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Papai não quer que sua filhinha de 15 anos, que é quase igual a Claudia
Schiffer, aceite aquele convite para ser modelo, mas os dois combinaram
que no ano que vem voltam a discutir o assunto. Mamãe ficou com medo de
que sua menininha linda, praticamente uma Naomi Campbell, perdesse os
estudos se começasse a desfilar, mas acertaram que a decisão pode mudar
depois da formatura no colégio. Houve um tempo em que o ingresso na profissão
de modelo até podia ser programado mais ou menos dessa maneira. Se a candidata
atendesse aos rígidos padrões de beleza estabelecidos para altura, peso,
busto e quadris, ela poderia ter uma vaga quase assegurada nas passarelas
depois de se entender com a família. Essa época acabou. O conceito de
beleza está mais flexível. Em vez de procurar candidatas apenas com a
ajuda da fita métrica, as agências de modelos querem o rosto diferente,
que elas chamam no jargão do setor de new face. O resultado é que
aumentaram as chances de uma garota conseguir ser modelo fotográfico ou
de passarela mesmo que não seja tão parecida assim com Claudia Schiffer
ou Naomi Campbell. Essa é a principal razão para o fenômeno que se observa
nos concursos que as grandes agências realizam todos os anos. Como a palavra
de ordem é novidade, a média de idade das candidatas a modelo vem
caindo a uma velocidade espantosa. Um exemplo: a idade das garotas que
disputam a etapa nacional do Dakota Elite Model Look, um dos mais importantes
do mundo, já foi 17 anos. Caiu para 16, 15, 14 e bateu agora em 13 anos.
Foi por intermédio de um concurso desses que a mato-grossense Andiara
Loeffler entrou para o casting da agência Elite. Morena, impressionante
1,78 metro de altura, ela ficou entre as finalistas da etapa regional
da competição, realizada em Cuiabá. Andiara tem 13 anos de idade e participou
da prova quando tinha 11. "Desde pequena ficava brincando de desfilar
em casa. Nunca pensei em fazer outra coisa", conta. Para investir
na profissão, a garota mudou-se com a mãe para São Paulo, onde está há
cinco meses. As duas moram em uma pensão. Tenta combinar o trabalho com
a escola, mas ultimamente só tem assistido a duas aulas por semana. "Se
precisar, depois faço um supletivo", afirma. Também foi por concurso
que a catarinense Juliana Brescovici, de 15 anos, apareceu nas passarelas.
Ela se mudou para São Paulo quando tinha 13 e mora num apartamento de
dois quartos juntamente com outras doze meninas. A maioria dorme no chão
da sala. Às vezes, Juliana tem vontade de voltar para casa na cidade natal,
São José do Cedro, mas teme a reação da mãe. "Acho que ela me mata
se eu voltar. Sou o orgulho da cidade, todo mundo fala de mim e eu saio
nos jornais. Fico com medo de decepcionar as pessoas."
Foto: Antonio Milena
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Andiara (centro), 13 anos, com duas colegas: início aos
11
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Na maioria das profissões, a melhor forma de conseguir uma boa colocação
é investir na própria formação. Isso significa estudar mais, aprender
línguas, diversificar atividades e, então, oferecer o currículo às boas
empresas. Em outras palavras, o caminho ideal para o sucesso pode ser
retardar o ingresso na profissão e começar a trabalhar um pouco mais velho,
mais maduro. Na carreira de modelo, na qual a concorrência é feroz, muito
mais do que medicina, direito e engenharia, para ficar nas profissões
tradicionais, dá-se o inverso. Quem espera demais para começar a trabalhar
corre o risco de não chegar a lugar algum. Como conseqüência, essas garotas
começam a conviver ainda muito cedo com uma série de desafios que em geral
se apresentam a quem, em outras áreas de atuação profissional, já passou
dos 20 ou 25 anos. Meninas que até outro dia no máximo ganhavam mesada
precisam aprender a lidar com dinheiro e, em muitos casos, garantir a
renda de uma família que se reorganiza em torno delas. Essas garotas convivem
constantemente com a possibilidade de estrondoso sucesso e a perspectiva
do fracasso e o anonimato. Ora são cercadas de elogios ao ser escolhidas
para um trabalho, ora são descartadas como se fossem um poço de defeitos.
