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Conjuntura
O Brasil desarmou a bomba

Carlos Rydlewski e Victor Martino
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Entre tantas perguntas ao vento
levantadas pelo estouro da quadrilha de petistas que assaltava o
Estado, é reconfortante saber que pelo menos para uma delas
existe resposta: por que a crise política não detona
a economia e o Brasil parece funcionar até melhor enquanto
os políticos estão preocupados apenas em manter a
cabeça sobre o pescoço? A resposta, quase uma unanimidade
entre os analistas brasileiros e estrangeiros, é que o Brasil
mudou muito e para melhor. A explicação acima se assenta
sobre três pontos essenciais. O primeiro e mais imediato é
a robustez dos números da chamada macroeconomia: o saldo
da balança comercial atingirá 40 bilhões de
dólares e os juros altos funcionam como fator de atração
de moeda forte, que anda farta no mercado externo. O segundo, justiça
seja feita, deve-se ao fato de que o governo Lula manteve e aperfeiçoou
a ordem econômica deixada a ele como um legado pelos tucanos.
Enquanto ainda governava, Lula fez passar no Congresso a reforma
(possível) da Previdência e uma boa Lei de Falências.
O terceiro e mais importante pilar da resposta diz respeito a uma
lenta e silenciosa revolução pela qual o Brasil vem
passando desde o final dos anos 80 e que agora começa a dar
seus frutos.
É uma revolução
cultural, de costumes, de práticas empresariais e de fortalecimento
das instituições, que resultou numa diminuição
drástica do poder dos governantes de produzir desastres econômicos.
Resume o economista Maílson da Nóbrega: "Estamos vivendo
um ciclo virtuoso, em que a economia não sente os efeitos
da crise política e isso, por seu turno, desestimula aventuras
econômicas. Além, é claro, de cortar em muito
as chances de que um candidato populista venha a empolgar os eleitores
na campanha presidencial do ano que vem". Os gregos já diziam
há 6.000 anos que de nenhum homem se pode dizer que teve
uma vida feliz enquanto ele não morrer serenamente. Sábio
enunciado. Muitas vezes, no passado, os brasileiros imaginaram ter
atingido um grau civilizatório tal que nos blindava contra
infelicidades políticas e econômicas apenas
para sermos desmentidos pela realidade meses depois. Foi assim com
a redemocratização e com os inúmeros planos
econômicos com que se tentou, em vão, estabilizar a
economia. Mas houve exceções. Uma delas foi o Plano
Real, que não apenas debelou a inflação como
embicou o país rumo a um futuro mais previsível. Tudo
indica que o momento atual não é fortuito ou passageiro,
mas o indício de um amadurecimento institucional de bases
sólidas.
Salomon Cytrynowicz
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RETRATO SOMBRIO
Reunião da cúpula do CIP, em 1979: o órgão
analisava 1 200 pedidos de aumento de preços todo mês
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Não se trata de uma convicção
subjetiva. Ela vem dos fatos. Desde maio, quando se divulgou a primeira
denúncia de corrupção nos Correios, os investidores
só aumentaram suas apostas em favor do Brasil, e não
contra. O dólar está em 2,3 reais, abaixo dos 2,47
reais registrados no início da crise. O índice de
valorização da Bolsa de Valores de São Paulo
aumentou de 23.887 pontos em maio para 29 307 pontos verificados
na sexta-feira passada. O mesmo aconteceu com o risco-país,
aquele indicador do grau de confiança dos investidores em
países emergentes, que caiu de 445 pontos antes da crise
para 386 pontos hoje. Quanto menor o risco-país, maior a
confiança. Para ilustrar a atual situação em
que economia e política andam em vias separadas e antagônicas,
VEJA ouviu especialistas e fez uma enquete entre as cinqüenta
maiores empresas privadas brasileiras. As conclusões são
reconfortantes. A opinião da maioria do setor coincide com
a dos analistas. Ambas as manifestações apontam para
o fato de que a integração do Brasil aos mercados
mundiais, somada à evolução institucional,
podou os poderes explosivos de Brasília sobre a vida econômica
do país. Ou seja, os políticos, para ficarmos aqui
na expressão do saudoso Severino Cavalcanti, "recolheram-se
a sua insignificância". Isso não significa que a política
tenha se tornado uma atividade menos vital. Não. Simplesmente,
a política perdeu o poder de conduzir a seu bel-prazer os
rumos econômicos da nação. A se confirmar essa
tese, o Brasil terá atingido o estágio evolutivo que
os Estados Unidos vivenciaram sob o governo Ronald Reagan (1981-1989).
A chacoalhada do presidente americano foi suficiente para colocar
uma pá de cal nas atitudes irracionais dos governos, assim
descritas por ele: "Se uma empresa progride, toque imposto nela.
