Edição 1922 . 14 de setembro de 2005

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Entrevista: Roseana Sarney
"Eu não me entrego"

Em casa, de licença médica, a senadora, que
já passou por dezoito cirurgias, conta como
convive com seus problemas de saúde


Sandra Brasil

 

Leo Caldas/Titular

"O melhor momento da cirurgia é quando vou tomar anestesia. Entro num barato total"

Enquanto Brasília é sacudida por um turbilhão político, a senadora Roseana Sarney (PFL-MA) está recolhida em casa, em São Luís, em mais um tratamento médico, dos muitos a que teve de se submeter em sua vida. Roseana foi operada pela primeira vez em 1973, aos 19 anos, para remover o apêndice e um cisto no ovário. Em 1977 e 1979, tentando engravidar, passou por mais duas cirurgias de ovário. De lá para cá, submeteu-se outras quinze vezes ao bisturi – só nos últimos sete anos foram nove cirurgias (duas em 2005), totalizando cerca de oitenta dias de hospital. "Os problemas estão ficando mais constantes, e isso inclusive vem atrapalhando este meu mandato", avalia a senadora, que em março foi convidada num dia e desconvidada no outro para o cargo de ministra-chefe da Coordenação Política do governo Lula. Na biblioteca da casa que o pai, o senador José Sarney, lhe deu na Praia do Calhau, onde passa o tempo jogando baralho ("pontinho e buraco") com a família e brincando com os netos Fernanda, 6 anos, e Rafael, 4, Roseana falou a VEJA sobre sua infindável seqüência de internações e cirurgias. Mesmo longe do Congresso, os contatos políticos continuam: durante a entrevista, três deputados telefonaram para saber se o objetivo da conversa era anunciar seu rompimento com o governo.  

Veja – Qual a explicação médica para tantos problemas de saúde?
Roseana – Não existe uma explicação. É o meu organismo, é o destino... Não sou uma pessoa infeliz, não encaro isso como uma tragédia e nunca deixei de fazer os meus projetos. Em quase todas as minhas campanhas, fico um tempo de cama por causa da saúde. Já teve campanha em que fiz um único comício. Em 2002, gravei uma cena para a campanha do Lula no segundo turno da cama do hospital.  

Veja – Quantas cirurgias a senhora já fez?
Roseana – Dezoito. A primeira aconteceu em Genebra, na Suíça, quando eu tinha 19 anos. Tiraram o meu apêndice e um cisto de ovário. A situação mais grave foi em 1998: depois de retirarem nódulos de pulmão, ovários, útero, trompas e ductos mamários, tiveram de abrir de novo por causa de aderências no intestino. Além dessas, fiz outras três cirurgias de mama, duas de intestino, uma no joelho, duas de ovário e outras para corrigir aderências. As duas mais recentes foram no começo deste ano, para tratar de uma fístula no reto. Tirei licença em junho para finalizar esse tratamento, com nova cirurgia agendada para julho, mas como melhorei muito os médicos acharam melhor me deixar em observação por enquanto. A cada vinte dias, um médico da equipe do doutor Raul Cutait (cirurgião gastrointestinal de São Paulo) vem a São Luís me examinar. Tenho também um nodulozinho na mama, detectado em março, e outro na tireóide, que estão sendo monitorados. A minha sorte é que até hoje não tive câncer, porque sempre descubro os tumores antes que se transformem na doença. Estou nas mãos dos meus médicos, uma espécie de junta que trata de todos os meus problemas, mesmo os que não são sua especialidade. Já pensou se tivesse de contar minha história a um médico novo?  

Veja – Em algum momento a senhora chegou a ser desenganada?
Roseana – Sim, na quarta vez em que fui para a mesa de operação em 1998. Eu estava muito debilitada por causa das três cirurgias anteriores e tive novamente problemas de aderência. Meu organismo parou. A certa altura, o doutor Adib Jatene (cardiologista) saiu da sala de cirurgia e disse ao meu pai que a situação era muito difícil. Ele desabou e foi rezar. O doutor Pinotti (José Aristodemo Pinotti, ginecologista), que também fazia parte da junta médica, me contou depois que chegou um momento em que, no meio da cirurgia, ele disse para a equipe: "Vamos parar, sentar dez minutos e pensar no que fazer". E eu lá, desacordada e com a barriga aberta. Resolveram testar um medicamento experimental para combater aderências que tinha sido mandado dos Estados Unidos, à base de ácido hialurônico, que é usado normalmente para preencher rugas. Eu, em vez de aplicar no rosto, apliquei na barriga, e por isso digo que ela nunca vai envelhecer (risos). Nem sei se o medicamento já havia sido aprovado. Mas deu muito certo.  

