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Edição 1 726 - 14 de novembro de 2001
Entrevista: Edward Nicolae Luttwak

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A nova ordem

Estrategista americano diz que o Brasil
está fora da aliança contra o terror e
que a globalização
pode estar em declínio

Eduardo Salgado

 
Antonio Milena

"O Brasil tinha chance de entrar no G-7 antes de 11 de setembro.
O foco era geoeconômico. Agora não mais.
É geopolítico"

O cientista político e historiador Edward Nicolae Luttwak é uma daquelas pessoas com uma curiosidade intelectual fora do comum. Por isso, especializou-se em mais de uma área do conhecimento. Além de ser uma das maiores autoridades mundiais em questões de estratégia militar, é um respeitado crítico do processo de globalização. Membro do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, o instituto de pesquisa independente de Washington, foi o estrategista civil incumbido pelo presidente George Bush de escolher os alvos dos aviões americanos durante o conflito no Iraque. Nascido em 1942, na Romênia, Luttwak emigrou para os Estados Unidos na década de 70 e se naturalizou americano. Hoje divide seu tempo entre a casa onde vive com a família, em Washington, palestras em várias partes do mundo e a fazenda de 18.000 hectares que possui na Bolívia, perto da fronteira com o Brasil. Luttwak falou a VEJA antes de sua palestra a convidados da Fundação Armando Alvares Penteado e do Instituto Fernand Braudel, em São Paulo.

Veja – O senhor continua sendo um dos capitalistas mais críticos do capitalismo?
Luttwak – Nos Estados Unidos, 60% dos trabalhadores viram seu salário estagnar entre 1979 e 2000. Não perderam, mas não ganharam. Em razão disso, houve a formação de uma hierarquia social rígida pela primeira vez na história do país. A sociedade americana ficou parecida com a Inglaterra vitoriana. Os yuppies com salário alto começaram a empregar gente para cuidar da casa, do jardim, das crianças. Quando vão aos Estados Unidos, os brasileiros sempre ficam impressionados com a quantidade de pessoas gordas nas ruas. São os 60% que se entopem de hambúrguer, não viajam e tiram férias curtas. Seus filhos raramente chegam às melhores universidades, mesmo quando são inteligentes. O fluxo de talento na sociedade americana é quase nulo.

Veja – Por que a desigualdade social não impediu que os Estados Unidos tivessem nos anos 90 um período de forte expansão econômica?
Luttwak – A elite americana é composta de arquitetos da globalização e dos acrobatas que operam nos mercados. Esses foram muito bem-sucedidos. Mas a expansão também dependeu da importação de mão-de-obra. Engenheiros indianos, chineses e de várias outras nacionalidades foram cruciais para o boom da nova economia. Os atentados de 11 de setembro talvez tenham sido o ápice da globalização. Todos os fenômenos têm um clímax, depois do qual começam a declinar. De agora em diante, teremos restrições maiores ao movimento de pessoas. Talvez tenha sido o fim dessa tendência de estratificação da sociedade americana. Os banqueiros estão em baixa e os bombeiros em alta. Isso não é temporário. A preocupação com a segurança vai aumentar o salário e a importância de policiais, soldados e bombeiros.

Veja – Por que os Estados Unidos estão demorando tanto para vencer o Talibã?
Luttwak – Os Estados Unidos eram muito fracos em determinadas áreas quando essa guerra começou. A CIA tem problemas estruturais. Pessoas com diploma de universidades como Yale, Stanford, Princeton e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) pararam de ir para a CIA. Os Estados Unidos poderiam ter acabado com essa guerra rapidamente recrutando chefes patanes para lutar contra o Talibã. Não fizeram isso porque não têm agentes talentosos. Ações militares não são instantâneas. Leva-se certo tempo para armar a Aliança do Norte, mandar tropas especiais ao local, coordenar a comunicação entre soldados e pilotos, aprender algumas palavras dos dialetos e idiomas locais. Essa guerra vai durar de seis meses a um ano.

Veja – O governo do Paquistão, que tenta conter protestos internos contra a ação americana, conseguirá manter a situação sob controle por tanto tempo?
Luttwak – É verdade que o governo está sob pressão, mas a cobertura da imprensa exagera muito. No Paquistão, os jornalistas estrangeiros estão concentrados nas regiões onde vivem os patanes. Cerca de 50% dos paquistaneses são da etnia punjabi, que odeia os patanes do Paquistão e do Afeganistão. Há menos oposição ao governo do que parece. Ainda assim, é possível que o Paquistão esteja um caos quando a guerra acabar. De qualquer forma, os americanos não têm escolha. Não se trata de Somália nem mesmo de Vietnã. Essa é a guerra que os Estados Unidos têm a obrigação de ganhar. Vladimir Putin, o presidente russo, diz que várias regiões islâmicas ficarão instáveis se, ao final do conflito, um único soldado do Talibã ficar de pé. O Afeganistão pós-Talibã certamente não será uma democracia suíça, mas terá um governo menos fanático.

