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Home  »  Revistas  »  Edição 2134 / 14 de outubro de 2009


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Desenvolvimento

Uma régua não muito precisa

Idealizado para comparar o estágio de bem-estar dos países,
o IDH da ONU tem valor, mas não pode ser tomado como definitivo.
Sua metodologia produz muitas e curiosas aberrações


Benedito Sverberi

Travel Ink/Getty Images
NO TOPO
Os noruegueses, líderes no ranking, souberam transformar os dólares do petróleo em avanço social efetivo


Há cinquenta anos vivendo sob uma ditadura, os cubanos são impedidos de viajar para o exterior e enfrentam uma privação tão drástica de produtos básicos que nas democracias de economia de mercado não seria aceitável nem em tempos de guerra. A Venezuela é uma ditadura que fecha jornais e emissoras de televisão, tem um governante, Hugo Chávez, que rasgou a Constituição para se eternizar no poder e acaba de montar uma milícia para, à moda da juventude hitlerista, atemorizar os poucos e heroicos jovens rebeldes que ainda ousam contestar o regime. A Venezuela não produz nada e importa tudo – de tomate a pasta de dentes. Toda a riqueza que possui é o petróleo. Pois, à luz do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da ONU, Cuba e Venezuela são países mais evoluídos do que, para ficar na vizinhança, o Brasil e a Colômbia. Basta uma dose homeopática de bom senso para concluir que se está diante de um erro. Se houvesse uma ponte aérea gratuita e livre para quem desejasse emigrar definitivamente, os assentos estariam todos ocupados nos voos de Cuba para o Brasil ou Colômbia e vazios nos voos para a ilha de Fidel Castro. O IDH, porém, se choca frontalmente com essa realidade.

As estranhezas citadas são apenas algumas das distorções que saltam aos olhos no ranking do IDH divulgado na semana passada. Calculado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), esse índice foi criado com o saudável objetivo de permitir uma comparação adequada entre os diversos países do ponto de vista do bem-estar físico e social de seus habitantes. Isso serviria para dar alertas e apontar caminhos para o aperfeiçoamento das nações. Esquecendo-se que a ONU é uma gigantesca máquina burocrática que, como todas dessa natureza, se move pela lei do menor esforço e da máxima exposição, ainda assim as aberrações do IDH carecem de explicação. Tome-se de novo o exemplo de Cuba, não por idiossincrasia, mas por ser o mais flagrante e didático. Como uma ditadura comunista pode pontuar bem em desenvolvimento humano se ali faltam aos humanos conquistas básicas como a liberdade de expressão e o direito de ir e vir? Essa é fácil. A pretexto de aumentar a objetividade das aferições, esses quesitos, digamos, abstratos foram expurgados do IDH. Foque-se então algo concreto, a educação, item em que Cuba se saiu muito bem. A educação no IDH é avaliada apenas pela quantidade – e não pela qualidade. O país tem proporcionalmente mais alunos na escola do que o Canadá ou a Noruega. Não se leva em conta o fato de que em Cuba as crianças são submetidas à doutrinação, enquanto suas colegas canadenses e norueguesas recebem educação de alto nível. Adaptando-se o teste da ponte aérea, será que haveria mais pais cubanos querendo ver seus filhos estudando no Canadá e na Noruega, ou o contrário? A resposta é óbvia. Mas a leitura do IDH sugere exatamente o oposto disso.

Conhecendo-se suas distorções, o IDH tem méritos. "Ele é um indicador sintético. Foi sua simplicidade que possibilitou a participação de todos os países, mesmo os mais pobres, e a comparação entre eles", diz Sérgio Besserman, professor de economia da PUC-Rio e ex-presidente do IBGE. No caso brasileiro, o índice registra o avanço social recente impulsionado pelo crescimento econômico e pelo aumento no número de crianças nas escolas. Se medisse também a qualidade do ensino, certamente o Brasil não teria ganho nenhuma posição na lista.



 

 

 

 

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