Veja – Foi por causa das cirurgias que a senhora nunca engravidou?
Roseana – Olha, eu cheguei a fazer duas cirurgias só para tentar engravidar. Na segunda, em 1979, o médico viu que eu tinha muitas aderências abdominais e sugeriu que buscasse tratamento em São Paulo. No fim daquele ano, achei que não valia a pena enfrentar tanta confusão e resolvi parar de tentar e adotar a minha filha (Rafaela, hoje com 25 anos). Ela era prematura e teve de passar sete dias na incubadora. Quando ela saiu, foi como um nascimento... E ela era a minha cara. Três anos depois me deram o veredicto final: se engravidasse, seria uma gravidez de alto risco por causa da grande quantidade de cirurgias. Aprendi a conviver com a idéia, com muita tristeza, claro. Decidi esquecer e cuidar da saúde.  

Veja – A senhora faz terapia?
Roseana – Não, nunca fiz. Nunca senti pena de mim. O que acontece comigo são provações de Deus. Às vezes, acho que é demais, sim, mas tento pensar que é melhor que seja comigo do que com outra pessoa que não possa pagar tratamento médico.

Veja – Seu corpo tem muitas cicatrizes?
Roseana – Várias, sendo a maior na barriga. Elas quase não me incomodam mais e foram melhorando, porque a cada nova operação vai um cirurgião plástico junto para dar um trato. Eu queria mesmo era fazer uma plástica na barriga, mas um dos meus médicos, o David (Uip, infectologista), disse que, se eu tentar, ele senta em cima da minha barriga para impedir. Gostaria de fazer uma operação para me embelezar. Até agora, tudo foi para tirar pedaço. Tenho a mama direita menor que a esquerda, mas isso não me incomoda. Aliás, na última cirurgia de seios, eu disse para o doutor Pinotti: "Estou com 50 anos. Não quero mais ter peito. Tira logo tudo". Mas ele não tirou.  

Veja – E tratamento estético, já fez algum?
Roseana – Em 2000, quando operei o joelho, o cirurgião plástico aproveitou para fazer uma lipo na região interna das coxas e preenchimento na linha em volta da boca. Esta, ele disse que eu tinha de repetir de seis em seis meses, mas nunca mais fiz. Ainda não pinto o cabelo, o que acho que deve ser conseqüência da grande quantidade de anestesia que já tomei. Pelo menos uma coisa boa as anestesias e aplicações de morfina trouxeram: devem ter retardado meu envelhecimento (risos).  

Veja – A senhora é uma paciente indisciplinada, do tipo que não segue a orientação dos médicos?
Roseana – Não. Eu confio nos médicos, faço o que precisar ser feito. E não me entrego. Não existe possibilidade de eu achar que estou morrendo. A morte vai me pegar, se Deus quiser, dormindo. Não vou me entregar tão cedo.  

Veja – Depois de cirurgias mais delicadas, a senhora pedia para ser dopada por causa da dor?
Roseana – Todas as noites, para poder dormir, eu ficava esperando ansiosamente pela injeção de Dormonid. Era o momento feliz. Eu só acordava às 6 da manhã. Além disso, já tomei muita morfina. No hospital, tem um aparelhinho que, quando a dor fica demais, a gente aperta e a morfina vem. Dá uma aceleração danada no coração. Eu evito usá-lo. Agüento o máximo de dor possível e só o aciono quando estou muito ruim. As dores físicas que senti foram muito fortes, mas nada me tira a alegria e a vontade de viver. Depois que o trauma vai passando, você vai fazendo coisas que não devia, como fumar.  

Veja – A senhora não conseguiu parar de fumar?
Roseana – Não tenho planos de parar. Eu passei a fumar menos, passei a administrar. Até a cirurgia de pulmão eu fumava um maço e meio por dia. Agora, passo até três dias sem fumar. Negociei com meus médicos até dez cigarros por dia. Quando eles viram que é uma coisa que me faz bem, aceitaram. Se bem que, de vez em quando, numa roda de violão, eu passo dos dez.  

Veja – Que seqüelas as cirurgias lhe deixaram?
Roseana – São muitas. Por exemplo, passei dois anos sentindo terríveis dores de cabeça, até descobrir que eram seqüela da operação de 1982 em que retiraram mais de 1 metro de intestino. Houve uma descalcificação da coluna que provocou microfraturas no pescoço, que causam a dor de cabeça. Agora, faço reposição de cálcio diária pelas narinas, com uma bombinha. Tenho ainda uma tendinite no pescoço, em conseqüência dos tubos usados nas cirurgias. Uso pescoceira como proteção quando faço viagens de carro e joelheira quando vou ficar muito tempo em pé.  