Veja – Os americanos cometeram algum erro em termos de estratégia?
Luttwak – Os erros são em decorrência de limitações do sistema militar. Nada a ver com decisões. Os militares americanos são rígidos e levam tempo para se adaptar. Os ingleses e os israelenses têm estruturas flexíveis. Criam tropas especiais para vários tipos de ação, usam novas táticas, fazem qualquer coisa. O repertório à disposição dos militares americanos não é muito grande. Está mais para um McDonald's que para um restaurante francês. Dito isso, é verdade que o Talibã está perdendo essa guerra. Os fanáticos conquistaram o país com dinheiro, subornando chefes locais. Parecem ferozes nas fotos, mas não são guerreiros de verdade.

Veja – O senhor acha que será fácil encontrar Osama bin Laden?
Luttwak – Em condições normais, seria impossível. Na II Guerra Mundial, Benito Mussolini foi pego por acaso e Adolf Hitler cometeu suicídio. As probabilidades de pegar Laden são pequenas, mas há um detalhe que pode mudar isso. Ele tem quase 2 metros de altura. Não pode fazer-se passar por uma mulher. O governo americano oferece 5 milhões de dólares de recompensa. Acredito no espírito empreendedor dos afegãos.

Veja – Como evitar que um número maior de jovens se torne terrorista?
Luttwak – Há um paradoxo. A Arábia Saudita é a maior aliada dos Estados Unidos e seu pior inimigo. A família real saudita é wahabita, seita diferente do islamismo tradicional porque rejeita a coexistência entre muçulmanos, cristãos e judeus. Os sauditas financiam milhares de escolas wahabitas em todo o mundo, inclusive no Brasil. São centros de treinamento de extremistas. Os Estados Unidos deveriam colocar uma pressão irresistível em cima dos sauditas para que parem de financiar o islamismo extremista.

Veja – Existe alguma chance de o Brasil fazer parte do grupo de países mais influentes do mundo?
Luttwak – Antes de 11 de setembro, havia um movimento para que o G-7, o grupo de países ricos, fosse ampliado. Falava-se da entrada da Índia, da China, do Brasil e talvez da África do Sul. O foco era geoeconômico. Agora mudou. É geopolítico. A nova aliança contra o terrorismo é formada por Estados Unidos, Rússia, Índia, China, União Européia e Japão. O interesse pelo Brasil diminuiu. Em termos econômicos, o interesse deve continuar. Os investimentos estrangeiros vão cair por causa da desaceleração do crescimento mundial, mas o país deve manter sua posição no ranking das economias mais atraentes entre as nações em desenvolvimento.

Veja – O líder palestino Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, querem a paz?
Luttwak – Cada vez que a violência cresce demais, Arafat fala de paz. Cada vez que a oportunidade de selar a paz surge, ele recomeça a violência. Ele é como aquele sujeito que diz para todo mundo que quer comprar um apartamento. Leva a mulher para ver, depois o advogado, o encanador, o eletricista, a sogra, mas nunca assina o contrato. Sharon também não quer chegar a um acordo. Como é parte de uma coalizão, poderá ser obrigado a assinar a paz. Dito isso, acho que não chegaremos a essa situação.

Veja – O senhor é a favor do movimento antiglobalização?
Luttwak – As pessoas que deveriam estar protestando são as de direita, porque a globalização é um fenômeno antinacionalista. Os manifestantes não sabem nada de economia. Acham que a globalização está ferindo os países mais pobres do mundo, o que é uma mentira. A globalização é ruim para os pobres dos países ricos. As estatísticas sobre renda provam, sem sombra de dúvida, que os 70% mais pobres dos países ricos estão perdendo dinheiro. Isso acontece porque os empregos estão migrando de lugares caros como os Estados Unidos para o México. A globalização é um grande negócio para seus arquitetos, que vivem em países desenvolvidos. Mas a classe trabalhadora dos países pobres também está ganhando.

Veja – O senhor é a favor da globalização?
Luttwak – Se fosse japonês ou dinamarquês, teria cuidado em defender idéias como privatização e desregulamentação. Seria completamente a favor de políticas industriais. Caso fosse brasileiro, defenderia, de forma fanática, a privatização, o livre comércio e a globalização. A elite brasileira é altamente privilegiada se comparada com a de outros países. A diferença entre os salários de executivos e os dos trabalhadores no Brasil é maior do que a que se observa no Japão, na Europa e nos Estados Unidos. Isso explica por que a elite é contra projetos como o da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). A elite resiste a idéias como essa também por puro formalismo. O exemplo clássico: o Brasil exige visto de turistas americanos só porque os Estados Unidos fazem o mesmo com os brasileiros. Os diplomatas brasileiros acham o princípio de reciprocidade o máximo. Quem paga para que a elite se sinta orgulhosa são os garçons sem trabalho do Rio e suas famílias.

