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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Nos labirintos do poder
O leitor acha
fácil a tarefa de abrir
a porta
para o augusto governante?
Aprenda que não
Governante esperto era aquele.
Jamais escrevia o que quer que fosse e jamais assinou um documento.
Tinha sempre ao lado, nas audiências, o auxiliar chamado de
"ministro da Pena", cujas atribuições consistiam em
anotar suas ordens. O governante falava baixo, pouco movendo os
lábios, o que obrigava o ministro da Pena a colar o ouvido
junto à sua boca, qual um microfone. Acresce que as ordens
eram em geral confusas, o que duplicava o trabalho do auxiliar
mas que sabedoria, que modo mais engenhoso de governar! Caso uma
determinada decisão fosse do agrado geral, seria mais uma
prova de sua inigualável sapiência. Caso desagradasse,
a culpa seria do ministro, que não entendera suas ponderações.
O governante em questão
é o antigo imperador da Etiópia Hailé Selassié,
o "Escolhido de Deus", o "Rei dos Reis", que governou de 1930 a
1974. Selassié era baixinho, o que impunha a necessidade
de um outro singular auxiliar a seu lado o "colocador de
almofadas". Assim que ele se sentava no trono, esse profissional
colocava uma almofada a seus pés. A ação tinha
de ser executada com rapidez e precisão, para que Sua Majestade
não ficasse com os pés a balançar ridiculamente
no ar, como uma criança. Os mais distraídos argumentariam
que um trono de assento mais baixo resolveria mais simplesmente
a questão. Mas e a imponência? E o plano necessariamente
mais alto em que se deve situar o soberano? O colocador de almofadas
era imprescindível mesmo nas viagens. A cada subida num trono,
entrava em ação. E, como os tronos podiam ser de diferentes
alturas, levava almofadas de diversas dimensões. No total,
possuía 52 diferentes almofadas. Com o tempo, adquiriu tal
domínio de sua especialidade que era só pôr
os olhos num trono e já sabia a qual almofada recorrer.
Essas histórias estão
em O Imperador, de Ryszard Kapuscinski, livro de 1978, mas
só agora lançado no Brasil (Companhia das Letras).
Kapuscinski, jornalista polonês com muitos anos de experiência
na África, entrevistou antigos assessores e funcionários
palacianos, depois da deposição de Selassié,
com a idéia de oferecer um quadro do regime visto de dentro.
Não bastasse o colocador de almofadas, havia também
o abridor de portas do imperador. Pensa o leitor que era tarefa
fácil? Exigia perspicácia e treino para abri-las no
preciso instante não cedo demais, para não
dar a impressão de querer despachar logo o monarca do salão,
nem tarde demais, de modo a obrigá-lo a diminuir o passo,
ou mesmo parar.
A Hora das Nomeações
consistia numa cerimônia em que, em filas, as pessoas se aproximavam,
uma a uma, do soberano, e, inclinadas até o chão,
ouviam da imperial boca o cargo para o qual tinham sido nomeadas.
Os nomeados recuavam cheios de mesuras, mas, assim que deixavam
o salão, se tinham ganho posto que valia a pena, metamorfoseavam-se
em seres de postura firme e decidida. As cabeças, até
há pouco capazes de manobras normais, ganhavam, logo após
a nomeação, segundo um dos entrevistados de Kapuscinski,
"uma extraordinária limitação de movimentos,
passando a dispor de apenas dois: o de se voltar para o chão,
quando em presença do augusto senhor, e o de se voltar para
o alto, quando em presença das demais pessoas".
O nomeado precisava ter cuidado.
Nada de avançar reformas ou projetos audaciosos. Não
que o imperador os desprezasse. O que não se podia era ousar
passar-lhe à frente nas iniciativas. Se um ministro desejasse
introduzir modificações em sua área, era mister
fazer o imperador crer que a idéia tinha nascido de seu próprio
e privilegiado cérebro. "Para ser sincero, devo admitir que
o bondoso amo apreciava mais os maus ministros", conta um depoente.
Assim, ele ganhava chance "de se destacar, pelo contraste". Era
do agrado do imperador, por outro lado, que os ministros trabalhassem
em favor dos próprios patrimônios. "Não consigo
me lembrar de um só caso em que o gracioso monarca tenha
anulado uma promoção ou expulsado alguém do
palácio por corrupção", diz outro depoente.
A ordem era: "Corrompam-se à vontade, desde que permaneçam
leais a mim!".
Seria fácil trazer as
histórias do livro para circunstâncias mais próximas.
Se tivessem seguido a regra de nada escrever nem assinar documentos,
por exemplo, muitos personagens do presente escândalo brasileiro,
de Genoínos a Severinos, estariam em melhor situação,
e um ex-presidente seria poupado do constrangimento de pedir que
esquecessem o que escreveu. Mas não é o que vem ao
caso. O alcance do livro é muito maior. Embora tratando de
uma situação em particular, e das mais grotescas,
oferece lições sobre o poder valiosas como as de Maquiavel
em O Príncipe. Ao ser deposto, Selassié foi
conduzido até o pátio do palácio, onde estava
estacionado um Volkswagen. O oficial que o dirigia desceu, abriu
a porta, puxou o encosto do banco dianteiro e o convidou a acomodar-se
atrás. "O quê? Vocês esperam que eu entre num
carro desses?", reagiu ele. Foi seu único protesto. Aquilo
era o mais doloroso, em toda aquela situação.
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