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Entre
dois mundos
O respeitado escritor
marroquino ataca
os preconceitos e procura criar uma
ponte entre o Ocidente e o Islã
Carlos Graieb
Se existe um fosso entre as civilizações do Ocidente e do
Islã, poucos intelectuais têm feito mais esforços
para estreitá-lo do que o marroquino Tahar Ben Jelloun, de 58 anos.
Num vaivém contínuo entre seu país natal e a França,
onde fixou residência, ele tem procurado traduzir e interpretar
as queixas que surgem de lado a lado. Além de uma abundante produção
jornalística, também dedica seu tempo a criar obras de caráter
didático, como O Racismo Explicado à Minha Filha ou
O Islã Explicado às Crianças. Mas o empenho
político de Ben Jelloun não deve ocultar outro fato: ele
é um poeta e romancista consagrado. Já recebeu a mais importante
honraria literária francesa, o Prêmio Goncourt, e é
um best-seller no mundo árabe. Uma de suas coletâneas de
contos foi há pouco publicada no Brasil: O Primeiro Amor É
Sempre o Último, um retrato da guerra dos sexos à maneira
muçulmana. "Freqüentemente me perguntam se minhas raízes
literárias são mais marroquinas ou francesas. Na verdade,
acho que os autores de que me sinto mais próximo são mesmo
os latino-americanos, como Gabriel García Márquez e Mario
Vargas Llosa", diz Ben Jelloun, que nesta entrevista fala de xenofobia
na Europa, antiamericanismo no Oriente Médio e amor.
Veja Se um jovem marroquino lhe perguntasse hoje se deveria
ou não emigrar para a França, o que o senhor diria?
Ben
Jelloun
Eu certamente procuraria dissuadi-lo se ele pensasse em emigrar clandestinamente.
Há todo tipo de argumento contrário a essa forma de emigração,
a começar pelo político não invada um país
que vem dando mostras muito claras de que não deseja sua presença.
As circunstâncias em que a travessia para a Europa é feita
também são cada vez mais assustadoras. Não passa
uma semana sem que a televisão espanhola, sintonizada facilmente
no Marrocos, mostre imagens de africanos e magrebinos detidos quando tentavam
entrar na Espanha ilegalmente ou afogados quando a barca precária
em que navegavam afundou. O que me espanta, contudo, é o fato de
as pessoas continuarem emigrando, apesar de todos os perigos e de saberem
que não terão uma vida fácil se conseguirem chegar
ao seu destino. Isso é o sinal claro de um desespero muito grande.
Veja O que causa esse desespero?
Ben
Jelloun O
fato de países como o Marrocos, nas condições geopolíticas
atuais, terem se transformado em verdadeiros fabricantes de pobres. Por
que isso acontece? Por causa, é claro, de uma antiga história
de concentração de riqueza, que faz com que uma parcela
ínfima da população detenha uma fatia imensa da riqueza
desses países. Mas, sem o desejo de soar ressentido, gostaria de
apontar também para a responsabilidade e o egoísmo dos europeus,
que freqüentemente conduzem sua política econômica de
maneira a sufocar o crescimento das nações pobres que lhes
estão próximas. Recentemente vimos o Marrocos ser fragorosamente
derrotado numa negociação sobre cotas de venda de pescados
o país foi obrigado a aceitar uma cota bem mais baixa do
que seria de seu interesse. Também vimos a Espanha impor barreiras
de importação contra nossos produtos agrícolas. É
hipócrita torcer pelo desenvolvimento marroquino e ao mesmo tempo
tomar medidas que sufocam esse desenvolvimento. O problema é que,
quando as iniciativas marroquinas se tornam impossíveis, o marroquino
perde seu sustento e sente a necessidade de partir para onde haja emprego.
Veja O que mudou na vida dos imigrantes depois do 11 de setembro?
Ben
Jelloun Houve
um recrudescimento do medo, da raiva e da desconfiança dirigidos
contra eles. E, como vem sendo fartamente noticiado, tornaram-se muito
mais audíveis as vozes de extrema direita que falam contra o imigrante.
É preciso dizer que esse movimento de inclinação
para a direita vem crescendo já há vinte anos. Mas o 11
de setembro criou o ambiente propício para que ele ganhasse força
mesmo em países como a Holanda, onde o número de imigrantes
está longe de ser tão grande quanto na França ou
na Bélgica.
Veja Fala-se na possibilidade de a Europa harmonizar suas
leis de imigração. O senhor crê que isso seja possível?