Num momento da vida em que o corpo passa por grandes transformações, a
auto-imagem vive numa montanha-russa e a personalidade está em formação,
essas meninas são ainda expostas a uma erotização precoce e às realidades
de um mundo adulto, muitas vezes indiferente às demandas delas. "Devo
admitir que o universo da moda não é um ambiente saudável para crianças",
diz John Casablancas, dono da agência Elite, que contrata meninas cada
vez mais jovens (veja entrevista). É
de perguntar onde isso vai parar.
Reprodução:
Audi Magazine
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Tatiana Rossi,
14 anos |
Amanda Salvato,
16 anos |
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Fotos para um catálogo da Audi que incluiu até mesmo
meninas com os seios à mostra
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Nua em comercial – Há várias questões
delicadas envolvidas quando crianças trabalham como adultos, e uma das
mais presentes está ligada à educação. As garotas assumem tantos compromissos
profissionais e costumam ter um horário tão irregular que, muitas vezes,
repetem de ano ou abandonam a escola. Para tentar fazer com que estudassem,
uma das grandes agências de modelos conseguiu uma dúzia de bolsas de estudo
num dos bons colégios de São Paulo. Das doze em início de carreira que
se matricularam lá no início do ano, só três continuam freqüentando as
aulas. Outra questão da maior relevância é que, embora sejam crianças,
as new faces, precisam refrear o seu lado infantil. Quando não
o fazem, a carreira pode balançar. A ex-modelo Paula Marques passou por
uma experiência que prefere esquecer. Ela veio aos 15 anos de Santa Maria,
no Rio Grande do Sul, para tentar a profissão em São Paulo. Uma semana
depois de chegar, foi convidada para estrelar um comercial de creme hidratante
e ficou sabendo que, em vez de aparecer enrolada numa toalha, como lhe
haviam dito, teria de gravar sem nada sobre o corpo. Sua nudez não apareceria
no filme, garantiu o fotógrafo. Ela ficaria sentada, exibindo só o lado
da perna. Paula ficou nervosa, deixou o estúdio chorando e abandonou a
profissão. Se tivesse agido como "adulta", poderia simplesmente
ter recusado o trabalho e depois informado à agência sobre o ocorrido.
Mas ela se comportou como a criança que era –
assustada e desprotegida.
Uma das mais requisitadas modelos do momento, Andiara Loeffler viveu
uma situação parecida e conseguiu manter a "postura adulta".
Chamada para fazer um catálogo da revista Audi juntamente com outras
doze modelos, nove delas menores de idade, descobriu que seria fotografada
com uma blusa completamente transparente. Sentiu vergonha, não queria
mostrar os seios. Olhou para o lado e não viu nenhuma das colegas reclamando.
Fez a foto, ganhou a capa do catálogo e uma bronca da mãe, Walli Loeffler:
"Fiquei horrorizada com aquilo. Chamei a atenção dela e da agência".
A Elite desculpou-se e garantiu que o episódio não se repetiria. Já Andiara
perguntou à mãe: "Como é que eu iria brigar com um fotógrafo que
tinha idade para ser meu avô?" Nos Estados Unidos e na Europa, um
catálogo como o da Audi seria impensável. Até porque, em alguns
Estados americanos, menores de 16 anos não podem trabalhar profissionalmente.
Fazem apenas serviços eventuais durante as férias e, ainda assim, só se
tiverem o contrato aprovado por um juiz de menores. Na Califórnia, as
meninas podem trabalhar por até oito horas por dia, mas desde que tenham
duas horas de intervalo para fazer a lição de casa. Deixar a escola, nem
pensar. Das capitais da moda na Europa, Paris é a mais rigorosa. Só trabalha
com maiores de 16 anos. A exceção fica por conta das garotas que conseguem
trazer para o estúdio um juiz de menores disposto a supervisionar seus
trabalhos.
Fotos: Antonio Milena
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Jeísa Chiminazzo, 14 anos
Gaúcha de Muçum, tem pouco mais de um ano de carreira:
chega a trabalhar dezoito horas por dia e já ganha mais
que o pai |
Como a idade média das modelos caiu muito, crianças como Andiara assumiram
o lugar de moças dez ou quinze anos mais velhas e expor o corpo passa
a ser uma rotina. Nos desfiles realizados na semana passada no MorumbiFashion,
em São Paulo, o principal evento de moda no país, boa parte das garotas
tinha em torno de 14 anos. Muitas delas apareceram com os seios à mostra.
