Edição 1922 . 14 de setembro de 2005

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Carta ao leitor
Ter governo é preciso

VEJA traz nesta edição uma reportagem especial sobre a hipótese – que se afigura cada vez mais concreta – de que a sociedade brasileira atingiu um ciclo virtuoso em que as instituições protegem os mercados das ondas de choque produzidas por crises políticas, e isso, por sua vez, diminui o risco de os governos cometerem desatinos e de aventureiros se elegerem, o que acabaria por reforçar as instituições.

Se é mesmo verdade que tão almejado grau de civilização foi alcançado, é preciso destacar que ele resultou de conquistas contra as quais o PT, hoje no governo, lutou encarniçadamente quando era oposição. Como mostra a reportagem que começa na página 58, tais conquistas são, principalmente, a abertura da economia para o exterior e os avanços institucionais que proporcionaram a privatização de estatais, o controle dos gastos públicos e o regime de metas de inflação. O que foi dito acima poderia ser resumido da seguinte forma: o Brasil segue adiante, apesar da crise, porque a mão do governo sobre os rumos da economia hoje é menos impositiva. Diz uma máxima de Goethe, o genial poeta alemão, que "o melhor governo é aquele que nos ensina a governarmos a nós mesmos". Estamos longe disso e, de certa maneira, foi a sociedade brasileira que ensinou a si própria a não esperar salvação pelas mãos do Estado e agora dá lições ao governo.

Ao ver diminuída a esfera de influência do governo, embora ainda haja muito que fazer nesse sentido, cada cidadão tem a oportunidade de construir o próprio destino, sem interferências indevidas. Mas é um erro pensar que um país pode viver sem governo, ao sabor apenas das regras de um mercado onipotente e onisciente. A presença forte do governo deve ser sentida na garantia de oportunidades iguais para todos na educação, na saúde, na segurança pública, bem como na fiscalização do jogo econômico e na aplicação das leis. É desse equilíbrio entre o público e o privado que nascem a prosperidade e o progresso social. A receita é tão rara quanto antiga. Está retratada de modo admirável num afresco pintado na cidade italiana de Siena, no século XIV, pelo artista Ambrogio Lorenzetti: Os Efeitos do Bom e do Mau Governo na Cidade e no Campo.

 
 
 
 
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