Se ela continuar progredindo, cerque-a com regulamentos. Quando
ela, finalmente, parar, dê-lhe subsídios".
Os governos perderam esse poder
de vida e morte sobre as economias. No Brasil, para entender o alcance
dessa nova realidade, é útil lembrar que, há
25 anos, dirigentes-bomba instalados em Brasília, com poderes
imperiais, promoviam confiscos, congelamentos de preços e
vasta gastança. Só faziam isso porque tinham à
mão ampla artilharia. Eis alguns exemplos:
Nos anos 80, o ministro da Fazenda autorizava despesas, expandia
a dívida pública e distribuía subsídios.
Tudo por fora dos controles do Orçamento. Para isso, usava
as armas do Conselho Monetário Nacional (CMN). O órgão
chegou a ter 725 atribuições quase 700 delas
de gasto. Hoje, tem basicamente três todas de controle
de gastos.
O Conselho Interministerial de Preços (CIP), que funcionou
entre 1968 e 1991, mantinha 330 funcionários para realizar
uma operação surreal de analisar mensalmente 1.200
pedidos de aumentos, feitos por empresas fabricantes de 21 categorias
de produtos. Esse poder absurdo do Estado tornava desnecessário
para as empresas investir em produtividade. Elas não se preocupavam
em competir mas em convencer o CIP de que seu produto poderia ser
vendido a um preço maior. O CIP não existe mais.
Roberto Stuckert/PR
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O ÚNICO
RITMO
Lula com o nigeriano: crise não vai mudar os
rumos da economia |
Quem melhor entendeu a tendência
dos governos de extrapolar de suas funções de fiscalizador
dos mercados e normatizador da economia foi o economista escocês
Adam Smith (1723-1790), autor da obra básica de sua especialidade,
Natureza e Causa da Riqueza das Nações. Smith dizia
que "não existe arte mais desenvolvida nos governos do que
a de aprender com outros governos novas maneiras de arrancar dinheiro
do bolso das pessoas". No fundo, é isso que está em
jogo no amadurecimento institucional: as pessoas aprendem maneiras
de impedir que o governo enfie as mãos nos seus bolsos e
destrua a prosperidade. Nos últimos vinte anos, na imensa
maioria dos países ocidentais as sociedades deram um basta
à ousadia insana dos governos na política e na economia.
O filósofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831) certamente
ficaria espantado com essa vitória da sociedade sobre os
governos. Hegel dizia que "o povo é aquela parte do Estado
que não sabe o que quer".
Nos anos 90, num mundo já
plenamente envolvido pela revolução digital, o fechamento
do mercado brasileiro tinha o mesmo efeito das górgones da
mitologia grega: petrificava quem olhasse para a inovação,
para a troca de idéias, para o acesso a novos mercados, para
a importação de máquinas mais eficazes e matérias-primas
que poderiam dar novo impulso à produção nacional.
Pois bem, no decorrer dos anos 90 o povo brasileiro começou
a saber o que queria e, em boa medida, o que ele quer não
é exatamente o que os governantes são capazes de entregar.
Duas mudanças ocorridas
nos últimos vinte anos foram fundamentais para a construção
da "tranqüilidade sistêmica" nacional. Foram elas o controle
da inflação, a partir de 1994, e o processo de abertura
da economia, iniciado nos anos 90. O primeiro trouxe a economia
brasileira à razão. Já a abertura comercial
lançou as empresas brasileiras ao mundo real de competitividade.
Os resultados são palpáveis.
A produtividade da indústria nacional cresceu 80% nos anos
90.
Estudo do Banco Mundial indica ainda que a renda per capita nos
países em desenvolvimento que se lançaram ao mercado
mundial cresceu, em média, 4,8% na mesma década. Nas
nações fechadas, o ritmo foi bem menor. Ficou em 1,5%.
Na semana passada, o Ministério da Fazenda divulgou que,
entre 1996 e 2000, as indústrias que usaram insumos importados
elevaram a produtividade em 50%.
Incentivado pela bem-sucedida
abertura para o exterior que os números acima demonstram,
o Ministério da Fazenda do governo atual quer reduzir ainda
mais a tarifa máxima de importação passando-a
dos atuais 35% para 10,5% num prazo de dez anos. A idéia
é provocar um novo choque de produtividade pela exposição
ainda mais desassombrada à competição externa.
A história recente do Brasil mostra que há mais ganhos
do que riscos em uma medida dessa natureza. O cenário internacional
parece muito adequado. O mundo cresce a taxas surpreendentes. A
média de expansão em 2004 foi de 5,1%. Em 2005, deve
ficar em 4,3%, um pouco abaixo, mas ainda assim expressiva. No front
doméstico, a sobranceira atitude da economia perante a crise
política também sugere que não há muito
que temer de solavancos internos ou externos. "A solidez das instituições
que dão sustentação à política
econômica é mais vital do que a conjuntura. A crise
política teria derrubado a economia se a inflação
estivesse em alta, o crescimento errático e não houvesse
controle de gastos do governo", diz o economista Fábio Giambiagi.