Fabiana Semprebom tem 15 anos, e, seguindo o roteiro do desfile que fazia,
foi obrigada a trocar-se em público. "Eu sei que a gente tem de fazer
isso, mas eu pedia para as camareiras se colocarem na minha frente na
hora de mudar a roupa. Fiquei sem graça de saber que as pessoas podiam
ver meus seios pelo telão", conta. Para as pessoas um pouco mais
velhas, há uma forma ainda mais espantosa de imaginar a precocidade dessas
meninas que estão desfilando seminuas a partir dos 13 anos. Elas nasceram
no ano do Plano Cruzado, tinham 6 anos no impeachment de Fernando Collor,
não conheceram moeda que não fosse o real ou computador que não fosse
o Pentium. Celular, para elas não é novidade. O aparelho está no mundo
há mais tempo do que elas.
Todas as pessoas, tenham 8 ou 80 anos, adoram uma paparicação, deliciam-se
quando são o centro das atenções. É da natureza humana. O sonho de ser
famoso, de virar referência naquilo que faz, está na cabeça de qualquer
um. Portanto, é bobagem achar que essas garotas têm algum tipo de desvio
que as diferencia das demais de sua idade ou dos garotos com os quais
convivem. O que há, e isso é especial nessas meninas, é que elas têm família
que as incentiva a ir à luta para tentar realizar o sonho improvável de
virar uma top model. A gaúcha Tatiana Rossi, 15 anos, briga com todas
as armas para chegar ao sucesso, e já contabiliza dois feitos. Um deles:
"Quando fui ao Rio, ganhei um quarto só para mim. Enorme, com uma
camona imensa. Fiquei lá na banheira, me sentindo uma estrela." O
outro feito: "Todo garoto agora quer ficar comigo, só porque eu virei
modelo. Quando chego a minha cidade, todo mundo me paparica, fica me rodeando,
querendo saber minhas histórias. Eu adoro", conta.
Edison Vara
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Candidatas à seleção de agência em Brusque (SC):
procura cresce a cada ano
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"Que outra profissão dá uma experiência dessas? Você passa dez anos
trabalhando com os melhores fotógrafos, estilistas, maquiadores, produtores.
Viaja pelo mundo, aprende várias línguas. Só não aproveita quem não quer",
comenta Marcus Panthera, dono da agência Mega. A chance de uma garota
acontecer no mercado internacional é de uma em cada grupo de 15.000
meninas que se inscrevem nos concursos de modelo. É mais fácil entrar
na seleção brasileira de futebol, onde há 22 vagas disputadas por 16.500 jogadores profissionais. Ou seja, uma vaga para cada
750 atletas. Ainda que os números não ajudem, convenhamos. É ou não é
estimulante e tentador saber que a brasileira Gisele Bündchen, a modelo
mais badalada do mundo, ganha 35.000 dólares
por dia de trabalho e que mesmo algumas iniciantes recebem cachês superiores
ao salário mensal do pai?
A Ford Models prepara-se para receber um recorde de inscrições para a
etapa brasileira do Supermodel of the World, prevista para ocorrer em
outubro: 40.000 candidatas. Em 1996, foram
18.000. No ano passado, 25.000.
A cada mês, a redação da revista Capricho, da Editora Abril, recebe
pelo menos 100 cartas de leitoras interessadas em saber como se faz para
virar modelo. "É impressionante como o sonho é o mesmo: brilhar,
aparecer, ficar famosa. Percebo que só ser modelo não é mais a meta. Elas
querem ser dançarinas do Tchan, apresentadoras de TV", afirma Brenda
Fucuta, redatora-chefe da revista. A explicação, segundo Brenda, é que
as meninas têm a impressão de que o caminho até a fama pode ser rápido,
fácil e recompensador. "Realmente pode ser. As meninas podem conquistar
sua independência financeira rapidamente e virar donas de seu nariz, o
que é o sonho de toda adolescente. Mas elas ainda ignoram os percalços
da profissão", comenta.