Veja – Tem um melhor e um pior momento na cirurgia?
Roseana – O melhor momento é quando vou tomar anestesia. Entro num barato total. Vou tomando e me desligando. O pior é quando vou para a sala de cirurgia. Dou a mão para Deus.  

Veja – Que episódio ocorrido no hospital a senhora nunca esquece?
Roseana – Em 1998, de novo. A quarta e mais delicada cirurgia daquele ano aconteceu em 12 de julho, dia da final da Copa do Mundo entre Brasil e França. Estava voltando da anestesia quando ouvi uma enfermeira dizer para a outra: "O Brasil está perdendo de 2 a 0". Veja só: todo mundo estava na maior tristeza. E eu senti uma felicidade imensa, porque percebi que estava viva.  

Veja – A essa altura, a senhora deve saber tudo sobre hospitalizações.
Roseana – Brinco que vou fazer um manual do paciente. Quando entro na UTI, sei mexer em tudo. Digo para as enfermeiras: "Cuidem dos outros pacientes, que estão piores que eu". Para dor nas costas, peço logo bolsa de água quente e um fisioterapeuta. Outra coisa que aprendi é que massagem no pé é importantíssima. Toda vez que volto da anestesia, ganho uma. Dá um imenso bem-estar. E quando vou visitar algum doente também faço massagem nos pés dele. Sempre que vou ser operada, levo o meu travesseiro e dois saquinhos com mais de cinqüenta medalhinhas de santos, terços, escapulários e rezas. Em um deles está um cordão com as minhas medalhas de estimação, que não posso mais usar por causa das lesões no pescoço.

Veja – Do que a senhora teve de se privar por causa da saúde?
Roseana – Deixei todos os meus hobbies. A única coisa que eu ainda faço é jogar baralho. Eu gostava de jogar vôlei na praia, de bater bola. Não faço mais trilha de jipe. Minha moto está guardada. Não posso mais dormir de barriga para cima, por causa do pescoço. Mandei transformar os meus colares em broches. Bolsa, só uso se for do tipo mochila. Salto alto, raramente. Ando de tênis a maior parte do tempo. De um mesmo modelo em couro, tenho dez pares de cores diferentes.  

Veja – A senhora tem momentos de rebeldia?
Roseana – A minha rebeldia, que os médicos aceitam, é só o cigarro. Já tive de passar seis meses comendo purê de batata com carne moída e só saí da dieta uma vez: numa festa de criança, fiquei enlouquecida por brigadeiro, peguei um e fui comer no banheiro. Foi o melhor brigadeiro da minha vida. Depois das cirurgias de intestino, sempre tive de fazer dieta. Na última, de janeiro, os médicos me autorizaram a tomar sorvete dietético. Pois tomei e tive diarréia! 

Veja – O que a senhora aprendeu depois de tantas cirurgias?
Roseana – Que quem se entrega se acaba. Você não pode abandonar os seus planos de vida. Quando aparece uma doença, penso: isso surgiu para que eu adquira mais força para fazer aquilo mais adiante. Quando consigo sair de uma complicação, eu me sinto uma supermulher.  

Veja – Isso se aplica às disputas políticas?
Roseana – Claro. Não existe isso de dizer "se perder uma eleição, eu me acabo". Se eu perder uma eleição, vou ter outra para enfrentar. Não é o fim do mundo. O episódio de 2002, aquela armação eleitoreira em que exibiram 1,3 milhão de reais achados no cofre da empresa do meu marido com o propósito de remover meu nome da lista de presidenciáveis, me machucou de forma intensa, mas passageira. Se eu não tivesse sentido tantas dores físicas muito piores, talvez tivesse me abalado mais. Eu não planejava ser candidata a presidente, mas é claro que gostei de ver o meu nome subindo nas pesquisas. Não deu certo. Fui eleita senadora e o dinheiro nos foi devolvido pela Justiça. Na época, foi trágico. Três anos depois, não acho que tenha sido tão ruim.  

Veja – Para a senhora, que no começo do ano dormiu ministra do governo Lula e acordou sem o cargo, como é estar longe de Brasília neste momento de crise?
Roseana – Deus ajuda, né? Eu não vou lhe dizer que não queria ser ministra. Queria, sim. Ofereceram-me a coordenação política, coisa que eu adoro fazer. Ouvi muita gozação dos colegas que me chamavam de "quase-ministra". Agora, olha a confusão que está aí.  

Veja – Quais os seus planos para o futuro?
Roseana – Continuar. Tenho os meus sonhos e olho para a frente. Quero ter mais um mandato de governadora e depois pretendo parar, ser avó e ter um tempo para mim.

 
 
 
 
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