Em termos institucionais, a abertura
para o exterior é uma garantia de aprimoramento constante
tanto na esfera governamental quanto na das empresas privadas. Os
escândalos contábeis da Enron e da MCI WorldCom levaram
à aprovação em 2002 da lei americana proposta
pelo senador Paul Sarbanes e pelo deputado Michael Oxley. A lei,
conhecida como Sarbanes-Oxley, ou apenas SarBox e, mais recentemente,
Sox, protege os investidores contra crimes contábeis perpetrados
pelas corporações. A SarBox abriu a caixa-preta das
empresas americanas com ações nas bolsas e agora começa
a ter seu efeito depurador espalhado pelo mundo. Toda empresa estrangeira
que queira vender papéis em Wall Street ou simplesmente captar
recursos no mercado financeiro americano tem de provar que opera
de acordo com as exigências daquela lei de nome esquisito
mas de resultados práticos muito simples e positivos. O texto
legal prevê multa de até 5 milhões de dólares
e cadeia de até vinte anos para quem sair da linha e lesar
investidores. Suas determinações visam principalmente
a impedir que os executivos possam disfarçar seus eventuais
crimes financeiros. Enquadrar-se nessa lei dá a qualquer
empresa uma imagem mais confiável de boa governança
corporativa. Estudo da consultoria McKinsey mostra que, na Indonésia,
os investidores pagariam até 31% a mais por ações
de empresas transparentes. No Brasil, gatariam 24% a mais. A enquete
de VEJA com as cinqüenta maiores empresas privadas do país
mostrou que metade delas já se mexeu para viver sob as exigências
da lei SarBox. Qual seria o papel dos governos, nesse mundo, que
parece manter estados e empresas andando na linha quase que de maneira
mágica? O de simples "vigia noturno", como defeniam os liberais?
Será que o governo só deve mesmo entrar em ação
para proteger a propriedade privada quando as pessoas estão
dormindo? Essa é uma discussão que já foi mais
difícil. Por enquanto, basta nos contentarmos com o fato
de que, ao que tudo indica, aventureiros e populistas encontrarão
barreiras cada vez mais intransponíveis para chegar ao Palácio
do Planalto.
Com reportagem de
Chrystiane Silva,
Carina Nucci e Francisco Mendes
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A crise é menor vista de fora
Os estrangeiros estão ainda
mais otimistas que os brasileiros quanto à capacidade
da economia de resistir à crise política.
Ricardo Santiago, representante do Banco Interamericano
de Desenvolvimento na Europa, acredita que no Brasil
a dinâmica da economia adquiriu força muito
semelhante à que tem nos países ricos.
Diz ele: "A economia já é capaz no Brasil
de moldar presidentes e ministros. Os aventureiros acabam
entrando nos eixos". A economista francesa Christine
Peltier, do Banco BNP Paribas, de Paris, monitora hora
a hora o desempenho da economia brasileira. Suas análises
têm sido invariavelmente favoráveis a investimentos
no Brasil. Afirma Christine: "A perspectiva da continuidade
da política econômica transmite confiança
em quem investe a longo prazo no Brasil". Ricardo Amorim,
diretor de pesquisa de investimento para América
Latina do banco alemão WestLB em Nova York, também
é responsável por produzir um relatório
diário sobre o Brasil. Amorim diz que as boas
notícias do mundo real sobrepujam em força
os escândalos brasilienses. Diz ele: "A geração
de empregos em expansão e o aumento da renda
dos últimos meses, em conjunto com a queda da
inflação, criarão condições
para cortes de juros a partir de setembro ou no máximo
em outubro".
Os europeus estão
acostumados a assistir a crises geradas pela descoberta
de financiamentos ilícitos de partidos políticos
com enriquecimento de seus membros sem que elas afetem
a economia. Em 1992, no auge do maior escândalo
de corrupção do continente, conhecido
como Mani Pulite Mãos Limpas , os
italianos escutaram do ex-primeiro-ministro socialista
Bettino Craxi, corrompido até o pescoço,
uma linha de defesa similar à que os petistas
vêm utilizando: ou seja, a corrupção
é endêmica, histórica, e culpar
o atual partido no poder por ela é injusto. Como
se sabe, não houve fuga de capital estrangeiro
aplicado na Itália. Os investidores nacionais
e estrangeiros fizeram suas contas e chegaram à
conclusão de que a Itália era maior do
que seus governantes. Quem fugiu foi Craxi. Morreu no
exílio na Tunísia. Se o exemplo pega,
o charter dos petistas em fuga seria um espetáculo
à parte.
Antonio Ribeiro, de
Paris
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