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Entrevista:
Roseana Sarney "Eu
não me entrego" Em casa,
de licença médica, a senadora, que já passou por dezoito
cirurgias, conta como convive com seus problemas de saúde
 Sandra
Brasil
Leo Caldas/Titular
 | "O
melhor momento da cirurgia é quando vou tomar anestesia. Entro num barato
total" | |
Enquanto Brasília é sacudida por um turbilhão político,
a senadora Roseana Sarney (PFL-MA) está recolhida em casa, em São
Luís, em mais um tratamento médico, dos muitos a que teve de se
submeter em sua vida. Roseana foi operada pela primeira vez em 1973, aos 19 anos,
para remover o apêndice e um cisto no ovário. Em 1977 e 1979, tentando
engravidar, passou por mais duas cirurgias de ovário. De lá para
cá, submeteu-se outras quinze vezes ao bisturi só nos últimos
sete anos foram nove cirurgias (duas em 2005), totalizando cerca de oitenta dias
de hospital. "Os problemas estão ficando mais constantes, e isso inclusive
vem atrapalhando este meu mandato", avalia a senadora, que em março foi
convidada num dia e desconvidada no outro para o cargo de ministra-chefe da Coordenação
Política do governo Lula. Na biblioteca da casa que o pai, o senador José
Sarney, lhe deu na Praia do Calhau, onde passa o tempo jogando baralho ("pontinho
e buraco") com a família e brincando com os netos Fernanda, 6 anos, e Rafael,
4, Roseana falou a VEJA sobre sua infindável seqüência de internações
e cirurgias. Mesmo longe do Congresso, os contatos políticos continuam:
durante a entrevista, três deputados telefonaram para saber se o objetivo
da conversa era anunciar seu rompimento com o governo.
Veja Qual a explicação médica
para tantos problemas de saúde? Roseana Não
existe uma explicação. É o meu organismo, é o destino...
Não sou uma pessoa infeliz, não encaro isso como uma tragédia
e nunca deixei de fazer os meus projetos. Em quase todas as minhas campanhas,
fico um tempo de cama por causa da saúde. Já teve campanha em que
fiz um único comício. Em 2002, gravei uma cena para a campanha do
Lula no segundo turno da cama do hospital. Veja
Quantas cirurgias a senhora já fez? Roseana
Dezoito. A primeira aconteceu em Genebra, na Suíça, quando eu tinha
19 anos. Tiraram o meu apêndice e um cisto de ovário. A situação
mais grave foi em 1998: depois de retirarem nódulos de pulmão, ovários,
útero, trompas e ductos mamários, tiveram de abrir de novo por causa
de aderências no intestino. Além dessas, fiz outras três cirurgias
de mama, duas de intestino, uma no joelho, duas de ovário e outras para
corrigir aderências. As duas mais recentes foram no começo deste
ano, para tratar de uma fístula no reto. Tirei licença em junho
para finalizar esse tratamento, com nova cirurgia agendada para julho, mas como
melhorei muito os médicos acharam melhor me deixar em observação
por enquanto. A cada vinte dias, um médico da equipe do doutor Raul Cutait
(cirurgião gastrointestinal de São Paulo) vem a São
Luís me examinar. Tenho também um nodulozinho na mama, detectado
em março, e outro na tireóide, que estão sendo monitorados.
A minha sorte é que até hoje não tive câncer, porque
sempre descubro os tumores antes que se transformem na doença. Estou nas
mãos dos meus médicos, uma espécie de junta que trata de
todos os meus problemas, mesmo os que não são sua especialidade.
Já pensou se tivesse de contar minha história a um médico
novo? Veja Em
algum momento a senhora chegou a ser desenganada? Roseana
Sim, na quarta vez em que fui para a mesa de operação em 1998. Eu
estava muito debilitada por causa das três cirurgias anteriores e tive novamente
problemas de aderência. Meu organismo parou. A certa altura, o doutor Adib
Jatene (cardiologista) saiu da sala de cirurgia e disse ao meu pai que
a situação era muito difícil. Ele desabou e foi rezar. O
doutor Pinotti (José Aristodemo Pinotti, ginecologista), que também
fazia parte da junta médica, me contou depois que chegou um momento em
que, no meio da cirurgia, ele disse para a equipe: "Vamos parar, sentar dez minutos
e pensar no que fazer". E eu lá, desacordada e com a barriga aberta. Resolveram
testar um medicamento experimental para combater aderências que tinha sido
mandado dos Estados Unidos, à base de ácido hialurônico, que
é usado normalmente para preencher rugas. Eu, em vez de aplicar no rosto,
apliquei na barriga, e por isso digo que ela nunca vai envelhecer (risos).
Nem sei se o medicamento já havia sido aprovado. Mas deu muito certo.