Antonio Milena
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Mães de modelos: principais incentivadoras
de carreiras precoces
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E que percalços. É praxe em todas as agências, no Brasil e no exterior,
cobrar todos os serviços e facilidades oferecidas às new faces:
os royalties de 20% pelo agenciamento, as passagens aéreas, o book –
que chega a custar 2.000 reais –, o aluguel do
apartamento e até o motorista que as leva para os trabalhos. Em geral,
a modelo novata acaba devendo mais do que recebe pelos trabalhos. É o
caso de Fabiana Semprebom, aquela que se trocou diante dos espectadores
no MorumbiFashion. Ela devia quase 2.500 reais à agência Mega. "Eles nos cobram até o
motoboy que vai tirar xerox de uma autorização de viagem", conta
sua mãe. Até agora, Fabiana teve pouquíssimo contato com o melhor da profissão:
os grandes cachês. As agências cobram cerca de 400 reais de aluguel das
mães e das modelos que ocupam as "repúblicas" –
apartamentos alugados para hospedar as meninas. Num dos imóveis alugados
pela Mega, mobiliado apenas com camas velhas, uma mesa e uma televisão,
apertavam-se quatro mães e sete modelos na semana do MorumbiFashion. Detalhe:
só havia um banheiro no apartamento. "Não tem conforto, dormimos
apertadas, mas uma faz companhia para a outra", diz a dona de casa
Maria Idê Lopes, mãe de uma das modelos. "E assim ajudamos as nossas
filhas a realizar um sonho de criança."
"Não é bom para crianças"
O americano John Casablancas, 56 anos, é
sócio da agência de modelos Elite, uma das maiores do mundo, e um
dos mais eficientes caçadores de novos talentos. Vetereno da moda,
ele falou com VEJA na semana passada sobre a idade das modelos.
Veja –
O senhor deixaria que sua filha virasse modelo aos 14 anos?
John Casablancas –
Sinceramente? Não. Acho uma imoralidade uma garota de 14 anos trabalhar
como adulta. Nós estamos roubando sua infância! Depois, não tenho
coragem de olhar na cara de alguém e dizer que é saudável uma criança
conviver o tempo todo com fotógrafos de 40 anos, rodeada de adultos,
num ambiente que não tem nada de ingênuo. Não sou psicólogo, mas,
por tudo o que eu conheço desse mundo, sei que ele não é bom para
crianças.
Veja –
Por que então sua agência contrata meninas tão jovens?
John Casablancas –
Não podemos esperar a garota crescer para agenciá-la porque,
se fizéssemos isso, a concorrência iria roubá-la de nós. Por outro
lado, há uma histeria por parte das garotas e de seus pais. Elas
foram contagiadas pela febre das passarelas. Já nos pais surgem
dois tipos de sentimento. Eles têm um orgulho natural de ver a filha
fazendo sucesso. E um pai que recebe dois salários mínimos, o que
não é incomum no Brasil, pode não pensar direito quando sente que
a filha tem a chance de ganhar essa quantia num único dia de trabalho.
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"Eu decidi abandonar tudo"
Antonio Milena
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Durante um ano e meio, a estudante paulista Carla Borghese apareceu
em editoriais de moda, participou de desfiles e viajou o país como
modelo profissional. Chegou perto da fama, mas decidiu parar antes.
Aos 23 anos, retomou a faculdade de direito, foi trabalhar como
vendedora em uma loja de roupas e hoje treina para ser produtora
de moda. Ela conta por que resolveu seguir o caminho inverso:
Veja – Por que você decidiu
abandonar a carreira de modelo?
Carla – Para mim foi uma vida
desgastante. Além da concorrência pesada, você tem de abdicar da
sua vida, da sua família, dos amigos, de tudo aquilo a que você
sempre esteve acostumado. Você passa a viver aquele mundo durante
todos os segundos da sua vida. É como se, da noite para o dia, você
caísse num planeta diferente que não sabe onde fica e onde não conhece
ninguém. Tem de achar normal ligarem para sua casa à meia-noite
para dizer que você tem de estar linda e pronta às 6 da manhã do
outro dia. Quando não ligam para outra coisa.
Veja – Ligavam para dizer
o quê?
Carla – As pessoas vêem as
modelos em festas e aí acham que podem fazer convites para sair
por dinheiro, ficam oferecendo apartamento. Isso embrulha o estômago.
Veja – Você não está sendo
radical em seu relato?
Carla – Sim, talvez. Mas no
começo a gente fica fascinada com as viagens, com os convites, com
a extensa programação noturna. Você se sente na obrigação de freqüentar
as festas para se promover, para ficar conhecida.
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