Lembra daquela?

Quem compõe os jingles que não saem das nossas cabeças

Zé Rodrix (à esq.)
e Alan Terpins:
sonorizando cinqüenta
comerciais por mês
Foto: Claudio Rossi  

Se você fizer uma lista das dez músicas que marcaram sua vida nas últimas décadas, terá uma surpresa: pelo menos uma delas será um jingle publicitário. Quem esqueceria de "Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada"? Ou da grudenta "Depois de um sono bom a gente levanta, toma aquele banho e escova os dentinhos"? Criado para anunciar uma conhecida marca de automóveis, "Fazendo o seu caminho melhor" é o refrão do momento. No futuro, talvez seja tão lembrado quanto o estribilho de É o Tchan. A diferença entre os jingles e as demais músicas que marcam época é que eles não foram compostos por Chico Buarque, Roberto Carlos ou Tom Jobim. Seus autores permanecem no anonimato. Frustrante? Nem tanto. A casta dos campeões do jingle é tão seleta quanto a dos grandes nomes da MPB. E, em muitos casos, tão bem remunerada quanto.

Os cinqüentões Zé Rodrix e Sérgio Muniz fazem parte desse grupo. Estão no ramo há vinte anos. A Voz do Brasil, empresa de Rodrix em sociedade com Alan Terpins, de 23 anos, sonoriza cerca de cinqüenta comerciais por mês. "No mesmo dia podemos fazer um rap, um pagode e um axé. Ou misturar tudo isso no mesmo jingle", divertem-se os sócios. Egresso da MPB, Zé Rodrix não acha irônico que sua vinheta "De mulher pra mulher/Marisa" seja tão conhecida quanto seu maior sucesso, o hino ripongo Casa no Campo, gravado por Elis Regina. "Adoro criar jingle, e mesmo Casa no Campo já serviu a comerciais, inclusive na forma de paródia", diz. O ex-publicitário Sérgio Muniz, mais conhecido como "Mineiro", entrou para a área de jingles em parceria com o compositor Renato Teixeira, de Romaria, outro sucesso na voz de Elis. Hoje, ele acredita ser o músico mais executado na televisão brasileira, uma vez que tem no currículo incontáveis jingles que duraram meses no ar. Além de "Liberdade é uma calça velha...", ele compôs as músicas das mais famosas campanhas de Antarctica, McDonald's e Parmalat. Um de seus jingles, feito para a Levi's, foi lançado em disco e vendeu 700.000 cópias.

Dudu Marote:
sucesso na TV
e em disco
  Foto: Antonio Milena

Criar um jingle não é fácil. Às vezes, exige-se que em 48 horas seja feita a letra, a música, o arranjo, a gravação e a mixagem, em geral a partir de um slogan definido por publicitários. Ainda assim, os compositores de jingle não reclamam do ofício — e menos ainda de seus salários. O piso da categoria é de 13.000 reais por trabalho, mas há contratos que chegam a vinte vezes esse valor, já que o orçamento inclui os custos de produção, como o cachê dos intérpretes. Se o anunciante quiser a voz de Ivete Sangalo defendendo sua marca, terá de pagar o que a estrela vale.

O mercado de jingles se concentra na cidade de São Paulo, onde há cerca de 100 produtoras dedicadas ao gênero. As mais badaladas, que empregam até trinta pessoas, faturam mais de 3 milhões de reais por ano. Magos do sucesso instantâneo, é natural que os criadores de jingles atraiam a atenção da indústria fonográfica. O melhor exemplo é Dudu Marote, de 33 anos, hoje um dos produtores de discos mais requisitados do país. Consagrado na publicidade, é também um dos responsáveis pelo estouro do quarteto mineiro Skank. "O jingle é mais legal quando você não precisa fazer todo dia", diz.

Celso Masson




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