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Home  »  Revistas  »  Edição 2134 / 14 de outubro de 2009


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Livros

Império do desejo

Em duas novelas de tema histórico – e carregadas
de um erotismo violento –, Junichiro Tanizaki apresenta
um Japão diferente dos clichês


Miguel Sanches Neto

Tanizaki
Atração por deformidades em ambos os escritos

 

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Um dos maiores nomes da literatura japonesa moderna, Junichiro Tanizaki (1886-1965) dissecou obsessivamente as transformações culturais de seu país sob impacto da influência ocidental. A narrativa histórica não é típica da produção do autor de As Irmãs Makioka – mas ele mostra um domínio excepcional do gênero nas duas novelas que acabam de ser publicadas no Brasil, em um único volume, com o título A Vida Secreta do Senhor de Musashi (tradução de Dirce Miyamura; Companhia das Letras; 224 páginas; 45 reais). Orientadas por uma espécie de gramática da história japonesa, suas regras e tradições subterrâneas, as duas obras carregam a marca registrada do autor de romances como Voragem: um erotismo cru, que não respeita convenções.

Na novela que dá título ao livro, Tanizaki compõe um painel da vida de um samurai do século XVI. Em tom extremamente suave, investindo numa linguagem lírica que soa paródica, o autor apresenta Musashi, guerreiro cuja trajetória, contrastando com o estilo em que é descrita, se distinguirá pela crueldade desgovernada. O momento decisivo de sua formação acontece quando, aos 12 anos, ele é apresentado a uma prática chamada "adornar cabeças": as cabeças decapitadas dos inimigos são maquiadas por mulheres. O jovem visita o cômodo onde elas preparam tais troféus e sente uma forte atração por uma das moças, que, ao realizar essa tarefa mórbida, desperta nele uma fixação que determinará sua vida sexual e política. Mais tarde, ao matar um líder opositor, Musashi não consegue arrancar sua cabeça: rouba-lhe apenas o nariz, dando assim início a uma trajetória de herói pervertido – na guerra e no sexo.

Kuzu, a segunda novela, não é tão violenta, mas é igualmente rica de ecos psicanalíticos. É o making of de um romance histórico frustrado: o narrador viaja ao Japão profundo para localizar a Corte do Sul, onde teria vivido o Imperador Celestial. A viagem tem um caráter literário, com descrições nostálgicas da paisagem, mas o relato acaba desviando-se do passado para focar o drama de um jovem solitário, com parentes na região, que viaja com o narrador. Filho de uma moça que foi vendida como prostituta pelos pais em apuros financeiros, ele deseja recuperar os laços com uma inocência perdida. Guarda uma imagem chocante das mulheres ancestrais, que tinham as mãos ásperas e partidas pela fabricação de papel. Ao reencontrar a família, apaixona-se pela neta de uma de suas tias, fixando-se em suas mãos destruídas. Nas duas novelas, o desejo se manifesta pela deformação. Os quadrinhos, o cinema e as diluições new age da filosofia oriental cultivaram o lugar-comum do samurai como um guerreiro implacável e um mestre na anulação zen-budista do eu. Tanizaki está longe disso. A partir das pulsões mais destrutivas do sexo, ele retrata um Japão tomado por sombras.

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