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Carta
ao leitor
Ter governo é preciso
VEJA traz nesta edição
uma reportagem especial sobre a hipótese que se afigura
cada vez mais concreta de que a sociedade brasileira atingiu
um ciclo virtuoso em que as instituições protegem
os mercados das ondas de choque produzidas por crises políticas,
e isso, por sua vez, diminui o risco de os governos cometerem desatinos
e de aventureiros se elegerem, o que acabaria por reforçar
as instituições.
Se é mesmo verdade que
tão almejado grau de civilização foi alcançado,
é preciso destacar que ele resultou de conquistas contra
as quais o PT, hoje no governo, lutou encarniçadamente quando
era oposição. Como mostra a reportagem que começa
na página 58,
tais conquistas são, principalmente, a abertura da economia
para o exterior e os avanços institucionais que proporcionaram
a privatização de estatais, o controle dos gastos
públicos e o regime de metas de inflação. O
que foi dito acima poderia ser resumido da seguinte forma: o Brasil
segue adiante, apesar da crise, porque a mão do governo sobre
os rumos da economia hoje é menos impositiva. Diz uma máxima
de Goethe, o genial poeta alemão, que "o melhor governo é
aquele que nos ensina a governarmos a nós mesmos". Estamos
longe disso e, de certa maneira, foi a sociedade brasileira que
ensinou a si própria a não esperar salvação
pelas mãos do Estado e agora dá lições
ao governo.
Ao ver diminuída a esfera
de influência do governo, embora ainda haja muito que fazer
nesse sentido, cada cidadão tem a oportunidade de construir
o próprio destino, sem interferências indevidas. Mas
é um erro pensar que um país pode viver sem governo,
ao sabor apenas das regras de um mercado onipotente e onisciente.
A presença forte do governo deve ser sentida na garantia
de oportunidades iguais para todos na educação, na
saúde, na segurança pública, bem como na fiscalização
do jogo econômico e na aplicação das leis. É
desse equilíbrio entre o público e o privado que nascem
a prosperidade e o progresso social. A receita é tão
rara quanto antiga. Está retratada de modo admirável
num afresco pintado na cidade italiana de Siena, no século
XIV, pelo artista Ambrogio Lorenzetti: Os Efeitos do Bom e do
Mau Governo na Cidade e no Campo.
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