Veja Foi por causa
das cirurgias que a senhora nunca engravidou? Roseana Olha,
eu cheguei a fazer duas cirurgias só para tentar engravidar. Na segunda,
em 1979, o médico viu que eu tinha muitas aderências abdominais e
sugeriu que buscasse tratamento em São Paulo. No fim daquele ano, achei
que não valia a pena enfrentar tanta confusão e resolvi parar de
tentar e adotar a minha filha (Rafaela, hoje com 25 anos). Ela era prematura
e teve de passar sete dias na incubadora. Quando ela saiu, foi como um nascimento...
E ela era a minha cara. Três anos depois me deram o veredicto final: se
engravidasse, seria uma gravidez de alto risco por causa da grande quantidade
de cirurgias. Aprendi a conviver com a idéia, com muita tristeza, claro.
Decidi esquecer e cuidar da saúde. Veja
A senhora faz terapia? Roseana Não,
nunca fiz. Nunca senti pena de mim. O que acontece comigo são provações
de Deus. Às vezes, acho que é demais, sim, mas tento pensar que
é melhor que seja comigo do que com outra pessoa que não possa pagar
tratamento médico. Veja
Seu corpo tem muitas cicatrizes? Roseana Várias,
sendo a maior na barriga. Elas quase não me incomodam mais e foram melhorando,
porque a cada nova operação vai um cirurgião plástico
junto para dar um trato. Eu queria mesmo era fazer uma plástica na barriga,
mas um dos meus médicos, o David (Uip, infectologista), disse que,
se eu tentar, ele senta em cima da minha barriga para impedir. Gostaria de fazer
uma operação para me embelezar. Até agora, tudo foi para
tirar pedaço. Tenho a mama direita menor que a esquerda, mas isso não
me incomoda. Aliás, na última cirurgia de seios, eu disse para o
doutor Pinotti: "Estou com 50 anos. Não quero mais ter peito. Tira logo
tudo". Mas ele não tirou. Veja
E tratamento estético, já fez algum? Roseana
Em 2000, quando operei o joelho, o cirurgião plástico
aproveitou para fazer uma lipo na região interna das coxas e preenchimento
na linha em volta da boca. Esta, ele disse que eu tinha de repetir de seis em
seis meses, mas nunca mais fiz. Ainda não pinto o cabelo, o que acho que
deve ser conseqüência da grande quantidade de anestesia que já
tomei. Pelo menos uma coisa boa as anestesias e aplicações de morfina
trouxeram: devem ter retardado meu envelhecimento (risos).
Veja A senhora é uma paciente indisciplinada,
do tipo que não segue a orientação dos médicos? Roseana
Não. Eu confio nos médicos, faço o que precisar
ser feito. E não me entrego. Não existe possibilidade de eu achar
que estou morrendo. A morte vai me pegar, se Deus quiser, dormindo. Não
vou me entregar tão cedo. Veja
Depois de cirurgias mais delicadas, a senhora pedia para ser dopada
por causa da dor? Roseana Todas as noites, para poder dormir,
eu ficava esperando ansiosamente pela injeção de Dormonid. Era o
momento feliz. Eu só acordava às 6 da manhã. Além
disso, já tomei muita morfina. No hospital, tem um aparelhinho que, quando
a dor fica demais, a gente aperta e a morfina vem. Dá uma aceleração
danada no coração. Eu evito usá-lo. Agüento o máximo
de dor possível e só o aciono quando estou muito ruim. As dores
físicas que senti foram muito fortes, mas nada me tira a alegria e a vontade
de viver. Depois que o trauma vai passando, você vai fazendo coisas que
não devia, como fumar. Veja
A senhora não conseguiu parar de fumar? Roseana
Não tenho planos de parar. Eu passei a fumar menos, passei a
administrar. Até a cirurgia de pulmão eu fumava um maço e
meio por dia. Agora, passo até três dias sem fumar. Negociei com
meus médicos até dez cigarros por dia. Quando eles viram que é
uma coisa que me faz bem, aceitaram. Se bem que, de vez em quando, numa roda de
violão, eu passo dos dez. Veja
Que seqüelas as cirurgias lhe deixaram? Roseana
São muitas. Por exemplo, passei dois anos sentindo terríveis dores
de cabeça, até descobrir que eram seqüela da operação
de 1982 em que retiraram mais de 1 metro de intestino. Houve uma descalcificação
da coluna que provocou microfraturas no pescoço, que causam a dor de cabeça.
Agora, faço reposição de cálcio diária pelas
narinas, com uma bombinha. Tenho ainda uma tendinite no pescoço, em conseqüência
dos tubos usados nas cirurgias. Uso pescoceira como proteção quando
faço viagens de carro e joelheira quando vou ficar muito tempo em pé.
