Edição 1922 . 14 de setembro de 2005

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A rainha da cocada

Latoya, a negra inconformada com
sua negritude, garante a diversão
e a polêmica em A Lua Me Disse


Ricardo Valladares


Divulgação

"Sua vagabunda" e "você tem uma cara boa de bater" são algumas das frases nada carinhosas que a atriz Zezeh Barbosa tem ouvido na rua por causa de sua personagem Latoya, da novela A Lua Me Disse. Latoya é uma vilã contumaz: despejou a mãe de casa, despediu a irmã e virou laranja num esquema de corrupção. "Ela é como muitos brasileiros: quer se dar bem sem trabalhar", diz Miguel Falabella, que escreve a novela das 7 da Rede Globo em parceria com Maria Carmem Barbosa. Os xingamentos atestam que só a popular Dona Roma, vivida pelo ator Miguel Magno, é páreo para o sucesso de Zezeh no horário. "Nunca fui tão reconhecida", diz ela. Mas a característica que mais chama atenção na personagem é que ela abomina ser negra. Latoya (que assim se batizou em homenagem à irmã de Michael Jackson, a reformadíssima La Toya Jackson) se intitula afro-americana, alisa e clareia os cabelos e dorme com um pregador de roupa no nariz para afiná-lo. Sua incontinência verbal não tem limites: Latoya nunca perde a chance de desmerecer os negros. Até dois meses atrás, ela tinha como cúmplice em suas maldades a irmã Whitney (essa em tributo à esganiçada Whitney Houston), interpretada por Mary Sheila. Whitney, porém (só a da novela), está a caminho da redenção.

O nome verdadeiro de Latoya é Anastácia. "Mas isso é nome de escrava, e meu objetivo não é a senzala. Eu estou a fim é da casa-grande", explicou a personagem. As tiradas de Latoya causam polêmica no movimento negro. "Precisamos ser representados por personagens positivos, e essa é muito negativa", diz o militante paulista Daniel Teixeira. Há que reconhecer, no entanto, que Latoya encarna vários aspectos reais, ainda que desanimadores, da população negra brasileira – e fingir que gente como ela não existe é hipocrisia. Até o momento, felizmente, Latoya não foi vítima de nenhuma patrulha politicamente correta, como já ocorreu com outros personagens de A Lua Me Disse. Há duas semanas, os autores da novela levaram um pito do Ministério Público por causa dos esculachos sofridos por Índia – representada por uma descendente de nambiquaras. Já o homossexual interpretado por Agildo Ribeiro foi eliminado por causa das reclamações de grupos gays, que o consideravam caricato. "Bobagem dessa gente que não entende que esse tipo de homossexual existe. Eu conheço vários", diz Falabella. Na semana que vem, terá início o inevitável castigo de Latoya, que está envolvida numa CPI e com ordem de prisão decretada. Se depender do autor, ela fugirá para o Nordeste para trabalhar num circo como mulher-macaca. "Ela vai pagar mico. Ficará di-vi-na de peruca black power", diverte-se Falabella.

Filha de uma dona-de-casa e um serralheiro, a atriz Zezeh Barbosa cresceu com treze irmãos em Osasco, na Grande São Paulo. Aos 17 anos (ela diz hoje que tem "mais de 30"), saiu de casa para estudar arte dramática, bancando-se como operadora de telemarketing e atendente de cantina. Em 1996, Falabella viu seu desempenho no teatro e a chamou para atuar na novela Salsa e Merengue. Casada e mãe de um filho de 11 anos, ela dá de ombros para as acusações contra Latoya – até porque sabe o que é racismo de verdade. "Nunca me chamam para fazer comercial. Negro só aparece em propaganda lá no fundo", diz.

 

O Tirésias de meia-tigela

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Frota, como Jatobá: se conselho fosse bom...


Se A Lua Me Disse tem a atuação impagável de Zezeh Barbosa como a politicamente incorreta Latoya, América oferece um contraponto: o desempenho sofrível de Marcos Frota no papel do politicamente correto Jatobá. O personagem é uma versão de quinta categoria de Tirésias, o oráculo cego da mitologia grega: só se comunica por meio de frases de auto-ajuda. Jatobá já distribuiu lições do tipo "você deve ser você mesmo" e "a gente precisa amar o próximo" em quase todos os núcleos da novela das 8. Na semana passada, foi a vez de o chato de galochas "abrir os olhos" de Júnior (Bruno Gagliasso), o gay indeciso da cidade fictícia de Boiadeiros. Diante dessa cabeça confusa, Jatobá saiu-se com mais um conselho idiota: "Cuidado com suas escolhas. Você pode se arrepender depois".

 

 
 
 
 
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