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Edição 1 764 - 14 de agosto de 2002
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Tem muito mais
além de Cancún

Com bons hotéis e atrações
de primeira, o México tornou-se
a meca dos descolados

Raul Juste Lores

 
Marcos Issa/Ag. Argos
Divulgação
Jogo de luzes nas ruínas de Chichen Itzá: vale tudo para impressionar o turista e fazê-lo prolongar a estada No sofisticado Las Ventanas, em Los Cabos, suítes com diárias de
4 000 dólares e lotação de 90% durante todo o ano

Fazer turismo no México – com exceção das praias de Cancún – já foi considerado tão cafona quanto o filme que Elvis Presley fez em Acapulco em 1963. Não é mais assim. No universo dos ricos e descolados dos Estados Unidos e da Europa, o México tornou-se trendy e cool. Ou seja, é sofisticado e está na moda. A forma como os mexicanos conseguiram reverter a decadência é uma boa lição para qualquer país que queira levar o negócio do turismo a sério, como o Brasil. O que fizeram foi oferecer serviços e atrações melhores e mais caros. Dessa forma, puderam atrair o empresário americano que vai jogar golfe nos luxuosos resorts de Los Cabos e o europeu cujo desejo é ver a arquitetura barroca e as ruínas pré-colombianas de Oaxaca. A renda do setor turístico mexicano aumentou mais de 30%, apesar de receber os mesmos 20 milhões de turistas estrangeiros por ano desde 1997. Eles devem deixar 9 bilhões de dólares no país neste ano. Junto com o turismo doméstico, serão 60 bilhões de dólares, quase 10% do PIB do país. No Brasil, são 21 bilhões de dólares decorrentes da movimentação interna e apenas 3 bilhões de dólares do turismo internacional. "Dá para atrair o visitante com sol e praia", diz Leticia Navarro, ministra do Turismo do México. "Mas temos de oferecer outros produtos, como ecoturismo, cultura, entretenimento, esportes de aventura, opções de compras, para ele ficar mais tempo e gastando mais."

O México tem algumas vantagens em relação ao Brasil. Além de seus 11.000 quilômetros de praias – 3.000 a mais que o litoral brasileiro –, espalhados por dois oceanos, dispõe de monumentos históricos e ruínas seculares por todos os lados. A grande sorte, contudo, é a fronteira com os Estados Unidos. Até os anos 60, as estrelas de Hollywood passavam férias em Acapulco. Mas acabaram fugindo do crescimento desordenado que encheu o lugar de prédios horrendos, tirando-lhe a graça de pueblo tropical. Do mesmo jeito que criou Cancún nos anos 70, o governo mexicano seguiu a política de escolher um pontinho no mapa e transformá-lo em destino turístico de primeira grandeza – só que agora com maior preocupação em relação ao impacto ambiental e às opções de entretenimento para forasteiros. Vale tudo para impressionar o turista: em Chichen Itzá, onde estão as maiores ruínas maias do México, no Estado de Yucatán, há shows noturnos com raios laser nas pirâmides, com desenhos das civilizações pré-hispânicas.

Los Cabos nasceu com o espírito de luxo, conforto e entretenimento. A mais de 1.000 quilômetros da capital mexicana, mas pertinho da Califórnia, reúne resorts luxuosos, fauna marinha rica e águas claras. O governo entrou com a infra-estrutura, de aeroporto internacional a estradas modernas, e grupos empresariais convocaram arquitetos badalados para construir hotéis mais bonitos e menores para um turista mais exigente. O número de quartos de hotel triplicou nos últimos dez anos. Ao gosto dos endinheirados, na pequena cidade de Cabo de San Lucas, há nove campos de golfe e dezenas de hotéis com diária média de 500 dólares. O resort mais exclusivo é o Las Ventanas, com 61 suítes. Com hóspedes famosos como Cindy Crawford e Mel Gibson, tem uma taxa de ocupação de 90% o ano inteiro. Todos os 400 empregados falam inglês. Igualmente chique é Oaxaca, no sudoeste do país. A cidade tinha um centro histórico sujo e péssima infra-estrutura turística. Nos últimos cinco anos, quase todo o patrimônio foi restaurado e vários casarões de 300 anos viraram hotéis projetados pelos melhores arquitetos. Com 250.000 habitantes, Oaxaca tem dezenas de museus e galerias de arte. "É um dos lugares mais badalados das Américas", disse a revista americana Condé Nast Traveller, uma das bíblias do turismo.

Dali saem excursões para os oito grandes sítios arqueológicos das civilizações zapoteca e maia, pré-astecas, que ficam ao redor da cidade. Boa parte dos 80 milhões de dólares que o governo mexicano gasta por ano em publicidade no exterior tenta atrair os europeus para a mescla de ecoturismo com arqueologia e arquitetura colonial. Nessa onda de profissionalismo a todo custo está a ministra do Turismo do país. Ela, que nunca havia sido política, foi recrutada pelo presidente Vicente Fox por intermédio de uma empresa de headhunters. Ex-diretora da Colgate-Palmolive no México e da Gillette nos Estados Unidos, a ministra Leticia Navarro encara o turismo como algo caro ao México: um negócio lucrativo.

   
 
   
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