globalização é um grande negócio para seus
arquitetos, que vivem em países desenvolvidos. Mas a classe trabalhadora
dos países pobres também está ganhando.
Veja O senhor é a favor da globalização?
Luttwak
Se fosse japonês ou dinamarquês, teria cuidado em defender
idéias como privatização e desregulamentação.
Seria completamente a favor de políticas industriais. Caso fosse
brasileiro, defenderia, de forma fanática, a privatização,
o livre comércio e a globalização. A elite brasileira
é altamente privilegiada se comparada com a de outros países.
A diferença entre os salários de executivos e os dos trabalhadores
no Brasil é maior do que a que se observa no Japão, na Europa
e nos Estados Unidos. Isso explica por que a elite é contra projetos
como o da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
A elite resiste a idéias como essa também por puro formalismo.
O exemplo clássico: o Brasil exige visto de turistas americanos
só porque os Estados Unidos fazem o mesmo com os brasileiros. Os
diplomatas brasileiros acham o princípio de reciprocidade o máximo.
Quem paga para que a elite se sinta orgulhosa são os garçons
sem trabalho do Rio e suas famílias.
Veja O senhor é contra a adoção de uma
política industrial no Brasil?
Luttwak
Sou a favor de políticas industriais. Mas há um detalhe.
Só funcionam em países nos quais é possível
administrar programas públicos sem corrupção. Onde
não haja perigo de a política industrial se transformar
em mais um instrumento de transferência de renda dos pobres para
os ricos. Temo que não seja o caso do Brasil. O país precisa
de política industrial, mas não pode tê-la.
Veja Do jeito que o senhor fala, parece que há um
impedimento genético.
Luttwak
Genético, não. Mas, ao observar o histórico brasileiro,
nota-se que os ricos foram os que mais ganharam com as políticas
industriais do passado. A substituição de importações
foi ótima para os industriais brasileiros. Não para o povo,
que pagava caro por um produto ruim. Aposto que a Embraer custou mais
ao país do que proporcionou lucro.
Veja Mesmo que essa hipótese esteja certa, empresas
como a Embraer podem ser lucrativas para o país no longo prazo.
Por que o Brasil não pode investir em áreas estratégicas?
Luttwak
Quem paga pelos subsídios são as famílias famintas
do Nordeste. Elas também pagam pela grande classe política
brasileira. As histórias de sucesso no Brasil, que são muitas,
não foram resultado de políticas públicas.
Veja Os Estados Unidos vão salvar a Argentina da crise?
Luttwak
Antes
de 11 de setembro, havia muita pressão para que os americanos lançassem
uma bóia para a Argentina. Seria uma forma de amenizar o impacto
da crise no restante da América Latina. Hoje, o caso argentino
ainda é importante, mas está mais abaixo na lista de prioridades.
Veja Como se pode resolver o problema da Argentina?
Luttwak
O caso argentino é simples. O país decidiu que 1 peso valeria
1 dólar, mas não reduziu os custos. Para fazer uma transferência
de 1.000 dólares de Buenos Aires para Nova York, pagam-se 130 dólares
de imposto. De Nova York para Buenos Aires, a taxa é de 27 dólares.
Por quê? Na Argentina, há impuesto para tudo. Do aeroporto
de Ezeiza ao centro de Buenos Aires, paga-se uma fortuna de pedágio.
Nos Estados Unidos, 1 dólar é muito dinheiro, e as pessoas
pensam antes de dá-lo como gorjeta. Para os argentinos, 1 dólar
não é nada. Pode-se criticar Ronald Reagan e Margaret Thatcher.
Eram de direita, fizeram guerra etc. Mas ambos reduziram os custos. Thatcher
brigou não só contra os mineiros. Também quebrou
o monopólio dos advogados. Reagan desregulamentou os setores bancários
e das companhias aéreas. Isso baixou o preço das passagens
e aumentou a eficiência dos bancos.
Veja A Argentina pode salvar-se só cortando custos?
Luttwak
É melhor dar um calote na dívida que desvalorizar a moeda.
Depois, precisa acabar com os custos. Não só cortando salários,
mas essas taxas escondidas e os gastos do governo. Na última vez
que examinei a economia argentina, a ópera de Buenos Aires estava
recebendo 100 milhões de dólares em subsídios.
Veja Quais são as perspectivas para a economia mundial?
Luttwak
A economia mundial vem reduzindo a atividade. Os Estados Unidos precisam
acabar com os problemas provocados por investimentos feitos em excesso.
A economia européia ainda está sendo travada por fatores
estruturais e por um extremismo monetarista. O banco central europeu é
o Talibã do monetarismo, luta contra a inflação mesmo
quando não há inflação. O Japão está
passando por um processo de reestruturação, e, por isso,
a economia não cresce. O Brasil vai crescer a uma taxa menor não
só por problemas internos.
Veja O sistema de comércio mundial é justo?
Luttwak
Os países mais pobres exportam minério, e não existem
muitas barreiras nessa área. Já os países remediados
do mundo em desenvolvimento, como o Brasil e a Argentina, querem exportar
cereais e carne, mas não podem por causa das proteções
americanas, européias e japonesas. Sem dúvida, isso é
injusto. Os agricultores nos países ricos representam menos de
5% da população, mas são extremamente poderosos em
termos políticos. As barreiras não fazem parte do planejamento
geopolítico e econômico das grandes potências. É
puro lobby dos agricultores. Não penso que isso mudará no
curto prazo. Nos Estados Unidos, o Partido Republicano tem o apoio dos
agricultores e os democratas querem conquistá-lo.
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