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Muitas das pesquisas contempladas com o Nobel no campo das ciências são indecifráveis para a maioria das pessoas ou têm aplicação restrita no cotidiano. Os vencedores dos prêmios de Física, Química e Medicina (ou Fisiologia) deste ano pertencem a outra categoria. São pesquisadores cujas contribuições promoveram revoluções de ordem prática, ainda que indiretamente, na vida das pessoas. O engenheiro elétrico Charles K. Kao, um chinês radicado nos Estados Unidos, que ficou com metade do 1,4 milhão de dólares do prêmio de Física, tornou possível o uso das fibras ópticas para a transmissão de informações a longas distâncias. Sem esse recurso, a internet de banda larga, entre outros avanços, seria inviável. Os físicos americanos Willard S. Boyle e George E. Smith, que dividiram a outra metade do prêmio, desenvolveram o circuito semicondutor capaz de captar e reproduzir imagens, usado em câmeras digitais. Cada vez que alguém tira uma fotografia digital deveria agradecer aos dois.
Um abismo conceitual separa os vários Nobel de ciências, de um lado, e os da Paz e da Economia, de outro. Os critérios usados na escolha desses dois últimos são, por natureza, políticos e efêmeros. O prestígio dos laureados pode não resistir à passagem do tempo, e nem sempre é fácil traçar uma linha coerente ligando os premiados desde 1901. No caso das ciências, o fator decisivo da premiação é a contribuição objetiva de uma pesquisa. O prestígio dos laureados resiste ao tempo e dá credibilidade a todo o seu trabalho posterior. Poucas vezes a escolha foi um equívoco. Um deles foi o prêmio concedido ao português António Egas Moniz pela invenção da lobotomia, cirurgia que extirpa parte do cérebro a pretexto de curar distúrbios mentais. Essa mutilação inútil está hoje totalmente desmoralizada. "As premiações parecem seguir um padrão, que muda de tempos em tempos. Ou seja, em determinado momento histórico, algumas áreas são mais valorizadas", disse a VEJA o biólogo molecular e bioquímico americano Tom Steitz, vencedor do Nobel de Química deste ano.
Apesar das oscilações, há coerência na sequência. Se tomarmos como ponto de partida os premiados deste ano, por exemplo, é possível observar a lógica evolutiva entre eles e contemplados no passado. A árvore genealógica de suas pesquisas tem raízes em trabalhos laureados anteriormente. Nesse caso é o estudo da luz, cujo rol de premiados inclui Albert Einstein, o ícone da genialidade científica (veja o quadro).
Os laureados em Química e Medicina deste ano desvendaram dois dos mais importantes processos biológicos relacionados à reprodução celular e, por consequência, à manutenção da vida. "Fomos motivados pela simples curiosidade em entender como as células preservam a porção final de seu DNA. É maravilhoso pensar que nossa pesquisa básica abriu novos rumos na luta contra o câncer e as doenças degenerativas", disse a VEJA o biólogo americano Jack W. Szostak, professor de Harvard, que levou um terço do prêmio de Medicina e agora se dedica a desvendar como as primeiras células se formaram no planeta, bilhões de anos atrás. Talvez o trabalho que ajudou a explicar parte do funcionamento de nosso material genético ajude a esclarecer, no futuro, como o homem surgiu no planeta.
Com reportagem de Laura Ming, Carolina Romanini e Juliana Cavaçana
Perseguida e consagrada
O Compromisso, o único livro da autora publicado no Brasil, pela editora Globo (tradução de Lya Luft), narra a história de uma operária da indústria têxtil que, na Romênia comunista, costura bilhetes nos bolsos de calças destinadas à Itália, com a mensagem "case comigo". Ela cai em desgraça quando a polícia descobre seu ingênuo estratagema para fugir do país. A própria autora passou por tribulações semelhantes. De 1977 a 1979, trabalhou traduzindo manuais técnicos em uma fábrica de tratores. Seus colegas no serviço eram todos colaboradores da Securitate, a polícia política de Ceausescu. Instada a colaborar também, a escritora se recusou e foi demitida. A partir de então, viveu acossada por ameaças, até deixar a Romênia. "A experiência mais avassaladora da minha vida foi a ditadura. Viver na Alemanha não apagou esse passado", disse Herta. Em 2008, pouco antes do anúncio do prêmio para o francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, o então secretário da Academia Sueca, Horace Engdahl, deu uma entrevista criticando o suposto caráter "insular" da literatura americana - e afirmando a centralidade das letras europeias. Englund, seu sucessor no cargo, fez afirmações no sentido contrário antes do anúncio da semana passada: disse que os membros da academia deveriam se vigiar para não ser "eurocêntricos". Essas declarações deram a impressão de que neste ano o prêmio iria para um americano. Não foi o que ocorreu: a distinção foi para uma autora que deu voz ao passado de sombras do Leste Europeu. Um escritor como Philip Roth, americano que nunca viveu sob um regime totalitário, terá de esperar. Jerônimo Teixeira |