Edição 1922 . 14 de setembro de 2005

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Brasil
É o fim da linha

Empresário dá uma entrevista demolidora,
confirma o mensalinho – e agora só falta
eleger o sucessor de Severino


Alexandre Oltramari

 
Adam Rountree/AP
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O DOCUMENTO E AS VERSÕES
Severino, ao discursar na ONU, em Nova York, e o documento sobre o qual ele deu três versões diferentes num só dia: quem tem três explicações sobre um fato não tem explicação nenhuma


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Sentença em noventa dias

EXCLUSIVO ON-LINE
Noticias diárias do Congresso

O desmonte do deputado Severino Cavalcanti deu-se numa velocidade impressionante. Apenas cinco dias depois de VEJA chegar às bancas com a capa "O mensalinho de Severino", o empresário Sebastião Augusto Buani, concessionário de um restaurante na Câmara, deu uma entrevista demolidora, confirmando o achaque do qual fora vítima – e isso após ser agraciado com manchetes em que negava tudo (Folha de S.Paulo, na terça-feira: "Empresário nega ter pago mensalinho a Severino". Severino, em Nova York: "O empresário já negou. Está tudo terminado"). Na entrevista, dada na quinta-feira passada, Buani confirmou ser o autor do relato batizado de "A história de um mensalinho". Confirmou ter desembolsado 40.000 reais por um documento, inválido, que prorrogava a concessão de seu restaurante até 2005. Confirmou que, depois disso, passou a pagar uma propina mensal de 10 000 reais a Severino. Confirmou que as propinas foram pagas ao longo de 2003. Confirmou que um dos pagamentos foi feito em cheque do Bradesco e saldou a conta do cartão de crédito de Severino...

Na sua acachapante seqüência de confirmações, Buani acabou desvelando um ângulo desconhecido: o notável desembaraço do estadista de João Alfredo para achacar. Severino regateia, dissimula, pressiona. Sabe a hora de dar um abatimento na propina e a hora de fincar o pé. Sabe a hora de tensionar sua vítima e a hora de tranqüilizá-la. É voraz, debochado. "Você vai me dar 20 000 reais por ano. São três anos de contrato. Dá 60 000 reais", disse, ao fixar o preço inicial do documento, que acabaria saindo por 40 000. "Deixe de ser chorão", reclamou, na vez em que Buani tentou reduzir uma mordida. "Se você já está rico, vai ganhar muito mais agora. Vê o que você pode me ajudar", pediu, dissimulado, na negociação do mensalinho. Depois, fixou preço: mensalinho de 20 000 reais. Buani conta: "Eu disse a ele que não tirava 20 000 limpos. Queria que fosse 2 000 reais, mas não teve jeito. Ele bateu o pé em 10 000 reais". Certa vez, Buani ficou horas na ante-sala do gabinete de Severino. "Fiquei cinco horas pedindo para ele me assinar uma coisa que era um direito meu. E ele lá... Falava ao telefone, ria, saía da sala, voltava, me abraçava." Um deboche.

 

Lula Marques/Folha Imagem
O CRAQUE DO ACHAQUE
Buani se emociona na entrevista e é consolado por sua mulher, Diana: Severino era um craque do achaque

A riqueza do relato de Buani mostra que Severino se comportava como um experimentado achacador, mas do achaque pequeno, miúdo. Nos bastidores da corrupção revelados pelo empresário, Severino emerge com a silhueta dos capatazes descritos por seu grande conterrâneo Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala: um homem de interesses de aldeia, que sempre oferece servilismo aos de cima e reserva um misto de carinho e chicote aos de baixo. É com essa bagagem de capataz do Parlamento que Severino vai tentar agora salvar seu mandato, mas sua situação é tão insustentável que a crise se desanuviou, ficou cristalina: sabe-se exatamente onde estão as forças do mal e onde estão as forças do bem. Antes da confissão de Buani, o ex-gerente de seu restaurante Izeilton Carvalho entregou à polícia cópia do documento que Severino assinou em troca de 40.000 reais – o que já serviu de pá de cal para Severino, que, em Nova York, deu três versões diferentes para explicar o tal documento.

Severino antecipou sua volta ao Brasil e mandou dizer que estudava a idéia de afastar-se da presidência da Câmara para responder às acusações – as quais classificou como "mentira, mentira, mentira" –, mas esclareceu que nem cogitava renunciar ao mandato para evitar a cassação. Cinco partidos políticos (PSDB, PFL, PDT, PPS e PV) pedirão nesta semana a cassação de Severino. Esperam receber a adesão de alas do PMDB, do PSB, do PC do B e até mesmo do PT. Sim: como retrato acabado de sua decadência ética e política, o PT aderiu à base de apoio a Severino e ainda reluta em render-se à evidência de que o deputado não tem nem condição de manter seu mandato, quanto mais de ficar na presidência.

 
Ana Araujo
Dida Sampaio/AE
ELEIÇÃO À VISTA
Izeilton, que depôs na PF, e a oposição: sucessão aberta

Em defesa de Severino, o PT uniu-se à expressão do que há de pior na Câmara. O deputado José Janene, o rei do mensalão, que tem pânico de perder o mandato e vive ameaçando seus comparsas de contar tudo o que sabe, fez uma defesa ardorosa de Severino. Acha que ele é vítima – olha ela aí de novo – de uma "conspiração das elites". O deputado João Caldas, o maior saltimbanco de legendas, momentaneamente filiado ao PL, é outro que tomou a linha de frente da defesa de Severino. Na semana passada, até arranjou advogados para elaborar uma estratégia para salvar Severino da degola. O deputado Ciro Nogueira, afilhado de Severino e corregedor da Câmara, finalmente admitiu a gravidade das denúncias depois de ouvir a entrevista de Buani, mas chegou ao disparate de supor que tudo se resolve caso Severino deixe o comando da Câmara. Seria mais ou menos como dizer ao eleitorado que é inadmissível um presidente da Câmara sair achacando empresários mas é compreensível que isso aconteça caso o deputado não seja presidente da Câmara.

A queda de Severino é tão inevitável que sua sucessão já foi aberta. Como tradicionalmente a presidência da Câmara cabe à maior bancada – e a maior bancada é do PT, logo do PT –, existem articulações para que o novo presidente seja um nome da base governista sem respingos do pântano do mensalão. São favoritos, nessa hipótese, os ex-ministros Eduardo Campos, do PSB de Pernambuco, e Aldo Rebelo, do PC do B de São Paulo. A oposição – a mesma que elegeu Severino e agora está escandalizada com Severino – dividiu-se. Os tucanos e os pefelistas querem a troca imediata no comando da Câmara, mas tanto o PSDB quanto o PFL gostariam de sentar-se na cadeira de presidente. Porque ambos já estão de olho na sucessão presidencial de 2006, na qual esperam ser protagonistas, e para isso é bom ter o presidente da Câmara ao lado. Como se vê, em política, definitivamente, não existe espaço vazio.

Com reportagem de Otávio Cabral

 
 
 
 
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