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Tales
Alvarenga Abraço do afogado
"O
PT não entendeu o cenário que lhe deram para governar. Lula
acabou abraçado a Severino Cavalcanti. É o abraço
do afogado" Lula deu para comparar-se com
Juscelino Kubitschek. Entende-se esse artifício psicológico num
homem cercado pelos fantasmas de uma crise de imagem e com o poder esvaziado a
um ponto crítico. Sua Presidência acabou de fato. Só sobrevive
formalmente porque essa é a melhor solução para o problema.
Ao se identificar com JK, o presidente dos Anos
Dourados, Lula evocou um país de que os brasileiros mais velhos têm
saudade. Os anos 50 foram uma época de orgulho nacional, com o início
da industrialização, a explosão de movimentos culturais como
a bossa nova e a reformulação do velho cinema de chanchadas que
o país tinha até então. As capitais brasileiras eram lindas
e arborizadas e o Rio de Janeiro ainda não havia se transformado numa arena
do crime organizado. A sensação era a de que o país tinha
um destino glorioso. Tudo isso é muito atraente, mas aquele Brasil era
um lugar pior do que o Brasil de hoje para a maior parte dos seus habitantes.
Nos anos 50, éramos uma fazendona. Mais
da metade da população vivia no campo (hoje apenas 15%). Quarenta
por cento dos brasileiros eram analfabetos (hoje 11%). Enquanto a maioria não
tinha acesso ao mercado de trabalho nem participação nas escolhas
que a democracia permite, a parte urbanizada da população freqüentava
de graça as boas escolas públicas, tinha empregos garantidos pelos
laços familiares e comandava a vida econômica e política do
país. Apenas 30 milhões de pessoas viviam nas cidades. Sobrava tudo
para a elite e as classes médias. Nada era destinado aos que viviam descalços,
desdentados, desnutridos e analfabetos nos grotões. Nas
décadas seguintes, hordas de brasileiros deixaram o campo pelas cidades,
num dos grandes deslocamentos humanos da história mundial, ao mesmo tempo
em que a população explodia de 70 milhões para 180 milhões
de habitantes. Os recém-chegados tomaram as vagas nas escolas públicas,
lotaram os hospitais mantidos pelo governo, ergueram bairros pobres em torno das
cidadelas do bem-estar, exigiram empregos, elegeram seus parlamentares. A isso
se pode dar o nome de massificação, urbanização febril,
exaustão repentina dos serviços públicos ou simplesmente
democratização da vida nacional. O
Brasil ainda está digerindo esse dilúvio social. O PT não
entendeu o cenário que lhe deram para governar. Em vez de promover uma
reforma da Previdência Social para que ela pudesse suportar a carga de milhões
de novos filiados, optou por incitar falsos camponeses a participar de uma reforma
agrária que não tem mais função, já que a propriedade
rural se transformou em empresa de alta produtividade. Criou um programa chamado
Fome Zero num país em que o problema dos pobres é a obesidade. Não
entendeu a urgência de estimular a criação de empregos por
meio do fortalecimento das empresas. Em vez de reduzir, aumentou a carga tributária.
Não viu a oportunidade oferecida pela simplificação das leis
trabalhistas. Por fim, o PT imaginou que podia governar à base de apoios
políticos comprados com mensalões e favores vendidos a quem quisesse
pagar mais. Lula acabou abraçado a Severino Cavalcanti. É o abraço
do afogado. |