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Gustavo
Franco
Um
acordo singular
"A
surpresa positiva representada
pelo tamanho avantajado do acordo
tem a
ver com sentimento de
culpa"
Ilustração Ale Setti
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São pelo menos três as singularidades do nosso acordo com
o FMI. Primeiro, deve-se ter claro que obtivemos, na verdade, um acordo
e meio: um de 6 bilhões de dólares para vigorar em setembro,
após a aprovação pelo board do FMI, e outro
de 24 bilhões que funciona como uma espécie de opção,
que o próximo presidente poderá ou não exercer. A
inteligência política dessa estrutura está em reduzir
a ansiedade do mercado sobre o próximo governo, pois encosta contra
a parede os candidatos nos quesitos básicos de responsabilidade
macroeconômica. Nenhum deles se arriscará a recusar o acordo,
pois a opção é gratuita, cavalo dado. Cavalgá-lo
ou não é outra conversa, pois essa decisão somente
poderá ser tomada pelo presidente eleito, e comprometer-se agora,
para o sim ou para o não, é sentar na cadeira antes do tempo.
Mais à frente, todavia, o novo presidente terá dificuldade
em deixar de exercer a opção, pois teria de abandonar a
bagatela de 24 bilhões de dólares. Seria preciso que seu
programa fosse robusto o suficiente para dispensar essa luxuosa ajuda.
Pode muito bem acontecer. Caso o próximo presidente resolva, por
exemplo, elevar a meta de superávit primário de 3,75% do
PIB para uns 5%, ganhará a possibilidade de reduzir os juros de
forma muito mais vigorosa do que seria possível na vigência
de um acordo com o FMI. Faria, assim, um programa de "déficit zero",
à Bill Clinton, e com esse cacife de credibilidade poderia caminhar
sem o FMI. É factível, mas o leitor enxerga alguém
que se habilite?
Um segundo detalhe interessante é que o mercado fez uma festa em
torno de o BC ter aumentado sobremodo sua capacidade de intervenção
no mercado de câmbio, uma vez que ganhamos uma redução
nas reservas internacionais "caucionadas" (ou no "piso" para as reservas
líquidas) e também um dinheiro novo para usar já.
Curioso esse nosso regime de "flutuação cambial", em que
se festeja o fato de o BC ganhar condições de mitigá-la
através de intervenção. E para evitar que o mercado
pense que o BC vai atuar para trazer o câmbio para níveis
razoáveis, tendo em vista os altos custos gerados pela volatilidade
e pela sobredesvalorização cambial, anuncia-se que não
vai haver intervenção necessariamente. Deu para entender?
Um terceiro aspecto interessante é a surpresa positiva representada
pelo tamanho avantajado do acordo, ou o tratamento privilegiado do Brasil
relativamente, digamos, à Argentina. Tal como no acordo de 1998,
uma explicação possível, e interessante, tem a ver
com sentimento de culpa. Naquela ocasião, os países desenvolvidos
(o G-10 em particular) tinham provocado uma crise ao recusar ajuda à
Rússia, assim criando um tumulto financeiro mundial que atingiu
uma "vítima inocente", o Brasil, que vinha fazendo tudo direito
lá do outro lado do oceano.
Agora, fomos vítimas de uma esquizofrenia institucional do lado
deles, que também existiu em 1998, mas neste momento foi levada
a extremos impensáveis. Os bancos centrais do G-10 desandaram a
fixar regras mais rigorosas de provisionamento para créditos concedidos
a países emergentes por bancos sob sua supervisão. Nesse
domínio, os BCs deles funcionam para nós exatamente como
as agências de rating, ou seja, fazendo as coisas piores
quando elas já estão ruins. Isso funciona mais ou menos
assim: num quadro de pressão contra o real e elevação
do risco Brasil, os BCs deles elevam o rigor nas provisões, o que
provoca um encolhimento ainda maior da exposição dos bancos
internacionais aos países emergentes em geral, e ao Brasil em particular.
Desta vez o rigor foi tamanho que fez desaparecer as linhas que abastecem
nosso comércio exterior.
Com isso, verificou-se que, ao contrário do alegado pelo doutor
O'Neill, quem estava tirando dinheiro do Brasil eram os bancos deles por
ordem dos reguladores deles. Apontada a inconsistência, ficava,
assim, desmoralizada a objeção republicana aos acordos do
FMI em geral e a este em particular. Cabe agora a nossas autoridades usar
as reservas recém-adquiridas para irrigar nossas exportações
até que se normalize o estado das linhas comerciais.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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