Edição 1862 . 14 de julho de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Debates, meios-debates
e não-debates

Por favor, nada de "afro-brasileiros". E que
tal discutir o papel dos militares e o poder
nos municípios?

O debate mais justo que se instalou no país nos últimos meses foi o das cotas para estudantes negros nas universidades. Não que as cotas sejam a solução mais adequada. Nas discussões surgiram alternativas, como o cursinho pré-vestibular para estudantes egressos da escola pública, inaugurado na semana passada em São Paulo. O modelo paulista, instalado no âmbito da USP, não dá exclusividade aos negros – é para estudantes carentes em geral. Se não servir para a promoção dos negros, poder-se-ia imaginar uma variação do mesmo sistema com exclusividade para eles. O debate em si é um avanço. Por um lado, ele tira do armário o preconceito racial por tanto tempo camuflado, no país, ou apresentado com o sinal invertido de "democracia racial". Por outro, põe em xeque essa reprodutora dos privilégios e das desigualdades, lugar em que as elites se aprimoram e se garantem, que é a universidade brasileira.

Já que, pela via das cotas, aflorou o debate sobre a discriminação, não custaria ampliá-lo para setores como os restaurantes e as lojas chiques onde, Brasil afora, não se percebe pele negra entre os funcionários. Só deveria ser proibido, nessa história toda, chamar os negros de "afro-descendentes", ou "afro-brasileiros". Já basta a humilhação de termos adotado a festa do Halloween. Por que mais esse maneirismo do grande irmão do Norte? Alguém argumentaria que a própria cota é uma importação dos Estados Unidos. Sim, mas tem o conteúdo de uma política pública. Já "afro-descendente"... Por que, então, não introduzir no linguajar corrente ítalo-descendente, boliviano-descendente, xavante-descendente? A expressão "afro-descendente", ao contrário do que imaginam seus adeptos, tem duplo caráter discriminatório. Supõe que chamar de "negro" seja feio, em primeiro lugar. E, em segundo, sugere que os "afro-descendentes" (ou, pior, os "afro-americanos", ou "afro-brasileiros") sejam menos americanos do que os só chamados de "americanos", no caso dos EUA, e, no nosso caso, que sejam menos brasileiros do que os chamados só de "brasileiros".  

Dos militares, hoje em dia, temos notícia em duas ocasiões. Uma, quando a violência recrudesce e alguém sugere pôr o Exército na rua. Outra, quando a campanha salarial toma conta dos quartéis. O momento é de campanha pelo aumento dos soldos e, segundo notícias da imprensa, ferve entre os militares a insatisfação com o ministro da Defesa, José Viegas, considerado advogado frouxo dos interesses da corporação. Se há algo que se possa recriminar no ministro – e no governo em geral – é não ter trazido a público a discussão sobre as funções das Forças Armadas. Eis um dos grandes não-debates do país. Os militares ganham pouco e carecem de equipamentos. Certo. Mas qual o retorno que se espera do investimento neles? Quando se fala em pôr o Exército na rua, a resposta é que o Exército não serve para isso. Certo. Mas, com todo o respeito: para que serve, exatamente?

Aí vêm as eleições municipais. Boa ocasião para discutir as instituições locais de poder. Debateu-se o número de vereadores que caberia a cada cidade graças à decisão do Tribunal Superior Eleitoral de decepar um bom número de vagas. No rastro dessa, passou-se aqui e ali à discussão da remuneração dos vereadores, e o ministro Sepúlveda Pertence, presidente do TSE, deu a boa sugestão de que nos municípios pequenos se pague apenas um pró-labore. Ainda assim se trava um debate pela metade. A própria existência das câmaras municipais merece uma discussão. Em cidades menores, conselhos de cidadãos poderiam ser mais úteis.

Nas grandes cidades, os conflitos entre prefeito e governador causam transtorno e atraso. No Rio e em São Paulo, para citar as maiores, os respectivos prefeito e governador vivem em disputa. Em São Paulo, a prefeita Marta Suplicy investe em obras viárias que, além de só deslocar o congestionamento para um pouco mais adiante, incentivam o uso do automóvel. O aumento da rede do metrô, investimento que mais vale a pena em matéria de transporte urbano, é atribuição do Estado. Daí que a prefeitura se volte para obras de superfície de discutível eficácia. E daí que o Estado se mantenha alheio a uma iniciativa da prefeitura como o bilhete com validade para duas horas de viagem em transporte coletivo. O ideal seria que o mesmo bilhete valesse para o ônibus e o metrô. Mas só vale para o ônibus. Nessas condições, e se... Não que o prefeito deva ser nomeado, o que equivaleria a retroceder ao sistema do regime militar... Mas, e se o prefeito das capitais fosse eleito junto com o governador, na mesma e indivisível chapa?

P.S.: A respeito do texto da semana passada, a prefeitura de Diadema informa que os programas ali adotados resultaram na diminuição em 50% dos homicídios no município, comparados os números de 2003 e 1999. Como faltaram ao texto os últimos dados, fica o registro.

 
 
 
 
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