Edição 1862 . 14 de julho de 2004

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Internet
Finalmente decolou

Oferecendo preços menores e muita comodidade, o comércio on-line começa
a conquistar os brasileiros


Rosana Zakabi


Nelio Rodrigues/1º Plano
Ana (acima): "Compro produtos que não existem na minha cidade". Santos: "Virou um hábito"
André Penner

Quando os primeiros sites de comércio eletrônico surgiram no Brasil, no fim da década de 90, mesmo quem já navegava pela internet os encarava com um misto de espanto e desconfiança. Parecia arriscado colocar na rede um número de cartão de crédito e expô-lo aos hackers. E era estranho pagar – ainda por cima adiantado – por mercadorias que não se podiam tocar com as mãos. Tudo isso mudou. Primeiro, os brasileiros começaram a arriscar compras virtuais de produtos de valor relativamente pequeno, como livros e CDs. Hoje, no Brasil, vende-se e compra-se de tudo pela internet, desde televisão e geladeira até passagens aéreas e jóias. O comércio de eletrodomésticos on-line cresceu 30% nos últimos doze meses, segundo a consultoria e-bit, especializada no chamado e-commerce. No mesmo período, a venda de telefones celulares pela rede aumentou 94% e a de cosméticos, 118%. A empresa aérea Gol, que revolucionou o mercado em que atua, vende 74% de suas passagens por meio de seu site. Do total de reservas feitas nas maiores redes hoteleiras do Brasil, 7% ocorrem via internet, um aumento de 250% em dois anos.

O e-commerce cresce muito mais que o próprio comércio varejista em geral – as vendas via computador aumentaram 46% no primeiro trimestre de 2004 em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto o varejo cresceu apenas 7,5%. Esse crescimento exponencial se explica pelo fato de que o comércio eletrônico é um território novo e com grande potencial para crescer, o que não ocorre com o comércio convencional. Neste, só há grandes saltos quando a situação econômica do Brasil atravessa momentos particularmente favoráveis, como no início do Plano Real. "Na internet consigo comprar roupas e tênis que não são vendidos nas lojas de Belo Horizonte", diz Ana Gutierrez, de 29 anos, dona de uma academia de ginástica na capital mineira. Além da possibilidade de adquirir produtos que só existem em outros mercados, o comércio eletrônico oferece outra grande vantagem: preços menores. Os produtos vendidos na rede costumam ser mais baratos porque as companhias gastam menos com a contratação de empregados e encargos como o aluguel de espaço físico. Um único funcionário do comércio eletrônico dá conta do trabalho de outros cinco de uma loja de verdade.

Aos poucos, as empresas pontocom foram se aperfeiçoando e começaram a criar mecanismos para ganhar a simpatia dos consumidores. A pontualidade de entrega entre as principais lojas on-line é de 95%. "Como muita gente tinha receio de usar cartão de crédito, uma das estratégias foi fechar parceria com bancos para que o cliente pudesse pagar as contas por boleto bancário", diz Pedro Guasti, diretor-geral da e-bit. As vendas pela internet aumentaram na mesma proporção em que as pessoas passaram a confiar mais no comércio eletrônico. "Depois que me acostumei a comprar pela internet, não parei mais, virou um hábito", comenta o engenheiro paulista José Natalino dos Santos, de 48 anos, que há dois adquiria CDs e livros e hoje compra também eletroeletrônicos.

Essa mudança de comportamento do consumidor, que passou a adquirir produtos mais caros, fez com que nos últimos meses as grandes empresas de e-commerce conseguissem equilibrar as contas e operar no azul. "O que mais vendemos são CDs, livros e DVDs, mas 70% de nosso faturamento vem de produtos de maior valor, como equipamentos de informática, eletrodomésticos e eletroeletrônicos", observa André Shinohara, diretor comercial e de marketing do site Submarino. Na rede Ponto Frio ocorre fenômeno semelhante. Sua loja virtual é a que mais fatura entre as 320 da companhia. "A explicação para isso é que os clientes da internet são das classes A e B e compram produtos mais caros que os clientes de nossas lojas reais", diz Ike Zarmati, diretor executivo do Ponto Frio.

O comércio eletrônico também começou a se consolidar no mercado de veículos. O site Carsale, um dos maiores desse setor, vende 100 automóveis zero-quilômetro por mês, quase o dobro de dois anos atrás. Comprar um carro pela internet sai 2% mais barato que nas concessionárias justamente porque as empresas pontocom têm menos gastos com o negócio que as lojas de verdade. Recentemente, a nova vedete do comércio eletrônico brasileiro tem sido o setor de jóias. No fim de maio passado, a três semanas do Dia dos Namorados, elas se tornaram o item mais comercializado do site Submarino. Só mesmo a internet permite que, sem sair de casa ou do escritório, se possa escolher um mimo para alguém de quem se gosta, comprá-lo, dividir o pagamento em parcelas e fazê-lo chegar às mãos da pessoa no dia seguinte – ou dois dias, se o presenteado morar num sítio no meio do mato.

 



Fotos divulgação/Fabio Mangabeira/Xico Buny
 
 
 
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