Ben
Jelloun
Acho muito difícil. A França, por exemplo, ainda mantém
uma relação de metrópole com países como a
Argélia e o Marrocos. Já a Itália não tem
nenhum antecedente nesse campo. Como harmonizar memórias que são
tão diferentes? Os magrebinos têm direito de reclamar muito
mais da França do que podem fazê-lo em relação
à Itália ou à Holanda.
Veja Além de muita retórica, os políticos
de extrema direita também lançam mão de estatísticas
sobre criminalidade, para defender medidas rigorosas contra a imigração.
Eles não têm um bom argumento aí?
Ben
Jelloun
Quanto à retórica, gostaria de registrar que ela é
muito grosseira e, ao mesmo tempo, muito eficaz. Quanto às estatísticas
de criminalidade, é preciso observar os fatos de perto para interpretá-las
melhor. Vejamos o exemplo da França. Lá, a delinqüência
de fato cresceu entre os imigrantes. Na maior prisão de Marselha,
quase 70% da população carcerária é de origem
não-francesa. Mas é preciso notar que não estamos
falando de crimes graves, que envolvem assassinatos ou máfias organizadas.
São coisas como furtos de automóveis, roubos de carteiras
enfim, o varejo da delinqüência. E isso se explica por
motivos pelos quais a França também tem responsabilidade.
Em 1974, o então presidente francês Valéry Giscard
d'Estaing tomou medidas favoráveis ao chamado reagrupamento familiar
ou seja, a possibilidade de os imigrantes que trabalhavam na França
trazerem seus parentes do estrangeiro. Foi um gesto generoso, mas sem
planejamento. Antes, era preciso criar condições de vida
e educação para aqueles que viriam e cresceriam no país.
Em vez disso, deixaram essas pessoas entregues à sua própria
sorte, vivendo em condições urbanas precárias. Há,
por exemplo, um número incrível de repetência escolar
entre os imigrantes. Apenas 4% dos estudantes que entram na universidade
na França, hoje em dia, são de origem estrangeira. O número
se mostra mais preocupante quando se sabe que, entre os franceses com
o mesmo nível de remuneração dos estrangeiros, 25%
dos jovens conseguem chegar à universidade. As crianças
não chegam ao ensino superior por duas razões básicas:
como os pais em geral são analfabetos, eles não incentivam
os filhos a continuar na escola. Além disso, as crianças
vivem em cômodos muito pequenos e não têm privacidade
para estudar. Nenhum governo francês desde d'Estaing tomou medida
alguma para cuidar desse problema, e hoje o país paga a conta.
Tudo o que eles fizeram ficou no plano da repressão. E a repressão
é política de curto prazo, que não tem efeitos duradouros.
Veja Qual sua opinião sobre o líder francês
de extrema direita Jean-Marie Le Pen?
Ben
Jelloun
Ele é um político astuto e malicioso. Le Pen é verdadeiramente
racista, acredita de fato na inferioridade de certos homens em relação
a outros. É um homem de má-fé, que utiliza táticas
de comunicação muito bem estudadas, apresentando-se como
um guru que tem todas as respostas, embora tecnicamente seus argumentos
sejam absurdos. Quando ele afirma que enviará todos os imigrantes
para casa, não profere mais que uma bravata. Num país em
que 8% da força de trabalho é formada por imigrantes, se
isso acontecesse a economia entraria imediatamente em colapso. Le Pen
diz absurdos, mas com tal ênfase e brio demagógicos que as
pessoas acreditam nele.
Veja Repetindo o título de um de seus livros, como
explicar o preconceito a uma criança?
Ben
Jelloun
Se você está falando a uma criança privilegiada, é
preciso estimular sua imaginação, colocá-la na posição
de alguém que seria vítima de discriminação.
É precis explicar o preconceito a uma criança?
Ben
Jelloun
Se você está falando a uma criança privilegiada, é
preciso estimular sua imaginação, colocá-la na posição
de alguém que seria vítima de discriminação.
É preciso perguntar se ela aceitaria ser privada de sobremesa só
porque é árabe. Em meu livro, e nas palestras que dou pela
França, é isso que procuro fazer: pôr as crianças
numa posição de identificação, fazê-las
sentir que não tolerariam ser submetidas àquilo que seus
vizinhos muitas vezes têm de agüentar. É uma técnica
simples e eficaz. Para a criança que é vítima de
preconceito, insisto na necessidade de discutir, de dialogar. Acima de
tudo, tento insuflar confiança nela. O mais importante é
impedir que se sinta uma vítima, que afunde no ressentimento ou
na apatia, pois nesse caso endossará os preconceitos e contribuirá
para a sua perpetuação.
