J. R. Guzzo
A capital perdida
"Não foi o Rio de Janeiro que perdeu o direito de ser
a
capital do Brasil. Foi o Brasil que perdeu o direito de
ter sua capital no Rio
de Janeiro. Isso não tem conserto"
Dentro de alguns meses, em abril de 2010, vão se completar
cinquenta anos do ato de agressão mais perverso que já se cometeu,
em toda a história nacional, contra uma grande cidade brasileira: a expropriação
da capital do país, tomada do Rio de Janeiro e transferida para Brasília.
A data vai ser motivo de festa oficial de primeira categoria, com desfile, show
e missa; deveria ser um dia de luto fechado. Até abril de 1960, o Brasil
tinha o que poderia haver de mais próximo, no mundo inteiro, a uma capital
perfeita. A partir dali, perdeu-a para sempre. Até hoje não dá
para entender por que um país abençoado pela existência
de um prodígio como o Rio de Janeiro, uma das cidades que a natureza
e o gênio humano colocaram entre as mais brilhantes do planeta, decidiu
que ela não servia mais para ser sua capital. Nada, nem ninguém,
forçou o Brasil a sofrer essa perda. Nenhuma vantagem trazida pela nova
capital compensou, nem de longe, o desmanche do patrimônio incomparável
que a nação havia construído no Rio e que hoje,
com o progresso geral dos últimos cinquenta anos, sabe-se lá em
que alturas poderia estar.
Bendita Olimpíada de 2016, portanto. Já estava mais
do que na hora de ser tomada alguma grande decisão em favor do Rio de
Janeiro, e sua escolha como sede dos Jogos Olímpicos pode ser um momento
de virada; é, certamente, a maior oportunidade de reação
oferecida ao Rio desde o atentado que sofreu meio século atrás.
Não se trata, nesta questão, de fazer pouco de Brasília,
ignorar quanto ajudou para irradiar progresso no centro do país ou negar
o muito que foi construído ali. O comentário é sobre a
calamidade que o poder público impôs a uma cidade que vive no coração
de todos os brasileiros capazes de admirar seu próprio país; ao
cassar do Rio a condição de capital, matou uma parte de sua alma.
A perda, no fundo, vai muito além dos limites da geografia carioca. Pois
a verdade é que não foi o Rio de Janeiro que perdeu o direito
de ser a capital do Brasil. Foi o Brasil que perdeu o direito de ter sua capital
no Rio de Janeiro. Isso não tem conserto.
Nenhum exército de ocupação estrangeiro conseguiria
fazer tanto mal ao Rio quanto os próprios governos brasileiros fizeram;
comparado ao presidente Juscelino Kubitschek, em termos de estrago a longo prazo,
o corsário Duguay-Trouin parece um benemérito. Perdida a capital,
foi imposta à cidade, tempos depois, uma fusão irresponsável,
inepta e ruinosa com o antigo estado do Rio, numa operação que
conseguiu apenas somar vícios e subtrair virtudes. Nos anos seguintes,
o Rio de Janeiro se viu castigado por alguns dos piores governos já registrados
na história humana. A certo momento, por decisão de Brasília,
chegou-se pura e simplesmente, em 1976, à demolição física
do Palácio Monroe, um dos principais monumentos da arquitetura carioca
e antiga sede do Senado Federal. Talvez nada tenha servido tão bem como
símbolo do rancor e despeito dos governantes brasileiros pelo Rio quanto
esse feito do presidente Ernesto Geisel, baseado no argumento de que o Monroe
atrapalhava o trânsito e um túnel do metrô que já
estava pronto quando o palácio foi demolido. (Presidentes da República,
naquela época, podiam fazer essas coisas. Não havia liminares,
relatórios de impacto ambiental ou procuradores ou melhor, até
havia procuradores, mas estavam procurando outras coisas e, sobretudo, outras
pessoas.)
A Olimpíada de 2016 não pode ressuscitar o que foi
destruído, assim como não pode fazer, nos próximos sete
anos, a maior parte do que deveria ter sido feito nos últimos cinquenta.
Além disso, não temos um histórico bom quando se colocam
na mesma frase as palavras governo, verbas e obras daqui até a
cerimônia de abertura dos Jogos, o público vai se cansar de ouvir
notícias sobre obras erradas, obras malfeitas, obras atrasadas, obras
abandonadas, obras caras demais e, até, verbas sem obra. Mas tudo terá
valido a pena, certamente, se na cerimônia de encerramento o Rio estiver
melhor do que está hoje.
O Brasil, que já fez um plebiscito para decidir se queria
voltar à monarquia ou continuar sendo república, não perguntou
à população do Rio, ou a qualquer outro brasileiro, se
concordava com a mudança da capital. Hoje não tem mais nada a
perguntar sobre o assunto, mas tem a obrigação de reparar ao máximo
o mal já feito. O Rio de Janeiro continua vivo, é claro, pois
cidades são coisas duras de destruir não é fácil
nem com bomba atômica, como comprovam Hiroshima e Nagasaki. Mas merece
muito mais do que sobreviver.
|