|
|
André
Petry Deixem Jeson em paz
"Jeson
virou a Geni de Franca. Os adversários da eutanásia – religiosos dogmáticos,
em geral – não lhe deram o direito sequer de pensar em voz alta"
Sou a favor da legalização da eutanásia. É uma louvável
alternativa que o homem encontrou para morrer com dignidade, para evitar o suplício
das dores vãs. Mesmo assim, mesmo defendendo que a eutanásia seja
um direito disciplinado na lei brasileira, eu precisaria ser louco para apontar
o dedo, atirar uma pedra ou escrever uma linha que fosse contra a atitude de Rosemara
dos Santos Souza, a mãe de Jhéck Breener de Oliveira, que luta para
impedir que seu filho seja submetido à eutanásia. O pequeno Jhéck,
4 anos, está num leito de UTI, vítima de uma doença degenerativa
irreversível. Já perdeu a fala, a visão, o movimento dos
braços e pernas, alimenta-se por meio de sonda e respira com ajuda de aparelhos.
A luta de Rosemara merece respeito e, onde quer que ela apareça, assim
tem sido. A luta de Jeson de Oliveira, o pai de Jhéck, também deveria
ser respeitada. Mas é nesse ponto que a história se complica.
Jeson queria pedir à Justiça que seu filho fosse submetido à
eutanásia. Ele não suporta ver o filho preso a uma cama, inerte,
morto para a vida, sem andar de bicicleta, tomar um sorvete, apontar para a Lua,
desenhar um elefante, bater palmas, sorrir. E o que se fez com esse pobre homem?
Não lhe deram uma lasca de respeito. Jeson foi hostilizado, xingado, difamado.
Foi acusado de assassino, de querer matar o próprio filho! Jeson pensou
até em se mudar de Franca, a cidade paulista onde mora e onde seu filho
está internado, porque já não podia caminhar na rua em paz.
Ceifaram-lhe o direito de ir à Justiça. Questionaram-lhe até
a sanidade mental, sugerindo que procurasse tratamento psiquiátrico
forma maliciosa de sugerir que a eutanásia é coisa de gente mentalmente
perturbada. Jeson, afinal, desistiu de tentar a eutanásia do filho. "Desisto
oficial e definitivamente. Quero dar chances à mãe e estou entregando
meu filho a Deus", disse ele, numa entrevista, na véspera do feriado de
7 de setembro. O pai de Jhéck, claro, tem todo o direito de mudar de idéia
(e, pessoalmente, saúdo que tenha conseguido dominar seu sofrimento para
ceder à vontade da mãe de Jhéck).
O dado repugnante é a intolerância da qual foi vítima. Jeson
virou a Geni de Franca, só faltou ser apedrejado nas ruas. Os adversários
da eutanásia religiosos dogmáticos, em geral não
lhe deram o direito sequer de pensar em voz alta. É coisa própria
das mentalidades entrevadas, dos que se sentem ungidos por forças superiores,
dos que cevam suas idéias como se fossem bens supremos, perfeitos, inatacáveis.
É fruto dessa intolerância, dessa supremacia auto-atribuída,
a postura da Igreja Católica de sempre pressionar (na eutanásia,
no aborto, no casamento gay, nas pesquisas com células-tronco embrionárias)
para que todos os brasileiros, católicos ou não, vivam segundo os
preceitos da própria Igreja. É uma espécie de fascismo divinizado.
Aos religiosos dogmáticos e intolerantes
em geral, aos que sacralizam suas idéias e acham que sabem tudo da vida
e do sofrimento, aqui vai um apelo: deixem Jeson em paz! Ele já sofre o
bastante com um filho que perdeu a liberdade de viver para tornar-se um prisioneiro
da vida. A eutanásia, caros intolerantes, pode ser, sim, um ato de amor.
|