Veja O intelectual palestino Edward Said costuma dizer que
o fundamentalismo "é menos um retorno às raízes da
religião islâmica do que uma reação aos governos
corruptos do Oriente". O senhor concorda com essa idéia?
Ben
Jelloun
Concordo, e acrescentaria que o fundamentalismo é também
uma reação extremada ao Ocidente e à conivência
dos governos ocidentais com os ditadores do mundo árabe-muçulmano.
Os líderes fundamentalistas são demagogos. Eles sabem perfeitamente
que não existe algo como "a volta às raízes do Islã".
Utilizam as crenças das pessoas para tecer discursos ideológicos
e implementar políticas retrógradas. De certa maneira, estão
próximos de Le Pen, que também faz uso do medo e da ignorância
para atingir seus fins políticos.
Veja Qual o papel do problema palestino no relacionamento
entre o mundo muçulmano e o Ocidente?
Ben
Jelloun
Absolutamente central. O nó do problema é a causa palestina,
e o apoio sistemático que os Estados Unidos dão a tudo o
que os israelenses fazem. O que ocorreu no campo de refugiados de Jenin
deixou os árabes furiosos, mais ainda porque nem os Estados Unidos
nem a Europa se empenharam para que houvesse uma investigação
séria a respeito. Nada disso, evidentemente, serve de justificativa
para atentados terroristas. Atos como esses não podem ser justificados
de maneira nenhuma. Há uma diferença, no entanto, entre
justificar um ato extremo e tentar compreendê-lo. Eu posso compreender
por que um jovem palestino que viu sua casa ser dinamitada ou que não
pode estudar nem trabalhar acaba se tornando um homem-bomba. Diante da
falta de oportunidades, você se transforma em candidato a qualquer
coisa, mesmo a essa morte absurda. É preciso colocar-se na pele
desse jovem sem futuro. Mas são raras as pessoas no Ocidente que
procuram fazer essa ginástica intelectual.
Veja Em seu livro de contos, recentemente publicado no Brasil,
uma das personagens femininas pergunta-se: "Por que, em nosso povo, quase
nunca existe harmonia entre o homem e a mulher?" É assim mesmo
que ocorre entre os muçulmanos?
Ben
Jelloun
A reflexão dessa personagem é verdadeira. Se, de um certo
ponto de vista, os sexos estão sempre em guerra, no Islã
essa guerra é acentuada pela falta de justiça em relação
às mulheres. Se um homem e uma mulher se apresentarem diante de
um tribunal num país muçulmano, ela, de saída, já
está em desvantagem. Alterar essa situação é
um dos maiores desafios para os países islâmicos. Por causa
dessa desigualdade perante as instituições, homens e mulheres
também vivem suas relações amorosas, seus encontros
mais íntimos, como disputas de força. Não há
negociação. Na Europa, se um homem e uma mulher se sentem
incapazes de conviver, eles negociam uma separação, uma
reparação. Nos países muçulmanos, não
há diálogo. Há tomada de poder.
Veja Parece haver uma contradição no que diz
respeito ao sexo nos países árabes. Fala-se muito a respeito
da sexualidade, ao mesmo tempo que sua vivência é problemática.
Ben
Jelloun
Há, de fato, uma espécie de contradição que
termina freqüentemente em violência. Quando somos crianças,
aprendemos que no islamismo a discussão sobre a sexualidade é
autorizada e mesmo encorajada. "Não há pudor em falar da
sexualidade no Islã" é um bordão muito conhecido.
E há muitos textos clássicos, feitos por grandes teólogos
dos séculos XIV ou XVI, que têm por tema o erotismo. Eles
são francos e claros. Por outro lado, há algo que é
comum a todas as sociedades mediterrâneas, e não apenas às
islâmicas: o que poderíamos chamar de "medo do feminino".
Temos irmãos ciumentos de suas irmãs, pais obcecados por
suas filhas, maridos que temem patologicamente a infidelidade de sua mulher.
Lembro-me de um caso ocorrido há cerca de um ano, na França,
no qual um imigrante marroquino matou sua filha com as próprias
mãos porque ela queria casar-se com um católico. "Eu não
pude suportar a idéia de que ela se casaria com alguém não-muçulmano",
disse ele.
Veja A poligamia ainda existe no Marrocos?
Ben
Jelloun
Sim, mas é extremamente rara e malvista. Hoje, as mulheres podem
incluir em seu contrato de casamento uma cláusula contra essa prática.
Ou seja, elas mesmas podem proibi-la. Para dizer a verdade, acho que a
idéia da poligamia é muito mais excitante para os ocidentais
do que para os muçulmanos.
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