Veja – O senhor é contra a adoção de uma política industrial no Brasil?
Luttwak – Sou a favor de políticas industriais. Mas há um detalhe. Só funcionam em países nos quais é possível administrar programas públicos sem corrupção. Onde não haja perigo de a política industrial se transformar em mais um instrumento de transferência de renda dos pobres para os ricos. Temo que não seja o caso do Brasil. O país precisa de política industrial, mas não pode tê-la.

Veja – Do jeito que o senhor fala, parece que há um impedimento genético.
Luttwak – Genético, não. Mas, ao observar o histórico brasileiro, nota-se que os ricos foram os que mais ganharam com as políticas industriais do passado. A substituição de importações foi ótima para os industriais brasileiros. Não para o povo, que pagava caro por um produto ruim. Aposto que a Embraer custou mais ao país do que proporcionou lucro.

Veja – Mesmo que essa hipótese esteja certa, empresas como a Embraer podem ser lucrativas para o país no longo prazo. Por que o Brasil não pode investir em áreas estratégicas?
Luttwak – Quem paga pelos subsídios são as famílias famintas do Nordeste. Elas também pagam pela grande classe política brasileira. As histórias de sucesso no Brasil, que são muitas, não foram resultado de políticas públicas.

Veja – Os Estados Unidos vão salvar a Argentina da crise?
Luttwak – Antes de 11 de setembro, havia muita pressão para que os americanos lançassem uma bóia para a Argentina. Seria uma forma de amenizar o impacto da crise no restante da América Latina. Hoje, o caso argentino ainda é importante, mas está mais abaixo na lista de prioridades.

Veja – Como se pode resolver o problema da Argentina?
Luttwak – O caso argentino é simples. O país decidiu que 1 peso valeria 1 dólar, mas não reduziu os custos. Para fazer uma transferência de 1.000 dólares de Buenos Aires para Nova York, pagam-se 130 dólares de imposto. De Nova York para Buenos Aires, a taxa é de 27 dólares. Por quê? Na Argentina, há impuesto para tudo. Do aeroporto de Ezeiza ao centro de Buenos Aires, paga-se uma fortuna de pedágio. Nos Estados Unidos, 1 dólar é muito dinheiro, e as pessoas pensam antes de dá-lo como gorjeta. Para os argentinos, 1 dólar não é nada. Pode-se criticar Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Eram de direita, fizeram guerra etc. Mas ambos reduziram os custos. Thatcher brigou não só contra os mineiros. Também quebrou o monopólio dos advogados. Reagan desregulamentou os setores bancários e das companhias aéreas. Isso baixou o preço das passagens e aumentou a eficiência dos bancos.

Veja – A Argentina pode salvar-se só cortando custos?
Luttwak – É melhor dar um calote na dívida que desvalorizar a moeda. Depois, precisa acabar com os custos. Não só cortando salários, mas essas taxas escondidas e os gastos do governo. Na última vez que examinei a economia argentina, a ópera de Buenos Aires estava recebendo 100 milhões de dólares em subsídios.

Veja – Quais são as perspectivas para a economia mundial?
Luttwak – A economia mundial vem reduzindo a atividade. Os Estados Unidos precisam acabar com os problemas provocados por investimentos feitos em excesso. A economia européia ainda está sendo travada por fatores estruturais e por um extremismo monetarista. O banco central europeu é o Talibã do monetarismo, luta contra a inflação mesmo quando não há inflação. O Japão está passando por um processo de reestruturação, e, por isso, a economia não cresce. O Brasil vai crescer a uma taxa menor não só por problemas internos.

Veja – O sistema de comércio mundial é justo?
Luttwak – Os países mais pobres exportam minério, e não existem muitas barreiras nessa área. Já os países remediados do mundo em desenvolvimento, como o Brasil e a Argentina, querem exportar cereais e carne, mas não podem por causa das proteções americanas, européias e japonesas. Sem dúvida, isso é injusto. Os agricultores nos países ricos representam menos de 5% da população, mas são extremamente poderosos em termos políticos. As barreiras não fazem parte do planejamento geopolítico e econômico das grandes potências. É puro lobby dos agricultores. Não penso que isso mudará no curto prazo. Nos Estados Unidos, o Partido Republicano tem o apoio dos agricultores e os democratas querem conquistá-lo.

 
 
   
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