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Diogo
Mainardi
Pobre é bom negócio
"Os pobres, nos livros de Guimarães
Rosa,
falam melhor do que nós, pensam melhor do
que nós, se comportam melhor do que nós.
Rosa glorifica a bandidagem, as idéias
e a espiritualidade dos pobres. Ele era
o John Travolta
da 'nonada'"
A gente gosta de pobres. A gente gosta tanto
deles que nunca pensou em torná-los menos pobres. A gente
gosta de votar em pobres, de reclamar de pobres, de escrever sobre
pobres. De fato, a literatura brasileira desapareceria se não
fossem eles. A Feira de Livros de Paraty acaba de homenagear Guimarães
Rosa, o maior representante do pauperismo na literatura nacional.
Os pobres, em seus livros, falam melhor do que nós, pensam
melhor do que nós, se comportam melhor do que nós.
Dá vontade de largar tudo e ir morar no sertão mineiro.
Enquanto eu atravesso a Visconde de Pirajá para comprar meio
quilo de alcatra no açougue, os sertanejos rosianos atravessam
um universo épico. Enquanto eu combato os cupins no chão
de sinteco da sala, eles combatem o Diabo em pessoa. Rosa glorifica
a bandidagem, as idéias e a espiritualidade dos pobres. Uma
espiritualidade muito semelhante à sua, aliás. Rosa
conseguia acreditar simultaneamente em umbanda, kardecismo e cientologia.
Era o John Travolta da "nonada".
Lula, no balanço de um ano e meio de
poder, tentou demonstrar que está trabalhando pelos pobres,
embora não tenha podido dar um aumento relevante do salário
mínimo. Um aumento para 275 reais, segundo os economistas
petistas, representaria um custo adicional aos cofres públicos
de cerca de um bilhão e meio de reais. Um bilhão e
meio de reais é a quantia que Lula gasta anualmente em propaganda,
para persuadir o eleitorado pobre de que ele está trabalhando
pelos pobres. Que eu saiba, nenhum governo do mundo gasta tanto
em propaganda quanto o nosso. Um bilhão e meio de reais foi
também o que a Petrobras gastou para comprar uma distribuidora
de botijões de gás. O maior problema do Brasil é
o gigantismo do Estado. Como responde Lula? Aumentando ainda mais
o Estado. Um bilhão e meio de reais, enfim, é bem
menos do que Lula gastou na liberação de recursos
aos seus aliados, para obter votos no parlamento ou para financiar
obras eleitoreiras. A democracia brasileira se fundamenta no achaque
eleitoral e na compra de votos.
Lutar pelos pobres, no Brasil, é sempre
um bom negócio. O caso mais flagrante é o das aposentadorias
aos perseguidos pelo regime militar. José Dirceu foi um dos
primeiros beneficiários da Lei de Anistia, passando à
frente de muitos octogenários e nonagenários mais
pobres do que ele. A rigor, Dirceu ficou menos pobre por ter defendido
uma revolução comunista em favor dos pobres. Uma dúvida:
ele entrega um quinhão de sua aposentadoria ao partido ou
a regra se aplica apenas ao seu salário ministerial? Quem
também furou a fila da Comissão de Anistia e garantiu
uma rica aposentadoria vitalícia foi Carlos Heitor Cony.
Como se sabe, Cony contestou duramente o regime militar, sobretudo
quando esteve na direção de órgãos subversivos
como a revista Desfile ou quando se prestou a redigir os
manifestos indignados do grande revolucionário Adolpho Bloch.
Ainda bem que o Brasil tem tantos pobres.
Dá e sobra para todo mundo: para os escritores, para os políticos,
para os revolucionários, para os jornalistas. O que seria
de nós sem tantos pobres?
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