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Sérgio
Abranches
O dilema federal
"Mexer
na regra eleitoral sem adequar o princípio federativo
ao presidencialismo de coalizão pode apenas agravar
os
males de nosso modelo político"
O conflito
entre governadores de província e o governo central argentino,
objeto de atenção nas últimas semanas, desperta-nos
para um ponto crítico do presidencialismo. O conflito argentino
não por acaso tem como móvel divergências em torno
das políticas fiscal e tributária. No Brasil, além
dessa dimensão fiscal, a política da federação
atinge também o funcionamento dos partidos na Câmara dos
Deputados. Tanto aqui como na Argentina, um novo arranjo federativo é
condição indispensável para melhorar o desempenho
do sistema político.
Ilustração Ale Setti
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São duas as fontes de problema. A lógica de formação
dos governos estaduais não é, nem pode ser, a mesma que
dá origem ao poder presidencial. Ao mesmo tempo, a dinâmica
de interesses que elege o governador está mais próxima daquela
que nomeia as bancadas federais dos Estados. Essa proximidade dá
aos governadores uma influência na política federal maior
do que seriam capazes de derivar de seu controle da governança
estadual. Em segundo lugar, há uma nítida disparidade
que deveria ser corrigida entre o poder político dos governadores
e a capacidade financeira dos Estados, na maioria dos casos. Quando o
Estado é financeiramente independente, como São Paulo
a exceção à regra , o poder do governador se
altera e potencializa, porque além de politicamente forte passa
a ter uma independência econômica que o imuniza das pressões
do governo federal. Quem reduziu o poder de São Paulo, mais que
a crise da velha indústria, foi a sucessão de maus governos,
que acabaram com a autonomia fiscal do Estado e o tornaram dependente
do aval e do socorro do Tesouro Nacional.
É
essa dependência, expressa no Fundo de Participação
dos Estados e dos Municípios brasileiros ou na noção
argentina de co-participação nos tributos, que alimenta
a discórdia recente entre os governadores e Domingo Cavallo e que
transforma os deputados federais em facilitadores da liberação
de verbas para seus Estados em Brasília. O conflito em torno das
receitas compartilhadas entre Estados e União é que paralisa
a reforma tributária.
A diferente
lógica da política estadual é também origem
principal da fragilidade partidária. Fator muito mais relevante
que o regime eleitoral. São as rivalidades estaduais e as dificuldades
de acomodação das famílias, facções
e lideranças da política local na estrutura partidária
que promovem as sublegendas, hoje travestidas em partidos nanicos, e as
mudanças de partidos.
Um importante
estudo sobre as migrações partidárias, do cientista
político Carlos Ranulfo, permite concluir que a maioria delas obedece
à lógica estadual. Seu estudo revela que os partidos caudilhistas,
ou dominados por chefes de facções políticas, tendem
a sofrer mais com essas migrações. Por isso, à esquerda,
há muito mais troca-troca no PDT e no PSB que no PT. Mas são
os partidos de direita e de centro que contribuem com a maioria das mudanças,
que atingem em torno de 29% das bancadas.
Partidos
como o PL dão o exemplo extremo da subversão do voto. Segundo
o estudo, o PL elegeu doze deputados em 1998, dez deles abandonaram o
partido, que, entretanto, se tornou hospedeiro de 21 deputados eleitos
por outras legendas. Ficou maior e diferente. Essa transmutação
desmancha a identidade partidária porque, se leva um candidato
a "buscar o PTB em Roraima", poderia fazer com que ele "batesse à
porta do PPB, se estivesse no Amazonas", ou do PDT, em Alagoas. Na minha
opinião, o que essa lógica tem que a distingue é
ser determinada pela dinâmica dos interesses estaduais. Ela federaliza
a estrutura partidária e política dos partidos. Mas programa
e identidade partidários consistentes só podem partir de
uma lógica nacionalizada. Por isso, como mostra Ranulfo, os partidos
brasileiros têm mais disciplina que coesão.
Fala-se
muito em reforma política no Brasil, porém mais para mexer
nos sintomas que para criar mecanismos institucionais que solucionem os
dilemas do presidencialismo de coalizão. A reforma mais importante
seria aquela que redefinisse as atribuições entre os Estados
e a União, separando-as mais claramente, e desse efetiva autonomia
fiscal às unidades federativas, permitindo que se nacionalizassem
o orçamento federal e a Câmara dos Deputados. Mexer na regra
eleitoral sem adequar o princípio federativo ao presidencialismo
de coalizão pode apenas agravar os males de nosso modelo político.
Sérgio
Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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