Veja Tem um
melhor e um pior momento na cirurgia? Roseana O melhor momento
é quando vou tomar anestesia. Entro num barato total. Vou tomando e me
desligando. O pior é quando vou para a sala de cirurgia. Dou a mão
para Deus. Veja
Que episódio ocorrido no hospital a senhora nunca esquece? Roseana
Em 1998, de novo. A quarta e mais delicada cirurgia daquele ano aconteceu
em 12 de julho, dia da final da Copa do Mundo entre Brasil e França. Estava
voltando da anestesia quando ouvi uma enfermeira dizer para a outra: "O Brasil
está perdendo de 2 a 0". Veja só: todo mundo estava na maior tristeza.
E eu senti uma felicidade imensa, porque percebi que estava viva.
Veja A essa altura, a senhora deve saber
tudo sobre hospitalizações. Roseana Brinco
que vou fazer um manual do paciente. Quando entro na UTI, sei mexer em tudo. Digo
para as enfermeiras: "Cuidem dos outros pacientes, que estão piores que
eu". Para dor nas costas, peço logo bolsa de água quente e um fisioterapeuta.
Outra coisa que aprendi é que massagem no pé é importantíssima.
Toda vez que volto da anestesia, ganho uma. Dá um imenso bem-estar. E quando
vou visitar algum doente também faço massagem nos pés dele.
Sempre que vou ser operada, levo o meu travesseiro e dois saquinhos com mais de
cinqüenta medalhinhas de santos, terços, escapulários e rezas.
Em um deles está um cordão com as minhas medalhas de estimação,
que não posso mais usar por causa das lesões no pescoço.
Veja Do que a senhora
teve de se privar por causa da saúde? Roseana Deixei
todos os meus hobbies. A única coisa que eu ainda faço é
jogar baralho. Eu gostava de jogar vôlei na praia, de bater bola. Não
faço mais trilha de jipe. Minha moto está guardada. Não posso
mais dormir de barriga para cima, por causa do pescoço. Mandei transformar
os meus colares em broches. Bolsa, só uso se for do tipo mochila. Salto
alto, raramente. Ando de tênis a maior parte do tempo. De um mesmo modelo
em couro, tenho dez pares de cores diferentes.
Veja A senhora tem momentos de rebeldia? Roseana
A minha rebeldia, que os médicos aceitam, é só
o cigarro. Já tive de passar seis meses comendo purê de batata com
carne moída e só saí da dieta uma vez: numa festa de criança,
fiquei enlouquecida por brigadeiro, peguei um e fui comer no banheiro. Foi o melhor
brigadeiro da minha vida. Depois das cirurgias de intestino, sempre tive de fazer
dieta. Na última, de janeiro, os médicos me autorizaram a tomar
sorvete dietético. Pois tomei e tive diarréia!
Veja O que a senhora aprendeu depois de tantas
cirurgias? Roseana Que quem se entrega se acaba. Você
não pode abandonar os seus planos de vida. Quando aparece uma doença,
penso: isso surgiu para que eu adquira mais força para fazer aquilo mais
adiante. Quando consigo sair de uma complicação, eu me sinto uma
supermulher. Veja
Isso se aplica às disputas políticas? Roseana
Claro. Não existe isso de dizer "se perder uma eleição, eu
me acabo". Se eu perder uma eleição, vou ter outra para enfrentar.
Não é o fim do mundo. O episódio de 2002, aquela armação
eleitoreira em que exibiram 1,3 milhão de reais achados no cofre da empresa
do meu marido com o propósito de remover meu nome da lista de presidenciáveis,
me machucou de forma intensa, mas passageira. Se eu não tivesse sentido
tantas dores físicas muito piores, talvez tivesse me abalado mais. Eu não
planejava ser candidata a presidente, mas é claro que gostei de ver o meu
nome subindo nas pesquisas. Não deu certo. Fui eleita senadora e o dinheiro
nos foi devolvido pela Justiça. Na época, foi trágico. Três
anos depois, não acho que tenha sido tão ruim.
Veja Para a senhora, que no começo
do ano dormiu ministra do governo Lula e acordou sem o cargo, como é estar
longe de Brasília neste momento de crise? Roseana
Deus ajuda, né? Eu não vou lhe dizer que não queria ser ministra.
Queria, sim. Ofereceram-me a coordenação política, coisa
que eu adoro fazer. Ouvi muita gozação dos colegas que me chamavam
de "quase-ministra". Agora, olha a confusão que está aí.
Veja Quais
os seus planos para o futuro? Roseana Continuar. Tenho os
meus sonhos e olho para a frente. Quero ter mais um mandato de governadora e depois
pretendo parar, ser avó e ter um tempo para mim. |