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Brasil É
o fim da linha Empresário dá uma
entrevista demolidora, confirma o mensalinho e agora só falta
eleger o sucessor de Severino  Alexandre
Oltramari
Adam
Rountree/AP
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no documento para ampliá-lo | O
DOCUMENTO E AS VERSÕES Severino, ao discursar
na ONU, em Nova York, e o documento sobre o qual ele deu três versões diferentes
num só dia: quem tem três explicações sobre um fato não tem explicação nenhuma
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O desmonte do deputado Severino
Cavalcanti deu-se numa velocidade impressionante. Apenas cinco dias depois de
VEJA chegar às bancas com a capa "O mensalinho de Severino", o empresário
Sebastião Augusto Buani, concessionário de um restaurante na Câmara,
deu uma entrevista demolidora, confirmando o achaque do qual fora vítima
e isso após ser agraciado com manchetes em que negava tudo (Folha
de S.Paulo, na terça-feira: "Empresário nega ter pago mensalinho
a Severino". Severino, em Nova York: "O empresário já negou. Está
tudo terminado"). Na entrevista, dada na quinta-feira passada, Buani confirmou
ser o autor do relato batizado de "A história de um mensalinho". Confirmou
ter desembolsado 40.000 reais por um documento, inválido, que prorrogava
a concessão de seu restaurante até 2005. Confirmou que, depois disso,
passou a pagar uma propina mensal de 10 000 reais a Severino. Confirmou que as
propinas foram pagas ao longo de 2003. Confirmou que um dos pagamentos foi feito
em cheque do Bradesco e saldou a conta do cartão de crédito de Severino...
Na sua acachapante seqüência de confirmações,
Buani acabou desvelando um ângulo desconhecido: o notável desembaraço
do estadista de João Alfredo para achacar. Severino regateia, dissimula,
pressiona. Sabe a hora de dar um abatimento na propina e a hora de fincar o pé.
Sabe a hora de tensionar sua vítima e a hora de tranqüilizá-la.
É voraz, debochado. "Você vai me dar 20 000 reais por ano. São
três anos de contrato. Dá 60 000 reais", disse, ao fixar o preço
inicial do documento, que acabaria saindo por 40 000. "Deixe de ser chorão",
reclamou, na vez em que Buani tentou reduzir uma mordida. "Se você já
está rico, vai ganhar muito mais agora. Vê o que você pode
me ajudar", pediu, dissimulado, na negociação do mensalinho. Depois,
fixou preço: mensalinho de 20 000 reais. Buani conta: "Eu disse a ele que
não tirava 20 000 limpos. Queria que fosse 2 000 reais, mas não
teve jeito. Ele bateu o pé em 10 000 reais". Certa vez, Buani ficou horas
na ante-sala do gabinete de Severino. "Fiquei cinco horas pedindo para ele me
assinar uma coisa que era um direito meu. E ele lá... Falava ao telefone,
ria, saía da sala, voltava, me abraçava." Um deboche. Lula
Marques/Folha Imagem
 | O
CRAQUE DO ACHAQUE Buani se emociona na entrevista
e é consolado por sua mulher, Diana: Severino era um craque do achaque |
A
riqueza do relato de Buani mostra que Severino se comportava como um experimentado
achacador, mas do achaque pequeno, miúdo. Nos bastidores da corrupção
revelados pelo empresário, Severino emerge com a silhueta dos capatazes
descritos por seu grande conterrâneo Gilberto Freyre em Casa-Grande &
Senzala: um homem de interesses de aldeia, que sempre oferece servilismo aos
de cima e reserva um misto de carinho e chicote aos de baixo. É com essa
bagagem de capataz do Parlamento que Severino vai tentar agora salvar seu mandato,
mas sua situação é tão insustentável que a
crise se desanuviou, ficou cristalina: sabe-se exatamente onde estão as
forças do mal e onde estão as forças do bem. Antes da confissão
de Buani, o ex-gerente de seu restaurante Izeilton Carvalho entregou à
polícia cópia do documento que Severino assinou em troca de 40.000
reais o que já serviu de pá de cal para Severino, que, em
Nova York, deu três versões diferentes para explicar o tal documento.
Severino antecipou sua volta ao Brasil e mandou
dizer que estudava a idéia de afastar-se da presidência da Câmara
para responder às acusações as quais classificou como
"mentira, mentira, mentira" , mas esclareceu que nem cogitava renunciar
ao mandato para evitar a cassação. Cinco partidos políticos
(PSDB, PFL, PDT, PPS e PV) pedirão nesta semana a cassação
de Severino. Esperam receber a adesão de alas do PMDB, do PSB, do PC do
B e até mesmo do PT. Sim: como retrato acabado de sua decadência
ética e política, o PT aderiu à base de apoio a Severino
e ainda reluta em render-se à evidência de que o deputado não
tem nem condição de manter seu mandato, quanto mais de ficar na
presidência. Ana
Araujo
 | Dida
Sampaio/AE
 | ELEIÇÃO
À VISTA Izeilton, que depôs na PF, e a oposição:
sucessão aberta |
Em defesa de
Severino, o PT uniu-se à expressão do que há de pior na Câmara.
O deputado José Janene, o rei do mensalão, que tem pânico
de perder o mandato e vive ameaçando seus comparsas de contar tudo o que
sabe, fez uma defesa ardorosa de Severino. Acha que ele é vítima
olha ela aí de novo de uma "conspiração das
elites". O deputado João Caldas, o maior saltimbanco de legendas, momentaneamente
filiado ao PL, é outro que tomou a linha de frente da defesa de Severino.
Na semana passada, até arranjou advogados para elaborar uma estratégia
para salvar Severino da degola. O deputado Ciro Nogueira, afilhado de Severino
e corregedor da Câmara, finalmente admitiu a gravidade das denúncias
depois de ouvir a entrevista de Buani, mas chegou ao disparate de supor que tudo
se resolve caso Severino deixe o comando da Câmara. Seria mais ou menos
como dizer ao eleitorado que é inadmissível um presidente da Câmara
sair achacando empresários mas é compreensível que isso aconteça
caso o deputado não seja presidente da Câmara.
A queda de Severino é tão inevitável que sua sucessão
já foi aberta. Como tradicionalmente a presidência da Câmara
cabe à maior bancada e a maior bancada é do PT, logo do PT
, existem articulações para que o novo presidente seja um
nome da base governista sem respingos do pântano do mensalão. São
favoritos, nessa hipótese, os ex-ministros Eduardo Campos, do PSB de Pernambuco,
e Aldo Rebelo, do PC do B de São Paulo. A oposição
a mesma que elegeu Severino e agora está escandalizada com Severino
dividiu-se. Os tucanos e os pefelistas querem a troca imediata no comando da Câmara,
mas tanto o PSDB quanto o PFL gostariam de sentar-se na cadeira de presidente.
Porque ambos já estão de olho na sucessão presidencial de
2006, na qual esperam ser protagonistas, e para isso é bom ter o presidente
da Câmara ao lado. Como se vê, em política, definitivamente,
não existe espaço vazio. Com
reportagem de Otávio Cabral |