Edição 1862 . 14 de julho de 2004

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Televisão
Chocolate sem pimenta

Nova versão de Cabocla é a novela mais
bem-comportada da TV em muitos anos


Ricardo Valladares


Divulgação
A cabocla e seu amado: em 1979, até conversa no quarto era proibida

Quando a primeira versão da novela Cabocla foi ao ar, em 1979, o autor Benedito Ruy Barbosa teve de tomar cuidado para não trombar com a censura. A patrulha moral sobre o horário das 6 era cerrada. A ordem era economizar nos beijos, e até cenas inocentes, sem nenhum contato físico ou erotismo, podiam render problemas. "Tive de mudar um capítulo na última hora porque Zuca e seu par, Luis Jerônimo, conversavam no quarto dela. Homem em quarto de mulher solteira, nem pensar", lembra o noveleiro. Passados 25 anos, censura e zelo moral excessivo por parte do espectador são as últimas preocupações de Ruy Barbosa e suas filhas, Edmara e Edilene, responsáveis pela recriação de Cabocla que a Globo está exibindo, mais uma vez no fim da tarde. Curiosamente, porém, o autor – que sabe muito bem como apimentar uma trama de época, como demonstrou em Terra Nostra ou Esperança – resolveu manter a libido de seus personagens nos mesmos níveis dos anos 70. A nova Cabocla é a novela mais casta exibida pela TV em muito tempo. Para se ter uma idéia, nos 51 capítulos exibidos até a quinta-feira passada houve apenas sete beijos. Que ficaram mais para o beijinho do que para o beijão. A maior parte da sensualidade fica mesmo por conta dos vestidinhos de chita usados pela estreante Vanessa Giácomo, que interpreta o papel-título. O resto é romance.

Manter Cabocla o mais mergulhada possível em água-com-açúcar foi uma decisão estratégica que deu bons resultados. Com 35 pontos de audiência média , a novela não fez feio, até agora, na comparação com sua antecessora, Chocolate com Pimenta, considerada um grande sucesso. Como Chocolate com Pimenta, apesar de um pouquinho mais picante e um tanto mais maluca em seu humor, também era na essência um romanção, uma nova tendência parece ter se desenhado para o horário das 6. Até um ano e meio atrás, o que mais chamava atenção nesse horário era a guerra entre programas policiais exibidos por Record, Bandeirantes e Rede TV!. A audiência desses shows podia chegar aos 18 pontos, enquanto novelas como Coração de Estudante e Agora que São Elas patinavam em torno dos 26 pontos – ibope baixo para os padrões da Globo. Agora os policiais estão em queda livre e o público parece muito mais interessado em mocinhas casadoiras e galãs do interior do que na última perseguição a bandidos pelas ruas de São Paulo. "Fãs da primeira versão de Cabocla talvez percebam algumas mudanças que vou fazer em aspectos políticos do enredo. Quero discutir temas como as eleições, por exemplo. Mas sexo realmente não está nos planos", diz Ruy Barbosa. Vanessa Giácomo deve continuar bem-comportada dentro de seus vestidinhos. Mesmo que Cabocla tope com alguma cachoeira em suas andanças pelo mato.

 
 
 
 
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