|
|
Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Debates, meios-debates
e não-debates
Por favor, nada de "afro-brasileiros". E que
tal discutir o papel dos militares e o poder
nos municípios?
O debate mais justo que se instalou no país
nos últimos meses foi o das cotas para estudantes negros
nas universidades. Não que as cotas sejam a solução
mais adequada. Nas discussões surgiram alternativas, como
o cursinho pré-vestibular para estudantes egressos da escola
pública, inaugurado na semana passada em São Paulo.
O modelo paulista, instalado no âmbito da USP, não
dá exclusividade aos negros é para estudantes
carentes em geral. Se não servir para a promoção
dos negros, poder-se-ia imaginar uma variação do mesmo
sistema com exclusividade para eles. O debate em si é um
avanço. Por um lado, ele tira do armário o preconceito
racial por tanto tempo camuflado, no país, ou apresentado
com o sinal invertido de "democracia racial". Por outro, põe
em xeque essa reprodutora dos privilégios e das desigualdades,
lugar em que as elites se aprimoram e se garantem, que é
a universidade brasileira.
Já que, pela via das cotas, aflorou
o debate sobre a discriminação, não custaria
ampliá-lo para setores como os restaurantes e as lojas chiques
onde, Brasil afora, não se percebe pele negra entre os funcionários.
Só deveria ser proibido, nessa história toda, chamar
os negros de "afro-descendentes", ou "afro-brasileiros". Já
basta a humilhação de termos adotado a festa do Halloween.
Por que mais esse maneirismo do grande irmão do Norte? Alguém
argumentaria que a própria cota é uma importação
dos Estados Unidos. Sim, mas tem o conteúdo de uma política
pública. Já "afro-descendente"... Por que, então,
não introduzir no linguajar corrente ítalo-descendente,
boliviano-descendente, xavante-descendente? A expressão "afro-descendente",
ao contrário do que imaginam seus adeptos, tem duplo caráter
discriminatório. Supõe que chamar de "negro" seja
feio, em primeiro lugar. E, em segundo, sugere que os "afro-descendentes"
(ou, pior, os "afro-americanos", ou "afro-brasileiros") sejam menos
americanos do que os só chamados de "americanos", no caso
dos EUA, e, no nosso caso, que sejam menos brasileiros do que os
chamados só de "brasileiros".
Dos militares, hoje em dia, temos notícia
em duas ocasiões. Uma, quando a violência recrudesce
e alguém sugere pôr o Exército na rua. Outra,
quando a campanha salarial toma conta dos quartéis. O momento
é de campanha pelo aumento dos soldos e, segundo notícias
da imprensa, ferve entre os militares a insatisfação
com o ministro da Defesa, José Viegas, considerado advogado
frouxo dos interesses da corporação. Se há
algo que se possa recriminar no ministro e no governo em
geral é não ter trazido a público a
discussão sobre as funções das Forças
Armadas. Eis um dos grandes não-debates do país. Os
militares ganham pouco e carecem de equipamentos. Certo. Mas qual
o retorno que se espera do investimento neles? Quando se fala em
pôr o Exército na rua, a resposta é que o Exército
não serve para isso. Certo. Mas, com todo o respeito: para
que serve, exatamente?
Aí vêm as eleições
municipais. Boa ocasião para discutir as instituições
locais de poder. Debateu-se o número de vereadores que caberia
a cada cidade graças à decisão do Tribunal
Superior Eleitoral de decepar um bom número de vagas. No
rastro dessa, passou-se aqui e ali à discussão da
remuneração dos vereadores, e o ministro Sepúlveda
Pertence, presidente do TSE, deu a boa sugestão de que nos
municípios pequenos se pague apenas um pró-labore.
Ainda assim se trava um debate pela metade. A própria existência
das câmaras municipais merece uma discussão. Em cidades
menores, conselhos de cidadãos poderiam ser mais úteis.
Nas grandes cidades, os conflitos entre prefeito
e governador causam transtorno e atraso. No Rio e em São
Paulo, para citar as maiores, os respectivos prefeito e governador
vivem em disputa. Em São Paulo, a prefeita Marta Suplicy
investe em obras viárias que, além de só deslocar
o congestionamento para um pouco mais adiante, incentivam o uso
do automóvel. O aumento da rede do metrô, investimento
que mais vale a pena em matéria de transporte urbano, é
atribuição do Estado. Daí que a prefeitura
se volte para obras de superfície de discutível eficácia.
E daí que o Estado se mantenha alheio a uma iniciativa da
prefeitura como o bilhete com validade para duas horas de viagem
em transporte coletivo. O ideal seria que o mesmo bilhete valesse
para o ônibus e o metrô. Mas só vale para o ônibus.
Nessas condições, e se... Não que o prefeito
deva ser nomeado, o que equivaleria a retroceder ao sistema do regime
militar... Mas, e se o prefeito das capitais fosse eleito junto
com o governador, na mesma e indivisível chapa?
P.S.: A respeito do texto da semana passada,
a prefeitura de Diadema informa que os programas ali adotados resultaram
na diminuição em 50% dos homicídios no município,
comparados os números de 2003 e 1999. Como faltaram ao texto
os últimos dados, fica o registro.
|