Inflação no campo

Depois de uma jogada espetacular
na seleção,
Ronaldinho já vale
20 milhões de dólares

Sérgio Ruiz Luz

O atacante Ronaldinho Gaúcho, 19 anos, a nova estrela emergente do futebol brasileiro, já anotou um feito considerável em sua curta carreira: seu chapéu vale mais do que o de Pelé. Um dos dribles mais difíceis e desconcertantes do futebol, o chapéu consiste em passar a bola por cima da cabeça do adversário e apanhá-la de volta sem que ela toque o chão. Na final da Copa de 58, Pelé, com 17 anos, fez uma jogada dessas antes de marcar um dos gols da vitória de 5 a 2 do Brasil contra a Suécia. Mas ele precisou realizar muitas outras façanhas até ser considerado o rei do futebol. Somente depois de quase vinte anos de carreira, mais de 1.000 gols e três títulos mundiais, Pelé saiu do país e foi jogar no Cosmos, dos Estados Unidos, em troca de 6 milhões de dólares. A cifra era uma fortuna inacreditável para o futebol daquele tempo. Considerando-se a inflação americana acumulada no período, o dinheiro da transação equivaleria hoje a 17 milhões de dólares.

Ronaldinho Gaúcho também começou a ficar famoso graças a um chapéu. Na estréia do time canarinho na Copa América, ocorrida há duas semanas, ele estava no banco de reservas e entrou no segundo tempo da partida contra a Venezuela. Num de seus primeiros lances no jogo, aplicou um chapéu num zagueiro, driblou outro marcador sem deixar a bola cair no chão e venceu o goleiro com um chute forte. Mesmo marcado contra uma das piores equipes do mundo, o gol foi suficiente para chutar na estratosfera a cotação do jogador. Na semana passada os jornais espanhóis noticiaram que o Barcelona e o Real Madrid, os dois principais clubes do país, disputavam o passe do jovem craque brasileiro, estimado em 20 milhões de dólares. Foi uma ascensão impressionante.

O iniciante Ronaldinho já está valendo três vezes mais do que um Pelé consagrado (veja quadro ao lado). A explicação está no mercado do futebol. Transformados em empresas rentáveis, os maiores clubes do exterior começaram a investir pesado na contratação das principais estrelas e os preços inflacionaram. A soma das transações de Maradona, Zico e Romário, três dos maiores craques da década de 80, não ultrapassou 15 milhões de dólares. Atualizando-se esses valores, o resultado equivaleria hoje a 25 milhões de dólares. Com esse dinheiro, seria possível comprar no mercado atual apenas uma perna do atacante italiano Vieri. Ele é uma máquina de fazer gols, mas está a quilômetros de distância dos grandes gênios da bola. Mesmo assim, Vieri foi transferido no mês passado do Lazio para o Inter de Milão pela bagatela de 43 milhões de dólares.

Basta uma boa temporada para qualquer desconhecido virar um craque milionário. Um dos exemplos mais recentes é o do atacante Fábio Júnior, 21 anos, eleito a revelação do último campeonato brasileiro. No começo do ano, o Roma, da Itália, arrematou seu passe por 15 milhões de dólares. Comprar um jogador tão jovem é um investimento de alto risco. Com dificuldades para se adaptar ao futebol italiano, Fábio Júnior foi parar na reserva de seu novo time. "Os estrangeiros compensam os problemas de adaptação fazendo os novatos sul-americanos assinar contratos longos, com até oito anos de duração", afirma Léo Rabello, um conhecido empresário de jogadores. "É muito difícil não recuperar o investimento até o final desse prazo."

Ronaldinho Gaúcho deve seguir a trajetória de seu xará mais famoso, Ronaldo, que deixou o país em 1994 para iniciar sua badalada carreira na Europa. Na semana passada, o presidente do Grêmio, José Alberto Guerreiro, mandou estender na frente do estádio do time uma faixa com os seguintes dizeres: "Não vendemos craques. Favor não insistir". A mensagem vinha com uma versão em inglês, mas não deve ser levada a sério. O primeiro interessado que aparecer com um bom dinheiro na mão, leva. Ronaldinho já deu várias entrevistas falando animado sobre a possibilidade de seguir para o exterior. "Não posso perder essa oportunidade", confessa. Segundo Lorenzo Sanz, presidente do Real Madrid, o atacante já teria assinado um pré-contrato com seu clube.

Antes de jogar a Copa América, Ronaldinho havia preenchido dois passaportes viajando com as seleções brasileiras amadoras. No ano passado, seu passe foi usado como garantia de um empréstimo feito pelo clube ao empresário Jorge Gerdau Johannpeter. O presidente do Grêmio diz que o clube já quitou a dívida, mas algumas pessoas que conhecem bem os negócios do futebol gaúcho garantem que Gerdau possui hoje 20% do passe do jogador. Ronaldinho não é o primeiro craque da família. Seu irmão mais velho, Assis, também foi revelado no Grêmio. Era apontado na década de 80 como uma das maiores revelações do futebol brasileiro. Depois de um começo promissor, porém, Assis não vingou no futebol. Perambulou por pequenos clubes da Europa e hoje, com 28 anos, está atuando na segunda divisão japonesa. É um exemplo de que não será tão simples para Ronaldinho provar nos campos que vale mesmo três vezes mais do que Pelé.

 

 
 

 

Com reportagem de Cristine Prestes

 

 




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